- Ralph Reis, vice-presidente do Instituto Fliegen, analisa as causas que influenciam o desempenho dos estudantes brasileiros
Leitura, interpretação de texto, raciocínio lógico e resolução de problemas estão entre as habilidades mais valorizadas no ambiente acadêmico e profissional. Todas elas passam, em maior ou menor grau, pelo domínio da língua portuguesa e da matemática, disciplinas consideradas fundamentais para o desenvolvimento educacional dos estudantes.
Os resultados recentes mostram avanços importantes na educação brasileira. O país alcançou 66% de crianças alfabetizadas na idade certa em 2025, superando a meta nacional de 64%, segundo dados do Indicador Criança Alfabetizada. O resultado demonstra que políticas educacionais estruturadas podem gerar melhorias consistentes na aprendizagem.
Apesar desse avanço, especialistas alertam que o desafio não termina nos primeiros anos escolares. Garantir que os estudantes desenvolvam competências em leitura, interpretação de texto e matemática ao longo de toda a educação básica continua sendo um dos principais objetivos das redes de ensino e das iniciativas voltadas ao fortalecimento da aprendizagem.
Para Ralph Reis, vice-presidente do Instituto Fliegen, projeto social sediado em Cotia (SP) que prepara estudantes da rede pública para olimpíadas do conhecimento, o baixo desempenho dos estudantes brasileiros não pode ser explicado por uma única causa. Segundo ele, o problema é resultado de fatores históricos, sociais e educacionais que se reforçam ao longo dos anos.
Confira os principais pontos destacados pelo especialista:
1. O Brasil resolveu o acesso à escola, mas ainda enfrenta desafios de qualidade
Embora a universalização da educação básica tenha avançado nas últimas décadas, o país ainda convive com reflexos de um processo tardio de expansão educacional. “Enquanto países como Argentina e Uruguai iniciaram a escolarização universal ainda no século XIX, o Brasil chegou a esse estágio muito mais tarde. Conseguimos ampliar o acesso, mas ainda enfrentamos o desafio da qualidade da educação”, afirma Ralph.
2. A alfabetização continua sendo a base de todo o aprendizado
Segundo o especialista, uma das principais causas das dificuldades em português e matemática está na alfabetização insuficiente nos primeiros anos escolares. “Recebemos estudantes do 6º e 7º ano que ainda apresentam dificuldades de leitura fluente e interpretação de texto. Sem compreender bem um enunciado, o aluno encontra obstáculos até mesmo para resolver problemas matemáticos que dominaria do ponto de vista operacional”, explica.
3. A desigualdade social ainda pesa no desempenho dos estudantes
As condições de aprendizagem continuam sendo muito diferentes entre os alunos brasileiros. Acesso a livros, internet, ambiente adequado para estudo e apoio familiar influenciam diretamente os resultados. “Muitas vezes, não estamos falando de capacidade ou talento, mas de acesso desigual às oportunidades de aprendizagem. O potencial está distribuído por igual. O que não está distribuído por igual é a oportunidade”, destaca Ralph.
4. Muitos estudantes perdem a confiança na própria capacidade de aprender
Além das lacunas de conteúdo, existe um desafio que raramente aparece nos indicadores educacionais: a autoestima acadêmica. “Muitos estudantes chegam acreditando que não são bons em matemática ou que não levam jeito para escrever. Esse discurso acabou sendo internalizado ao longo dos anos. Quando conseguem superar desafios e perceber que são capazes, a relação com o aprendizado muda completamente”, afirma o vice-presidente do Instituto Fliegen.
5. É preciso ampliar oportunidades de desenvolvimento além da sala de aula
Para Ralph, iniciativas complementares à educação formal podem ajudar a despertar o interesse dos estudantes pelo conhecimento e fortalecer habilidades acadêmicas. “As olimpíadas do conhecimento transformam a forma como os jovens enxergam disciplinas como matemática. Quando o aprendizado passa a ser encarado como um desafio que envolve raciocínio, criatividade e conquista, o engajamento cresce. Além disso, hoje existem caminhos de acesso ao ensino superior ligados ao desempenho em competições acadêmicas, ampliando oportunidades para estudantes da rede pública”, explica.
Para o especialista, reduzir o atraso educacional brasileiro exige uma atuação conjunta entre escolas, famílias, poder público e organizações da sociedade civil. “Nenhum desses atores resolve o problema sozinho. O avanço acontece quando todos trabalham na mesma direção. O talento existe em todos os lugares; o que precisamos fazer é garantir que as oportunidades também existam”, conclui.
Sobre o Instituto Fliegen
Criado em abril de 2024, o Instituto Fliegen é um projeto social sediado em Cotia (SP) que atua na identificação e no desenvolvimento de talentos acadêmicos entre estudantes da rede pública em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa oferece formação complementar em áreas como matemática, física, robótica e astronomia, com foco em olimpíadas do conhecimento e no fortalecimento do potencial acadêmico dos jovens.