A urgência de se reinventar a educação em tempos de pandemia

Professor Afrânio Barros – Desde a segunda quinzena de março deste ano de 2020 as redes pública e privada de ensino do Distrito Federal interromperam as aulas presenciais. E não foi um fato isolado, em todo o mundo a educação escolar foi afetada em virtude do alto risco de contaminação pela covid-19.

Com o fechamento das escolas ficou revelado que as instituições educacionais e o corpo docente não se encontravam preparados para a transição digital, ainda que de forma emergencial e provisória. A necessidade de suspensão as aulas ou do semestre letivo se fez presente, seja devido à impossibilidade de acesso tecnológico devido à falta de  equipamentos, seja por não dispor acesso à internet, seja porque os docentes não sabiam como transpor o ensino presencial para o modelo remoto, seja porque estudantes e/ou professores não dominavam tecnologias, entre outros. A desigualdade digital se fez implacável, reforçou, comprovou e revelou uma situação que perdura e caracteriza há tempos o nosso país: a desigualdade social.

Há, em minha opinião, uma necessidade muito mais urgente do que a da simples retomada das aulas: a de se democratizar e garantir o acesso e o letramento digital a esses estudantes (e professores, também). Não adianta o Estado afirmar que dará início às aulas no modelo remoto, é preciso que esse Estado crie condições para que esse modelo possa funcionar, sem exclusões! Se faz necessário uma formação continuada de professores para o uso das tecnologias, além de fomentar a troca de experiências  entre os educadores que já desenvolvem projetos exitosos nessa área, e criar oportunidades para que nenhum estudante fique à margem desse processo, garantindo assim o preceito legal do acesso e da permanência dos estudantes na educação.

Um outro fator que ficou evidente é que além das inúmeras funções (conhecimento, instrução, socialização, etc), a escola tem o importante papel de cuidar das  nossas crianças e jovens. Longe da escola, especialmente os mais vulneráveis, ficam a mercê da violência. De acordo com os dados da Coordenação de Sistema de Denúncias de Violações de Direitos da Criança e do Adolescente (Cisdeca) e dos Conselhos Tutelares do Distrito Federal a violência cresceu 17,65% entre os dias 23 de março e 19 de maio, com uma denúncia a cada 10 minutos. O que deveria ser um ambiente seguro, a casa, para muitas crianças, ainda é um dos principais cenários de violência.

Em uma sociedade como a nossa a existência da escola tem o papel de promover a equidade, tornando iguais as oportunidades de cada estudante descobrir e desenvolver as suas potencialidades e os diferentes saberes, sendo, também, um dos maiores, se não for o maior, ambiente de desenvolvimento inter e intrapessoal. Os estudantes vão e se afeiçoam  à escola não apenas pelo saber que ali será trocado ou conquistado mas, principalmente, pelas amizades, pelas brincadeiras, pelos relacionamentos que se desenvolvem e caracterizam esse ambiente. Em parte é essa carência de interação que todos nós sentimos com o isolamento social a que estamos sendo submetidos.

Mas o que fazer nesse instante em que as aulas remotas, depois de quase 4 meses de suspensão, começam a se configurar como uma realidade para os estudantes das escolas públicas? É preciso trabalhar em casa a autonomia. Falamos muito na educação ao longo da vida e agora estamos descobrindo isso não em uma situação desejável. Alguns estão aprendendo bem e, em alguns casos, sozinhos, outros mal e mal acompanhados.

As famílias estão aprendendo e incorporando hábitos como lavar as mãos, o uso do álcool em gel, a necessidade da boa alimentação para manter a imunidade contra doenças. Muitos foram obrigados a desenvolver suas habilidades culinárias, fazer bolos, pães, além das refeições. A convivência familiar pode permitir, pode favorecer o desenvolvimento prático de inúmeros saberes que são trabalhados pela escola apenas em sua forma teórica. A matemática nas medidas, as ciências com os cuidados de higiene e saúde pessoal, a interpretação de gráficos, de uma bula, de uma receita, o avanço da pandemia no mundo e no país, a história de outras pandemias neste e em outros séculos, são infinitas as possibilidades de aprendizagens. Isso traduz um dos pilares fundamentais para a educação do século XXI, segundo a UNESCO, o “aprender a conhecer”, que consiste na capacidade de compreendermos o mundo que nos cerca e reconhecermos que a escola não têm o monopólio do saber.

O fato da pandemia ter atingido o nosso continente depois da Ásia e da Europa permitiu que nossos governantes pudessem tomar decisões mais acertadas com base nas ações e estratégias adotadas por outros governos. E pelo que percebemos e acompanhamos, nenhum outro país retornou de forma presencial e efetiva o seu sistema de ensino. Será que devemos fazer diferente e retomarmos as aulas presenciais nos próximos 30 dias?

A cada dia a covid-19 tem vitimado pessoas que nos são próximas, a cada dia ela se faz mais presente e mais próxima de nós. Será que é hora de voltarmos? Recupera-se conteúdos, mas a vida ceifada pelo vírus, não! Penso que é preciso ainda mais uma dose de resiliência, serenidade, lucidez e paciência de todos. A condição segura para o retorno só ocorrerá quando a curva de contaminação for reduzida consistentemente de maneira a garantir a não contaminação dos estudantes, seus familiares, professores e servidores da educação. Cabe lembrar que o ambiente escolar é propício para a propagação do vírus com salas lotadas, filas nos bebedouros, cantinas, além de banheiros e pátios cheios nos intervalos.

A decisão do retorno presencial é uma decisão tão importante que para tomá-la, deveriam se reunir em cada cidade, além do poder público, gestores escolares, professores, pais e estudantes, a fim de pactuar  as novas regras de condutas e distanciamento, necessárias para evitar novas ondas de contaminação e que devem ser seguidas por toda a comunidade escolar, até que tenhamos uma vacina ou medicação comprovadamente eficaz contra o vírus, que maltrata e que mata, a cada dia, mais e mais brasileiros!

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