Pessoas com deficiência visual encontram formas acessíveis de viver a emoção do futebol

by Amarildo Castro
  • A paixão pelo esporte também pode ser construída por sons, sensações e recursos acessíveis que aproximam pessoas cegas ou com baixa visão de cada jogo

Seja em espaços públicos, em casa ou nos estádios, o torneio Mundial de seleções tem o poder de mobilizar milhões de pessoas em torno de um mesmo propósito, torcer por seu país. Entre partidas emocionantes, narrações vibrantes e encontros entre amigos e familiares, o futebol é capaz de unir diferentes gerações e nacionalidades. Para muitos, acompanhar um jogo parece algo simples, quase automático. Porém, para pessoas com deficiência visual, essa experiência pode acontecer de forma diferente, exigindo adaptações que permitam sentir a mesma emoção que os demais torcedores.

Ajustes de contraste, ampliação de telas, aplicativos acessíveis, televisores maiores e posicionamento estratégico nos estádios são algumas das alternativas utilizadas para melhorar a experiência em uma partida, mas por mais que grande parte das experiências esportivas sejam visuais, pessoas cegas ou com baixa visão desenvolvem diferentes formas de acompanhar os jogos. Entre os principais está a audiodescrição, recurso que complementa a narração tradicional, descrevendo de maneira detalhada tudo o que não pode ser percebido apenas por áudio comum, como movimentação da bola, posicionamento dos jogadores, expressões faciais, comemorações, cartões, substituições e reações da torcida.

“A audiodescrição é mais do que somente narrar imagens, ela transforma cada lance em uma experiência nova. Com esse recurso, pessoas com deficiência visual conseguem perceber cada detalhe, tornando os jogos totalmente acessíveis. É uma ferramenta que promove a inclusão, garantindo que todos possam vivenciar a emoção de um campeonato que reúne seleções do mundo inteiro”, explica Silverlei Silvestre, professor de Orientação e Mobilidade da Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual. 

Ainda segundo Silverlei, discutir acessibilidade no futebol é também falar sobre pertencimento social e direito à cultura. “A inclusão no futebol e em outros esportes vai muito além da presença física nos espaços esportivos. A falta de acessibilidade em transmissões, aplicativos, plataformas digitais e estádios pode gerar isolamento social e dificultar a participação de pessoas cegas e com baixa visão em eventos importantes”, comenta.

Rádio como alternativa
Outra forma de acompanhar uma partida é por meio das transmissões no rádio, um recurso que historicamente se destaca pelo estilo de narração mais acelerado, dinâmico e extremamente descritivo. Diferentemente de outras formas de transmissão, o rádio costuma detalhar movimentos, posicionamentos em campo, reações da torcida e o desenrolar das jogadas em tempo real, criando uma experiência mais rica para o ouvinte. 

Para pessoas com deficiência visual, esse formato pode ser a melhor opção quando não se tem a audiodescrição, já que a riqueza de detalhes narrados contribui para a construção do imaginário da partida, permitindo visualizar mentalmente cada lance. Dessa forma, o torcedor consegue acompanhar o jogo de forma mais envolvente, participar das emoções do momento e fortalecer sua paixão pelo esporte.

Nos últimos anos, clubes, emissoras e patrocinadores de campeonatos passaram a ampliar iniciativas de acessibilidade esportiva, especialmente em grandes competições. Ainda assim, especialistas apontam que os recursos disponíveis permanecem limitados e nem sempre estão presentes em campeonatos nacionais, estaduais ou eventos de menor porte. Em muitas partidas, torcedores com deficiência visual utilizam fones de ouvido conectados a equipes especializadas responsáveis por transmitir, em tempo real, informações detalhadas sobre o que acontece em campo. O recurso permite que a pessoa acompanhe a dinâmica do jogo com mais autonomia e participe da atmosfera coletiva que envolve um jogo de futebol.

Para muitas pessoas com deficiência visual, o futebol vai muito além do entretenimento, assim como para qualquer torcedor apaixonado. O esporte representa integração social, troca de experiências e participação em uma das manifestações culturais mais importantes do país. “Garantir acessibilidade no meio do futebol significa assegurar que milhões de brasileiros possam torcer, vibrar e compartilhar emoções de forma plena e em condições de igualdade”, conclui.

Sobre a Laramara:Fundada em 1991 pelo casal Mara e Victor Siaulys, a Laramara é referência nacional no atendimento a pessoas cegas e com baixa visão, contribuindo de forma pioneira na promoção da autonomia, educação, formação profissional, cultura e convivência inclusiva. Ao lado de parceiros e apoiadores, a associação desenvolve programas inovadores que impactam milhares de famílias em todo o país.

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