Eleições/Valparaíso – Durante a campanha, única pesquisa confiável é a divulgada pela Record, com Mossoró à frente e Lêda em segundo

Cercados de polêmicas, últimos levantamentos mostrando as intenções de voto na cidade podem não refletir a realidade como ela é. Reportagem do Blog do Amarildo encontra suspeita de fraudes em quase todas as pesquisas, exceto a da Real Time Big Data. Trabalho do meio da campanha, mas continua sendo a única referência sem contestações na Justiça

Por Junio Silva – Quando se trata de política, é necessário confiar mas sempre desconfiando. A poucas horas das eleições municipais que irão eleger os novos governantes de Valparaíso, cidade onde a reportagem do Blog do Amarildo acompanha de perto a movimentação, o cenário, pintado desde o início da campanha, ainda é de polarização entre os dois principais nomes que disputam a prefeitura local, Pábio Mossoró (MDB) e Lêda Borges (PSDB).

Até aqui, existem registros de doze pesquisas eleitorais no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, somente cinco foram divulgadas na mídia, apontando o atual prefeito como candidato favorito em quatro ocasiões.

Mossoró com Caiado na última terça: campanha marcada pela disputa direta com Lêda desde o início, mas prefeito liderava há mais de um mês na única pesquisa divulgada que não apresentou suspeitas de fraudes. Com a presença do governador, alguns acreditam que ele pode subir

Segundo informações da assessoria da 33ª Zona Eleitoral de Valparaíso de Goiás, sete representações relativas às pesquisas divulgadas até aqui já foram protocoladas no cartório, com o setor jurídico de ambos os lados trabalhando pesado.

Neste ano, advogados e marketeiros das duas principais chapas que disputam as eleições parecem estar suando a camisa, trabalhando em busca de avançar posições no jogo político para dar um “cheque-mate” em seus adversários no próximo dia 15.

Lêda Borges: uma das pesquisas, a do Instituto Podium a colocou à frente, mas trabalho foi contestado e reportagem apurou que alguns dos responsáveis pela empresa que fez a pesquisa tem ligação partidária com o grupo da ex-prefeita. Já na pesquisa sem indícios de fraude, a da Real Times Big Data, perde para o prefeito

No entanto, as inúmeras polêmicas envolvendo os institutos contratados, a guerra midiática e os bastidores jurídicos, fazem com que a real situação na cidade pareça mais com aquelas histórias de pescador, onde é difícil distinguir o que é verdade ou mentira.

Silvano, do PT, ficou em terceiro da pesquisa considerada séria, a divulgada pela Record. Ele tinha à época, 11%, mas sua campanha tem sido tímida pelas ruas da cidade em volume de apoiadores. Seu sucesso nas urnas virou uma incógnita

Quem são os verdadeiros contratantes das pesquisas eleitorais?

Das cinco pesquisas analisadas até o momento, três delas foram realizadas por empresas diferentes.

Mas o que realmente chama atenção nos registros do TSE é que, com exceção dos levantamentos do Real Time Big Data, supostamente contratados pela TV Record, é quase impossível saber quem realmente encomendou os trabalhos.

As pesquisas feitas por Franco & Rodrigues Comunicação, Instituto Podium e Instituto IPOP, possuem como contratantes dos serviços as próprias empresas responsáveis pelos levantamentos.

Talvez um novo modelo de negócios, onde você paga os seus próprios serviços. Ou só uma forma de esconder os reais nomes que contrataram as pesquisas.

Além disso, os nomes das três empresas aparecem envolvidos em polêmicas por supostas fraudes em pesquisas eleitorais em diversos municípios do país, levantando ainda mais suspeitas sobre a verdade dos números divulgados.

Franco & Rodrigues Comunicação Social e Empreendimentos LTDA

Na última semana, a juíza da 33ª Vara Eleitoral de Valparaíso de Goiás, Letícia Silva Carneiro de Oliveira, determinou que a divulgação do levantamento realizado pela Franco & Rodrigues Comunicação Social e Empreendimentos LTDA, fosse suspenso.

A pesquisa foi divulgada pelo Diário da Manhã no último dia 18, e apontava Pábio Mossoró em primeiro lugar, seguido de Lêda Borges e Elvis Santos, tecnicamente empatados na segunda colocação.

Em reportagem publicada na última semana, um dos coordenadores da campanha de Pábio afirma que o grupo não tem qualquer ligação com a pesquisa, e que isso não passa de uma intriga da oposição para sujar a imagem do atual prefeito.

O que chama atenção, no entanto, é a empresa contratada para realizar o levantamento e as acusações de fraude que a mesma vêm sofrendo durante as eleições deste ano.

Horas de pesquisas, ligações e tentativas de entender o porquê de uma empresa com CNPJ de Rondônia estar interessado na política de Valparaíso não foram suficientes para encontrar as respostas de muitas dúvidas.

Ainda assim, algumas coisas estranhas foram observadas.

A primeira delas, e mais clara, é o Jornal Continental, pertencente ao grupo Franco & Rodrigues e que aparece no registro do TSE como contratante da pesquisa, mesmo sem ter nenhuma relevância e histórico de cobertura em Valparaíso de Goiás.

No site, tudo o que se vê é uma imensidão de vários nadas, espalhados em uma página totalmente duvidosa, que possuí diversas divulgações de pesquisas eleitorais, com última postagem datada em abril.

Além disso, o portal em questão nem mesmo é conhecido por na região onde seu CEP fica localizado, como informou uma jornalista local, que revelou a conhecer diversos sites deste tipo em Rondônia, que só “publicam releases e recebem dinheiro de atividade parlamentar.

Os números telefônicos vinculados ao Jornal Continental não atenderam às ligações, e em outras ocasiões nem mesmo existiam.

Além disso, a mesma empresa está sendo acusada de fraudar pesquisas eleitorais em outros municípios do país, como Vilhena (RO) e Brasnorte (MT), que assim como em Valparaíso tiveram a divulgação dos levantamentos suspensos pela Justiça.

Instituto Podium

Foi uma surpresa para todos quando Lêda Borges (PSDB) apareceu à frente de seus concorrentes com 41,5% das intenções de voto na cidade, em pesquisa realizada pelo Instituto Podium.

Isso porque os números dos levantamentos anteriores mostravam a ex-prefeita de cidade atrás de Pábio Mossoró, e até mesmo empatada tecnicamente com Elvis Santos (Solidariedade).

Mas bastaram poucos dias de divulgação para os números mais uma vez serem questionados na Justiça, com a 33ª Zona Eleitoral determinando uma investigação sobre os dados apresentados.

Assim como a Franco & Rodrigues, o Instituto Podium aparece como próprio contratante da pesquisa.

Outro fato interessante é que, uma das sócias da empresa, Andrea Rosa de Oliveira, já trabalhou como assessora do deputado estadual Jeferson Rodrigues (Republicanos), do mesmo partido da candidata a vice-prefeita da chapa de Lêda, Maria Yvelônia.

Os levantamentos do Instituto Podium já tiveram suas publicações suspensas em municípios goianos como Posse, Ceres e Paupaci, todos por suspeitas de manipulação dos resultados.

Instituto IPOP

Uma das últimas pesquisas divulgadas na cidade apontava Pábio Mossoró com 32,4% de chances de reeleição, seguido de Lêda Borges com 24,7% das intenções de voto.

No entanto, o Instituto IPOP, responsável pelo levantamento foi pego em uma operação do Ministério Público Eleitoral, durante a operação Leão de Neméia, que busca desarticular grupos suspeitos de fraudarem os números de pesquisas em Goiás, como foi mostrado em reportagem do jornal O Popular.

Segundo um dos promotores envolvidos na operação, o proprietário da empresa, Márcio Rogério Pereira Gomes, é investigado por oferecer a venda de pesquisas com resultados manipulados, que tinham como objetivo favorecer candidatos e manipular a opinião pública. 

A denuncia surgiu após um dos políticos que disputa as eleições municipais em Pontalina ter sido procurado por Márcio, que o ofereceu uma pesquisa com números favoráveis pelo preço de R$ 6 mil. Além de não aceitar a proposta, o candidato decidiu denunciar o empresário no Ministério Público de Goiás, desencadeando a operação.

Mesmo que até o momento os números divulgados em Valparaíso não apresentados irregularidades, a cidade aparece na lista dos 191 municípios goianos em que a empresa trabalhou fazendo pesquisas eleitorais em 2020.

Ainda de acordo com informações do O Popular, apesar da data de criação da empresa ser recente, a atuação de Márcio na área já é antiga. Em 2016, por exemplo, ele atuou nas eleições de São Paulo, onde foi alvo de denúncias por fraude, chegando a ser condenado pela prática.

Augusto da Silva Rocha – o super estatístico

Augusto da Silva Rocha é o estatístico responsável por realizar a parte técnica de quatro pesquisas divulgadas em Valparaíso de Goiás, das cinco analisadas.

Quando falamos da situação nacional, esse número aumenta de forma absurda, tendo Rocha à frente de 937 pesquisas nas eleições municipais de 2020. Um trabalho que, ao menos na teoria, seria quase impossível para alguém que possuí apenas cinco pessoas que o auxilia na supervisão dos trabalhos.

Isso acabou levantando suspeitas do Conselho Federal de Estatística (CONFE), que decidiu abrir uma investigação interna sobre a atuação do estatístico.

O histórico de Rocha não é dos melhores, respondendo a quase 200 processos na Justiça por fraude eleitoral.

Não é preciso ir muito longe para encontrar o nome do estatístico envolvido em polêmicas. Neste ano, por exemplo, a divulgação de uma pesquisa sob sua responsabilidade já foi suspensa judicialmente em Extrema, município mineiro.

Em matéria da Revista Época, de 2018, sobre as falhas em pesquisas eleitorais e em como elas são usadas para manipular a população, o empresário revelou que, apesar de os reais contratantes das pesquisas não aparecerem nos registros, a maioria delas são encomendadas por marqueteiros, partidos políticos e até mesmo jornais pequenos ligados a políticos. 

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