- Nova aventura da Pixar coloca brinquedos e dispositivos eletrônicos em rota de colisão e levanta uma discussão que vai além da tecnologia: a disputa pela atenção na infância
A nova história de Toy Story 5 promete colocar Woody, Buzz Lightyear e os demais brinquedos diante de um adversário que faz parte da rotina de praticamente todas as famílias: as telas. Mas, para especialistas em desenvolvimento infantil, a discussão proposta pelo filme vai muito além da concorrência entre brinquedos tradicionais e dispositivos eletrônicos. O que está em jogo é algo mais profundo: a qualidade da atenção dedicada às crianças em uma época marcada por notificações, múltiplas tarefas e estímulos constantes.
Para Julia Trani, coordenadora de qualidade pedagógica da SIS, a força da narrativa está justamente em trazer para o centro do debate uma questão silenciosa, mas cada vez mais presente no cotidiano. “Quando uma criança chama um adulto para mostrar um desenho, contar uma história ou celebrar uma conquista, ela não está apenas compartilhando uma informação. Ela está buscando reconhecimento. Está procurando alguém que diga, mesmo sem palavras: ‘eu vi você'”, afirma.
Segundo a especialista, a infância é construída por milhares de pequenos momentos de validação. São situações simples que passam despercebidas na correria do dia a dia, mas que ajudam a formar autoestima, segurança emocional e senso de pertencimento.
“Existe algo muito importante em ser visto por alguém que é significativo para nós. Quando uma criança percebe que suas descobertas, esforços e conquistas encontram acolhimento, ela entende que aquilo tem valor. E, de certa forma, entende também que ela própria tem valor.”
A reflexão ganha relevância em um contexto no qual o debate sobre o uso de telas costuma se concentrar apenas no tempo de exposição das crianças aos dispositivos digitais. Para Julia, existe uma pergunta igualmente importante que raramente recebe a mesma atenção.
“Falamos muito sobre quantas horas as crianças passam diante das telas. Talvez devêssemos perguntar também quantas vezes, ao longo do dia, elas encontram um olhar verdadeiramente disponível quando tentam compartilhar algo importante.”
A educadora ressalta que a tecnologia não deve ser tratada como inimiga. Smartphones, aplicativos e plataformas digitais fazem parte da vida contemporânea e oferecem inúmeras possibilidades de aprendizado, comunicação e entretenimento.
O desafio, segundo ela, está em evitar que a hiperconectividade reduza os espaços de encontro genuíno. “As crianças não precisam de uma presença perfeita. Precisam de presença real. Muitas vezes, alguns segundos de atenção plena têm mais impacto do que horas de convivência divididas entre notificações, mensagens e distrações.”
Ao transformar as telas em protagonistas do conflito vivido pelos brinquedos, Toy Story 5 acaba retratando uma realidade compartilhada por milhões de famílias. Mais do que uma história sobre tecnologia, a produção convida adultos a refletirem sobre um dos recursos mais valiosos da infância: a experiência de ser visto, ouvido e reconhecido.
“Talvez a pergunta que o filme nos deixa não seja se as telas estão substituindo os brinquedos. Talvez a pergunta seja outra: em meio a tantos estímulos, estamos conseguindo enxergar as crianças quando elas mais precisam de nós?”, conclui Julia.