Com muitos problemas e quase metade das lojas de térreo fechadas W3 Sul é retrato da decadência do comércio na região

Texto de Álvaro Pereira, com fotos de Amarildo Castro – Entra e sai governo, e o problema da revitalização da avenida W3 Sul persiste sem solução à vista. Ao longo dos anos, alguns concursos públicos para a escolha de um projeto de urbanização dessa importante via de comércio da cidade foram realizados, os resultados e os vencedores foram divulgados e conhecidos de todos, mas, até agora, nada de prático. Ocorre que esses projetos vencedores, com o passar do tempo e do esquecimento, ficaram de certa forma, datados, e as soluções apontadas não se encaixam nas exigências atuais.

De saída, o que essa via requer, com urgência, é limpeza e uniformização das calçadas. Ao longo de todo o trecho, a avenida não dispõe de piso largo, uniforme, limpo e convidativo para as pessoas perambularem despreocupadas. Calçadas bem desenhadas, com as exigências que um bom desenho técnico recomenda, representam a pré-condição para a revitalização da área, atraindo pessoas de todas as idades e condições físicas.

Antes arborizada e movimentada, local agora é um descampado, onde carros passam em velocidade e não param

No caso da W3 Sul, importante, ainda, é a reconstrução das marquises em frente às lojas, dentro dos padrões atuais, dando mais segurança e abrigo aos pedestres. Fundamental também na avenida são a limpeza e a padronização dos letreiros e propagandas das lojas, acabando com a poluição visual que enfeia e prejudica os locais. A desmotivação dos lojistas pode ser observada com a falta de melhorias nas fachadas das lojas, muitas pichadas e sujas por falta de pintura há muito tempo.

O prolongado descaso das autoridades com essa região traz prejuízos para a população e para os próprios comerciantes que vêm os clientes serem “engolidos” pelos shoppings e outros pontos de comércio mais seguros e limpos.

A reportagem do Blog do Amarildo foi conferir de perto e constatou que sujeira, poluição visual, barreiras físicas e outras anomalias urbanas impõem providências urgentes, principalmente agora em momento de profunda crise econômica, quando milhares de estabelecimentos comerciais fecham as portas.

Para comerciantes, preços dos aluguéis continuam abusivos

Preços proibitivos

Edeutro Prazeres diz que falta de segurança também afasta comerciantes

O técnico especializado em conserto de máquinas fotográficas Edeutro Prazeres Andrade, mais conhecido como Dedeu, 60, há mais de 35 anos estabelecido em uma pequena sala que utiliza como oficina, na quadra 505 Sul, lembra com nostalgia dos tempos que a avenida era um polo comercial. “Sem a presença ainda de shoppings, a W 3 Sul reinava imponente. Mas depois da chegada deles, acrescida da falta de espaço para estacionar, de investimentos, alta dos aluguéis, da criminalidade e, principalmente, da promessa não cumprida quando da realização de alguns jogos em Brasília pela Copa do Mundo no Rio de Janeiro de que seria construído o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), que passaria pela avenida, a  W3 Sul acabou por mergulhar de vez no ostracismo”, relembra Andrade com tristeza.

Apesar de estar há cinco meses como gerente de uma loja que vende utilidades e miudezas em geral, Márcia Carolina já teve a desagradável surpresa de ver a empresa ser visitada por duas vezes por arrombadores. “Os ladrões levaram mercadorias e dinheiro. Depois do ocorrido, o dono reforçou a segurança, mas a insegurança permanece”, comenta.

Luiz Alves, gerente de livraria: “Aqui para sobreviver, tem que vender algo que no comércio tradicional não tem”

O preço elevado dos aluguéis para muitos é o grande vilão da fuga dos comerciantes da W3 Sul. Luiz Alves Morais, que trabalha desde 1989 numa livraria especializada na comercialização de livros que já estão fora de catálogo e de discos de vinil, cita que uma loja em torno de 100 metros quadrados não é alugada por menos de R$ 8 mil. Ele conta que só no ano passado, segundo levantamento de lojistas, 351 comerciantes fecharam seus negócios, num universo estimado em duas mil empresas em toda a avenida. “Além de conviver com todos os esses problemas que desestimulam a atividade comercial, há a concorrência desleal dos shoppings”, arremata Morais, acrescentando que ainda os mantêm resistentes é o tipo de produto que vende.

 

Já a gerente Geisa Barbosa, da Slaviero, conhecida revendedora autorizada de veículos da marca Ford, há 57 anos estabelecida na avenida, diz que apesar das condições adversas do momento econômico, a empresa experimenta uma fase progressiva nas vendas. “Mas poderia ser muito melhor se não fosse a escassez de estacionamento para os clientes e o fato de a avenida ser tombada pelo patrimônio cultural, pois isso limita qualquer iniciativa empresarial de melhorar a divulgação na fachada externa, sem contar com a criminalidade no local”, queixa-se.

 

Alguns comércios que foram referências no passado já desapareceram ao longo do tempo, como a Bibabô, por exemplo. Mas restaurantes famosos como o Roma, assim como algumas especializadas como a Pioneira da borracha, resistem.

Sobrevivendo em novos tempos

A Avenida W3 Sul, em tempos de crise, tem uma nova configuração em sua paisagem. Por conta de aluguéis caros, conforme justifica o mecânico Francisco Vidal, que acompanhado de seus dois filhos, utiliza espaço do estacionamento da entrequadra 513/514 para consertar carros a céu aberto. “Estou aqui 19 anos, que, somado há um ano que fiquei na 513,  lá se vão   20 anos nessa luta. Abrir uma firma, pagar aluguel caríssimo é inviável manter um negócio regularizado. Assim como eu, muitos tiveram essa mesma iniciativa. Já tenho minha clientela formada e com loja montada seria muito difícil manter os preços cobro”, explica.

Na mesma entrequadra onde Francisco trabalha, ele divide o espaço com outros dois quiosques. Só que um deles está fechado. O mecânico argumenta que bem que tentou formalizar seu negócio lá pelo ano de 1996 quando se filiou a uma associação profissional do ramo, mas que não deu certo. “Me inscrevi no Pró-DF, mas isso é coisa pra quem tem dinheiro”, conclui.

Alguns comerciante optam por trabalhar nas ruas: informalidade

Revitalizar a avenida W3 Sul pode ser a redenção da atividade econômica não apenas nessa área específica, mas para toda a cidade, trazendo mais movimento na economia, comércio, mais lazer, mais empregos, e devolvendo aos brasilienses essa importante via, conforme idealizada por seus projetistas. Para isso, basta boa vontade política.

Revitalização discreta a caminho

A Secretaria de Gestão do Território e Habitação (Segeth), por meio de sua assessoria de imprensa, através de e-mail, se limitou a informar ao Blog do Amarildo, quando interpelada sobre o assunto, que está desenvolvendo um projeto de revitalização para a W3 e W2, tendo como piloto as quadras 511 e 512 Sul, que terão suas calçadas padronizadas.

Sobre o fato de a área ser tombada, a assessoria explicou que isso não é proibitivo para intervenções de manutenção, bastando providenciar as devidas licenças, para reformas e construções. “Em breve, a Segeth irá disponibilizar este padrão para que os responsáveis pelos imóveis façam as adequações das calçadas nestes espaços”, informou a pasta.

 

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