Sem dinheiro e com espaços quase sem uso ou depredados, Cultura do Guará vive de ações voluntárias

Com apenas R$ 2 milhões anuais para manutenção da cidade, administração local informa que
investimentos na pasta da Cultura não são prioridade, no entanto tenta colaborar com os eventos

Fotos e texto: Amarildo Castro – Apesar de fazer uma gestão considerada modelo por muitos, o administrador regional André Brandão continua a enfrentar o mesmo desafio que outros gestores enfrentaram nos últimos anos: dar melhores condições de suporte para área de Cultura. A gerência ganhou há cerca de seis meses uma nova responsável pelo setor. Mas sem mão de obra e infraestrutura necessárias, incluindo verbas, esse setor no Guará vive de boas intenções e de iniciativas isoladas de produtores culturais. No entanto, a verba para pagamento de artistas é inexistente. Algumas ações/eventos vêm de fora, do próprio governo e ainda recebem críticas, como foi um circuito de festa junina, ao custo de R$ 120 mil, realizada no mês de junho, no mesmo dia do São João Guará.

O Teatro de Arena, que fica no Complexo do Cave, é um dos maiores espaços para eventos culturais no Guará, mas praticamente não é utilizado e piso encontra-se em estado precário, com muitas rachaduras

Os eventos com apoio da Administração Regional do Guará existem, mas são ações simples, sem pagamento de cachês a artistas, e normalmente organizados por alguns voluntários. Além disso, os espaços reservados na cidade estão depredados ou mal construídos, como, por exemplo, a Praça da Moda, ou simplesmente não caíram no gosto popular. É o caso do Arco da Cultura, construção que fica em frente à Feira do Guará, cujo custo não saiu por menos de R$ 150 mil durante o governo passado, com apoio parlamentar. Atualmente a situação do Arco é de desprezo. Por lá, há muita sujeira, marcas de vandalismo e, ultimamente, raros são os eventos.

Outro local que poderia continuar servindo de apoio à cultura, a antiga Casa de Cultura, agora está abandonada, sem nenhuma atividade. Nesse caso, a Administração Regional do Guará, por meio de sua assessoria, informa que não compensa mexer no espaço porque ele foi incluído no processo de compensação devido ao andamento da Parceria Público Privada da Área do Cave. “Se a gente mexer lá agora, corremos o risco de perder tudo”, informa um comunicado da assessoria da Administração do Guará.

Construído ao lado da Feira do Guará para servir de apoio para pequenas apresentações, o Arco da Cultura está praticamente abandonado e com sinais de depredação

Por outro lado, a Casa da Cultura, principal referência na cidade, não dispõe de estrutura para funcionar de forma adequada. Para se ter uma ideia, não há internet desde sua inauguração, ocorrida há cerca de 5 anos. O local conta apenas com a gerente, um assessor e dois servidores para cuidar da manutenção do prédio, que inclui biblioteca.
Moradores reclamam ainda que alguns eventos no local fogem à proposta cultural.

 

PRAÇA DA MODA -O local deveria ser construído como palco para desfiles de moda. Na verdade, o que há é um grande descampado com piso em cimento, e que serve apenas para algumas feiras itinerantes e abrigar trailleres. Não há informação se a administração autorizou algum deles para funcionar no local

Em relação à produção de eventos também há críticas. Em junho, duas grandes festas juninas foram promovidas na mesma data e horário, dividindo as atenções do público. Tratam-se do Circuito de Festas Juninas do DF, com verba pública e do São João Guará, que não tinha dinheiro do governo. À época, produtores reclamaram do choque de agenda, o que teria dividido o já escasso público.

Produtores dizem que trabalham por ‘amor’
Diante de um cenário nada animador, um grupo de produtores culturais tenta incentivar a cultura local, mesmo sem dinheiro público. Um desses grupos conta com apoio da Confraria Guará, liderada por Miguel Edgar. “A gente não pode deixar a cultura local morrer”, diz. Com alguns apoiadores e espaços cedidos pela administração atualmente Edgar promove vários eventos na cidade, como o Forró Xique-Xique, o Carnaguará, o São João Guará (em parceria com o grupo Mães & Filhas), o Lazer das antigas, entre outros. Para ele, é difícil trabalhar sem verba. “A gente tenta fazer com o que conseguimos, mas há muito tempo ficou inviável pagar músicos e outros artistas, e, por isso, a cultura no Guará virou um hobby”, comenta. Ele acrescenta que já tentou verba pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), mas ainda não deu certo. “A gente faz por amor e pelo prazer de ver as praças lotadas, mas retorno financeiro não dá”, comenta.

A também produtora e cantora Cely Ribeiro, que está na área de eventos no Guará há quase 20 anos, e que recentemente ajudou a promover o Circuito de Quadrilha, um evento sem participação de verba pública. Mas para ela, a falta de verba deixa maioria dos eventos quase inviáveis. “A gente paga muitas taxas e serviços para a realização de qualquer evento, mas a Secretaria de Cultura não tem disponibilizado verbas para o pagamento do básico, como banheiros químicos, segurança, entre outros. Para ela, há muita burocracia para conseguir patrocínio público. “Me parece que diante de tudo que vejo, umas poucas pessoas são favorecidas, outras não”, critica.
Ela ainda reclama que falta valorização ao músico. “Alguns comerciantes, às vezes, nos oferecem de R$ 50 a R$ 80 reais para tocar durante em média três horas, e isso é muito pouco para quem estuda tanto e compra equipamentos tão caros para uma apresentação”, comenta. No entanto, ela enfatiza que isso não é uma regra, mas que há gente que também valoriza, pagando valor justo.


Em resposta à reportagem, o próprio administrador admitiu que a pasta da Cultura carece de mão de obra e verba. “Praticamente não temos dinheiro para investir na cultura local. O pouco que temos administramos como se fosse nossa própria casa. Neste caso, decidimos priorizar a manutenção da cidade”.

Diz ainda que nem por isso as atividades culturais estão paradas. Garante que mensalmente há vários eventos em todo o Guará realizados por meio de parcerias, e que, na medida do possível, dá apoio logístico a eles, incluindo montagem de tendas, som e mão de obra, entre outros. “No entanto, verbas para pagamento de bandas ou outros tipos de show não há dinheiro”, avisa Brandão.

Em relação à falta de internet na Casa da Cultura, em sua visão, o planejamento da construção não incluiu o cabeamento necessário, o que dificulta a solução do problema.

Empresa de comunicação tenta incentivar

Mesmo em tempos difíceis para a área de cultura no Guará, alguns empresários tentam incentivar. É o caso da empresa de comunicação que edita o Jornal do Guará, liderada pelo empresário e jornalista Alcir de Souza e o filho Rafael. Por meio de sua direção, a organização vem apoiando várias atividades culturais na cidade. Segundo informou a gerência, um dos eventos que já se tornou tradição é o Guará com Cerva. Acontece normalmente uma vez por mês, no estacionamento do Edifício Consei, e sempre traz o melhor da música local, além de opções gastronômicas.
A empresa patrocina ainda outras atividades, como 5º Encontro de Carros Antigos, programado para o próximo dia 16 de setembro no Polo de Moda.

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