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Se não a Polícia Federal diretamente, quem presenteia os jornalões com vídeos, áudios e cópias que comprometem figuras escolhidas dedo? Talvez políticos presenteados antes por essa mesma PF.
| Paulo Henrique Arantes O caso Master aparenta ter potencial para complicar a vida de muitos poderosos da República, e já complicou a de um dos piores ministros que desfilaram sua toga pelos corredores do poder, na avaliação deste articulista. José Antonio Dias Toffoli é reconhecido por sua tibieza jurídica e pela volúpia adulatória que destina a políticos em geral, especialmente a mandatários com pendores fascistas. Agora, consagra-se pela destreza com que circula nos ambientes dominados por fraudadores financeiros. A Polícia Federal, até aqui, parece cumprir suas funções no inquérito em tela, a despeito de ignorar a figura do procurador-geral da República, que deveria ser o destinatário de provas obtidas em vez do presidente do Supremo Tribunal Federal. A mesma PF que apura com acurácia, contudo, começa a reprisar a destruição institucional que caracterizou a Operação Lava Jato, de triste memória, mediante vazamentos seletivos que fazem a alegria de parcela da imprensa. Essa “imprensa” engalana-se pelo falso moralismo, pondo-se a serviço das afinidades políticas e dos interesses dos patrões. Se não a Polícia Federal diretamente, quem presenteia os jornalões com vídeos, áudios e cópias que comprometem figuras escolhidas dedo? Talvez políticos presenteados antes por essa mesma PF – trata-se de uma conhecida “tabelinha”. É nítida a intenção, por exemplo, de pintar o STF como instituição corrupta, que teria encarcerado Jair Bolsonaro para beneficiar Lula nas eleições. Toffoli contribui para isso, e outros “Toffolis” aparecerão no decorrer judicial do caso Master. “Noticiário Comentado” conversou com o jurista Lenio Streck sobre o momento policial-judicial-político por que passa o Brasil. Sempre lúcido e saborosamente ácido, o professor foi buscar nas famigeradas jornadas de 2013 – aquela onda de revolta contra nada – a origem de um mal que resiste a sucumbir perante as forças democráticas. “O retrovisor da História nos mostra o que foi feito nos verões passados. Em 2013 poucos se deram conta de que ali estava o ovo da serpente da criminalização das instituições e o ‘enojamento’ para com a politica. Resultado: a Lava Jato, junto com a qual chegaram os outsiders da politica, propagando o ‘novo’”, lembrou-nos Streck, citando como resultado imediato daquelas “revoltas” a eleição de personagens hoje defenestrados da vida pública, como os deputados Carla Zambelli, Daniel Silveira e tantos outros, num processo que culminou com a escolha de Jair Bolsonaro para ocupar o Palácio do Planalto. Segundo o jurista, a metodologia da Lava Jato retorna hoje, com vazamentos seletivos e fontes privilegiadas. “Presunção da inocência? Nem falar. A condenação está na manchete, sempre produzida como um enunciado performativo, auto-explicável. Na manchete está já o veredicto. Há que se ter muito cuidado”, alerta. “A ave de Minerva só levanta voo ao entardecer – não devemos impedir-lhe o voo. Só a Historia pode nos ensinar a não cometer os mesmos erros. Há no ar algo do tipo ‘neo-2013’ ou ‘2013 – o retorno’. Ou ‘2013 – a missão’”, avisa Lenio Streck, em citação hegeliana. A expressão “a ave de Minerva” remete filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ele escreveu, no prefácio de sua obra Princípios da Filosofia do Direito: “A coruja de Minerva só levanta voo ao entardecer.” Minerva é a deusa romana da sabedoria e sua ave simbólica é a coruja, associada à inteligência e à visão na escuridão. Quando Hegel diz que a coruja de Minerva só voa ao entardecer, ele quer dizer que a filosofia – ou a compreensão profunda da realidade – só entende plenamente uma época depois que ela já aconteceu. Ou seja, o pensamento reflexivo não antecipa os acontecimentos — ele os compreende retrospectivamente. *Este artigo atualiza o que foi enviado anteriormente. Foto: Jacson Miguel Stulp. |