Na prática, Trump poderia ordenar ataque nuclear sem consultar ninguém

by Amarildo Castro

O presidente possui um elenco de autoridades a serem consultadas antes, mas não tem obrigação legal de fazê-lo. Ele pode ignorar assessores e até o secretário de Defesa

Colaboração de Paulo Henrique Arantes (de https://substack.com/)

Uma situação em que o presidente dos Estados Unidos pode, por iniciativa própria e isolada, determinar um ataque nuclear é quando se detecta outro ataque armado, este acionado contra o território americano. Imagine-se um estado de beligerância extremo entre Rússia ou China e Estados Unidos, com o país de Vladimir Putin ou o de Xi Jinping lançando mísseis contra o país de Donald Trump. Haverá muito pouco tempo para responder com contundência a tal agressão, por isso o presidente está pré-autorizado a determinar sem consultar ninguém uma retaliação nuclear. Mas o que se tem, na prática, é um mero protocolo de boa conduta para tais casos.

Quem nos contou esses detalhes litúrgicos foi o jornalista brasileiro que melhor compreendeu o aparato bélico disponível no mundo, Roberto Godoy, sempre pronto para ajudar colegas pouco informados sobre o tema. Godoy nos deixou em 2024 e é uma pena não podermos ouvi-lo sobre o risco nuclear no segundo mandato de Trump.

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O presidente dos Estados Unidos tem uma “sombra” sempre por perto. Seu cerimonial, em todas as situações, é montado de tal forma que esse militar, o “sombra”, portando uma mala com os códigos de ataque, esteja a não mais que 25 metros do presidente. Diferentemente do que o cinema costuma mostrar, não se exige a identificação da íris do presidente para realizar o procedimento. O militar abre a mala – o presidente detém o código -, quebra o selo de segurança, o presidente dá a ordem e o ataque começa.

Suponha-se que Trump decida atacar com armas nucleares outro país numa situação não tão emergencial como a narrada no primeiro parágrafo deste artigo. O presidente possui um elenco de autoridades a serem consultadas antes, mas não tem obrigação legal de fazê-lo. Ele pode ignorar os assessores de segurança nacional, de segurança internacional, o secretário de Defesa. O protocolo recomenda que essas autoridades, se convocadas, dirijam-se ao bunker da Casa Branca e não saiam de lá enquanto o processo não terminar.

Os Estados Unidos são uma superpotência bélica como nunca houve na história da civilização. Godoy nos disse em 2017: “A diferença de capacidade é tão grande, que os Estados Unidos, provavelmente, com uma estratégia já montada, façam algo bem antes de um ataque nuclear. Um ataque nuclear teria implicações políticas tremendas – não é à toa que os únicos ataques nucleares feitos até hoje tenham sido no fim da Segunda Guerra Mundial e, se você levar em conta o tamanho daquelas armas, o iniciador de uma bomba de hidrogênio atual equivale à bomba de Hiroshima”.

Nosso colega não presencia o comportamento de Trump neste 2026, que começa sombrio. Se presenciasse, é possível que a cautela que aventou fosse descartada. As ameaças desta semana de Trump ao Irã são aterrorizantes. O que vem depois das bombas MOP de 14 toneladas que atingiram instalações profundas de enriquecimento de urânio iranianas em 2025?

No auge da Guerra Fria, as duas superpotências – Estados Unidos e União Soviética – poderiam destruir a civilização, num ataque nuclear total mútuo, 36 vezes. Houve então as discussões para redução de armas, veio o fim da União Soviética, o desmantelamento de arsenais, uma negociação para reduzir o número de ogivas – e diminuiu muitíssimo. E o que acontece hoje? Trump e Putin podem destruir a civilização 16 vezes.

Se forem disparados ao mesmo tempo apenas os mísseis que se encontram em submarinos nucleares, o mundo acaba, mas não de uma hora para outra. Vai demorar alguns anos. Num dado momento cairá a “chuva negra” (como aconteceu em Hiroshima e Nagasakiem diversos lugares, aumentarão exponencialmente os casos de câncer, as mutações por causa da radiação. O fim será mais doloroso do que rápido.

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