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- Enquanto governo comemora menor taxa desde 2012, qualidade do emprego permanece como gargalo estrutural
| Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S (Crédito: Isaque Martins) |
| Enquanto o governo comemora a queda do desemprego para 6,1% – o menor índice desde 2012 -, um dado oficial do IBGE passa despercebido: 14,3% da força de trabalho brasileira está subutilizada. Esse número, que ultrapassa em 8,2 pontos percentuais a taxa de desemprego, revela uma fragilidade estrutural no mercado de trabalho. A subutilização mede profissionais que desistiram de buscar vagas após frustração repetida, aqueles que trabalham menos horas do que desejam e pessoas em posições abaixo de sua qualificação. Segundo Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, PhD pela Unicamp e especialista em gestão de carreiras, essa invisibilidade estatística mascara um problema estrutural. “Romantizamos o número e esquecemos do que realmente importa: a qualidade do emprego determina a trajetória de carreira e a renda esperada ao longo da vida. Temos engenheiro virando Uber, profissional de dados executando tarefas básicas de planilha em startup, bacharel trabalhando como garçom. Todo trabalho é digno e merece respeito, mas quando alguém com qualificação trabalha em ocupação de menor capacidade técnica por sobrevivência, e não por escolha, aí temos um problema estrutural”, analisa Santos. O especialista reforça que quando se soma esses grupos – profissionais que desistiram de procurar, subempregados por horas e aqueles em ocupações precárias abaixo de suas competências -, obtém-se 1 em cada 7 pessoas aptas a trabalhar operando abaixo da sua capacidade. “Isso representa desperdício de potencial estrutural. Estar empregado operando abaixo do seu potencial é uma forma de desemprego invisível. Afeta a carreira, a renda esperada ao longo da vida profissional, e a motivação no trabalho. Quando um profissional está preso a uma posição que não utiliza suas habilidades, há apenas estagnação”, complementa. A discrepância entre as duas taxas aponta para um mercado que cria postos de trabalho, porém de qualidade questionável. O desemprego registrado captura apenas quem está ativamente procurando emprego. A subutilização mede a qualidade e adequação desse trabalho – dimensões que escapam aos números que viram manchete. “O cenário afeta principalmente profissionais com ensino superior, que esperavam trajetórias mais promissoras, e trabalhadores mais velhos, que enfrentam barreiras estruturais para recolocação em posições equivalentes”, registra Santos. Para reduzir a subutilização, é necessário um ecossistema que combine aprendizado contínuo, transparência salarial e oportunidades reais de desenvolvimento profissional. “Criar emprego é insuficiente. É preciso que esse emprego utilize a capacidade intelectual de quem trabalha”, afirma o especialista. Os dados de subutilização do IBGE são divulgados regularmente e são oficialmente reconhecidos como um indicador mais completo do que a taxa de desemprego convencional para avaliar a saúde do mercado de trabalho brasileiro. Sobre Virgilio Marques dos Santos Virgilio Marques dos Santos é PhD em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Master Black Belt em Lean Seis Sigma e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, startup sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Trabalha há 15 anos com desenvolvimento de carreiras, futuro do trabalho e transformação organizacional. É autor do livro “Partiu Carreira“, TEDx Speaker e palestrante em temas de gestão, inovação e liderança. |