Cientista político do Guará fala sobre a relação do DF com as eleições que ocorrem no Entorno em 2020

Passados oito meses das eleições de 2018, que elegeu deputados federais, estaduais, governadores e presidente da República, o país ainda não se separou do ritmo intenso de campanha, que separou famílias em cores de verde amarelo e vermelho, e já se prepara para as eleições municipais do próximo ano. Ou seja, num país que tem eleições de dois em dois anos, é quase impossível separar os movimentos políticos do desenvolvimento econômico e social do Brasil. A jornalista Zuleika Lopes entrevistou o cientista político Rócio Barreto para tentar entender o que se passa na cabeça dos brasileiros e, o quê, eles realmente desejam para o país.

O que é ciência política?

Rócio Barreto – É a arte que estuda a política, que se deriva da palavra pólis, que em grego é cidade ou algo que é público. Conhecemos o sistema de governo e as estruturas governamentais. É o estudo da parte que se refere ao bem comum de todas as pessoas e de sua administração.

O que o eleitor brasileiro espera de seus representantes?

-Ele espera que os eleitos o representem de forma ideal, como se o eleitor ali estivesse, seja no parlamento seja no executivo. No legislativo, o eleito precisa fazer a interface do povo com o executivo. No executivo, o eleito deve gerir o orçamento que é composto pelos impostos pagos pelas pessoas. Os eleitores esperam ser representados e não ver dilapidado o patrimônio público, e seja gasto o dinheiro da melhor maneira possível, em benefícios que agradem um maior número de pessoas, política públicas voltadas para o bem público e não apenas a um grupo.

É necessário ser mais pragmático e menos sonhador na hora do voto?

Na hora do voto não é interessante eleger pessoas que façam propostas mirabolantes, impossíveis de serem cumpridas dentro da sua alçada. As pessoas precisam ver nos candidatos, os seus currículos, e sua capacidade de trabalho, o que ele já fez na vida pública. Os candidatos devem ter uma ficha limpa moral, não apenas a que é exigida pelo Tribunal Superior Eleitoral, que a pessoa não tenha sido condenada por um colegiado para ficar ficha suja. Saber o que elas defendem. O tipo de política e ações que já trabalharam quando estavam em algum cargo público, eleito ou indicado. A necessidade dos eleitores, é principalmente, de ficar atento às suas necessidades e, se elas se adaptam ao que os seus candidatos defendem. Ser mais seletivo na hora do voto.

Como incentivar a população a participar mais e reclamar menos da política?

A minha linha de pesquisa é de uma política participativa. Hoje, os eleitores vivem numa democracia representativa, votam dando uma procuração ou cheque em branco para serem representados. Enquanto isso os políticos eleitos abusam deste poder que as pessoas dão a eles. Na campanha, vão às suas casas, o eleitor chama os vizinhos, e as promessas feitas não são cumpridas. As pessoas precisam participar de audiências públicas e cobrar de seus parlamentares, em que ele votou, como ele votou, se a medida era ou não conveniente para a sociedade. As pessoas precisam procurar saber um pouco mais. Se os eleitores não se informar o que seus representantes estão fazendo eles vão ser passadas para trás. Ir atrás da transparência dos mandatos. Pedir um esclarecimento e uma prestação de contas. Temos uma amnésia eleitoral no Brasil. Dentro de três meses após a eleição, poucos sabem o nome de quem votou e os políticos se aproveitam disto.

Quais são as perspectivas para que os representantes do DF influenciem nas eleições do Entorno em 2020?

As eleições do Entorno são muito importantes para o DF. Praticamente 50% das pessoas que moram no Entorno votam no DF. É uma via de mão dupla. São excelentes cabos eleitorais. Precisa existir uma resposta entre ambos os políticos. As pessoas precisam começar a ajudar alguns candidatos que tenham uma linha de pensamento que criem expectativas de desenvolvimento para ambas as cidades como Brasília e Valparaíso, por exemplo. Os políticos brasilienses tem que se alinhar aos políticos do Entorno, porque eles vão corresponder em 2022. E esta correlação de forças é muito importante. Político tem que fazer política em todos os locais e épocas.

O PSD foi bem na penúltima eleição no Entorno. A que se deve seu encolhimento? A influência da gestão do vice-governador do DF, que nos primeiros meses do mandato já rompeu com o governador eleito na mesma chapa?

Com relação ao PSD no DF e no Entorno, é o mesmo que acontece em todo país. Muitos partidos tiveram figuras que se mostraram importantes em determinados momentos políticos, porém alguns saíram e outros mudaram de expectativas e os eleitores se frustraram com a performance destes políticos. A questão do encolhimento visual do PSD, não é só dele. Há muito tempo há um círculo, um movimento que acontece em todo Brasil, uma fragmentação político-partidária. Muitas pessoas estão num partido e não conhecem sequer o regimento. Os candidatos vão porque o partido ofereceu uma legenda para eles e condições para que eles fossem candidatos. Muitos partidos, entre eles considerados grandes, como o MDB nas eleições de 2018 no DF, forneceram quantias do fundo partidário, para mulheres que não possuíam condições técnicas de serem candidatas e nem eleitas, para cumprir a cota de 30%.

O eleitor brasiliense vê com bons olhos a privatização das empresas públicas do DF?

Para o eleitor não interessa se elas são públicas, mistas ou privadas, ou se o GDF vai privatizar. O que o eleitor quer é que o serviço custeado pelo estado seja eficiente. Se for na saúde, no transporte ou na educação, que seja rápido e eficaz. Não há conflito para o eleitor, contanto que sejam atendidos com agilidade. Todos querem serem bem atendidos em qualquer aparelho que seja oferecido. O problema maior será na aprovação do modelo de gestão do transporte público, principalmente no Metrô-DF, alguns deputados trabalham tentando levar a discussão para a sociedade e mostrando alguns modelos, principalmente o custo do transporte público, que pode aumentar substancialmente passando para a gestão privada.

Foto: Assessoria/Rócio Barreto

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