Lula, esquerda e direita

by Amarildo Castro

Ao dizer que nunca foi “esquerdista”, o presidente não se dissocia dos valores defendidos secularmente pela esquerda global, mas sim de dogmas que foram ficando pelo caminho no decurso do tempo

Paulo Henrique Arantes

“Eu nunca fui esquerdista. Eu era um dirigente sindical que tinha uma belíssima relação com o sindicalismo alemão, uma relação muito forte, uma relação boa com o sindicalismo italiano e uma relação boa com a UGT [União Geral dos Trabalhadores] da Espanha”, disse Lula à diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e ao chanceler alemão, Friedrich Merz, durante o encontro do G7 na França.

Lula pintou um breve retrato pessoal, fiel à própria história, com uma sutil cutucada naqueles que usam a designação “esquerdista” em tom pejorativo. Além disso, ao dizer que nunca foi “esquerdista” o presidente não se dissocia dos valores defendidos secularmente pela esquerda global, mas sim de dogmas que foram ficando pelo caminho no decurso do tempo. Esse é o entendimento natural da fala do estadista brasileiro, distorcido pela má-fé de certos jornalões.

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A leitura do que é ser de esquerda ou de direita no Século XXI não pode desprezar princípios marxistas, mas, de modo ideal, não os deve transpor literalmente para os dias atuais. O que não pode ser ignorado, em hipótese alguma, é que a dicotomia esquerda-direita persiste com solar clareza. E que o trato do termo “igualdade” é o fulcro da díade.

Norberto Bobbio, jusfilósofo italiano admirado pela esquerda e pela direita moderadas e questionado pela esquerda e a direita radicais, morto em 2004, escreveu com propriedade sobre as diferenças entre umas e outras nos tempos atuais. Dentre as considerações presentes no livro “Esquerda e Direita: Razões e Significados de Uma Distinção Política”, de 1994, a principal é: esquerda e direita continuam a existir e suas diferenças são nítidas.

Assim escreveu Bobbio: “Certas uniões ou alianças, que nas relações internacionais e nas relações entre partidos no interior de um Estado singular parecem inaturais, são na realidade consequências naturais da lógica dicotômica. Nas relações humanas, o exemplo extremo de antítese é constituído pela guerra; mas a lógica dicotômica, por outro lado, não é estranha à própria visão tradicional, religiosa ou metafísica, inclusive do mundo natural [luz-trevas, ordem-caos e, no limite, Deus-demônio]”.

Ao dizer que “nunca foi esquerdista”, Lula provoca a plateia a atentar para a lógica dicotômica de Bobbio. Enquanto existirem conflitos, nos ensina o jusfilósofo, a visão dicotômica não desaparecerá, “mesmo se, com o passar do tempo e a modificação das circunstâncias, a antítese até então principal vier a se tornar secundária e vice-versa”.

Atualmente, é certo que o critério definidor do que é ser de esquerda ou de direita reside na maneira como uns e outros lidam com o tema da desigualdade – ou “das desigualdades”. Escreve Bobbio: “As desigualdades naturais existem e se algumas delas podem ser corrigidas, a maior parte não pode ser eliminada. As desigualdades sociais também existem e se algumas delas podem ser corrigidas e mesmo eliminadas, muitas – sobretudo aquelas pelas quais os próprios indivíduos são responsáveis – podem ser apenas desencorajadas . (…) É preciso admitir que o status de uma desigualdade natural ou de uma desigualdade social derivada do nascimento em uma família e não em outra, em uma região do mundo e não em outra, é diferente do status de uma desigualdade que depende de capacidades diversas, da diversidade dos fins a serem alcançados, da diferença de empenho empreendido para tanto. E a diversidade do status não pode deixar de ter influência sobre o tratamento dado a uns e a outros por parte dos poderes públicos”.

Este é o busílis da esquerda, em perfeita sintonia com o modelo de nação buscado, com unhas e dentes, por Luiz Inácio Lula da Silva: a maior parte das desigualdades que indignam os indivíduos é de origem social e, portanto, é eliminável. Por ser uma pessoa de esquerda, anda que livre do pejorativo “esquerdismo”, Lula é o radical oposto daqueles que, por se situarem no lado direito do espectro político, nutrem a convicção de que as desigualdades são exclusivamente naturais e, por isso, não-elimináveis.

As políticas públicas implantadas pelos governos de Lula seriam suficientes para posicionar o petista, sem questionamento, na banda esquerda da régua ideológica. A ampliação do acesso a saúde, educação e trabalho, sempre amparado em direitos constitucionais, aliada ao equilíbrio tributário – está aí a isenção do Imposto de Renda a quem ganha até 5 mil reais mensais – e a iniciativas assistenciais inclusivas como o Bolsa Família, colocam um número cada vez maior de cidadãos em condições de serem menos desiguais em comparação com os mais afortunados por nascimento. Coisa de “esquerdista”.

Foto: Ricardo Stuckert / PR.
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