Cerco contra a Democracia

by Amarildo Castro

O risco de normalizar a expansão autoritária sob o silêncio diplomático

Márcio Coimbra*

À medida que transitamos para 2026, a geopolítica global enfrenta sua conjuntura mais crítica desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A deflagração da “Missão Justiça 2025” por Pequim não representa apenas mais um capítulo de tensões no Estreito de Taiwan; ela sinaliza uma mudança de paradigma na postura estratégica da China. Como analista de risco internacional, observo que não estamos diante de uma simples demonstração de força, mas de um ensaio final para um estrangulamento sistêmico, desenhado para testar a resiliência das democracias e a viabilidade da ordem internacional

A sofisticação deste cerco a Taiwan, que simula a interdição de portos vitais e o bloqueio de comunicações submarinas, busca reduzir o tempo de aviso estratégico dos aliados, criando um ambiente de ambiguidade calculada. Este cenário ganha contornos ainda mais sombrios com o apoio explícito de Moscou. Para o Kremlin, a instabilidade no Indo-Pacífico drena a atenção do Ocidente, aliviando a pressão em suas frentes europeias. Ao endossar Pequim, a Rússia consolida um eixo autocrático revisional que busca substituir o direito internacional pela força bruta, redesenhando fronteiras ao arbítrio de regimes expansionistas.

O risco de um conflito armado é real e suas consequências seriam devastadoras. Taiwan é o epicentro de um “Escudo de Silício”: a ilha produz mais de 90% dos semicondutores avançados do mundo. Sem eles, a civilização tecnológica simplesmente pararia. Estimativas projetam uma perda de US$ 10 trilhões no PIB global. Para o Brasil, o impacto seria existencial: a interrupção das rotas no Mar da China Meridional paralisaria o agronegócio e a mineração nacional, tornando nossas exportações reféns de um pedágio geopolítico autoritário que ameaçaria nossa própria soberania econômica.

É imperativo compreender que a passividade diante da agressão chinesa não compra a paz, mas apenas adia um confronto infinitamente mais custoso. A história ensina que o apetite das autocracias cresce com a concessão, ou seja, permitir que o Estreito se torne uma zona de controle unilateral de Pequim é aceitar o fim da liberdade de navegação global. Taiwan, ao lado de Japão e Coreia do Sul, forma a espinha dorsal que impede o avanço desse modelo ditatorial na Ásia. O destino de Hong Kong serve como alerta sobre a erosão sistemática das liberdades individuais sob o domínio do Partido Comunista Chinês. Proteger Taiwan é garantir que o mundo livre não retroceda.

As nações democráticas devem abandonar a complacência e adotar uma postura de dissuasão clara e assertiva. A diplomacia deve ser elegante, mas inabalável: a sobrevivência de Taiwan como nação livre é inegociável. Defender a ilha não é apenas um ato de solidariedade política, mas de preservação da nossa infraestrutura tecnológica e dos valores democráticos que definem a modernidade.

A estabilidade internacional depende da coragem de sustentar a autodeterminação dos povos frente ao expansionismo opressor das autocracias. O cerco chinês deve ser o despertar que faltava para o mundo entender que a paz não é a ausência de conflito, mas a presença da justiça e do respeito ao direito de um país independente, soberano e livre de existir. A presença de Taiwan no tabuleiro geopolítico é essencial para o equilíbrio de forças do xadrez internacional.

*Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

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