- Antes do Mundial, projeção indicou a Espanha como favorita e colocou Argentina, Inglaterra e França logo atrás; as quatro seleções terminaram o torneio exatamente nessa ordem
A Espanha entrou em campo como favorita dos números e saiu como campeã do mundo. A conquista espanhola na Copa de 2026 confirmou a principal projeção de um modelo estatístico desenvolvido por estudantes e pesquisadores da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp), associada institucional da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC).
Antes de a bola rolar, o estudo atribuiu à Espanha a maior probabilidade de título entre as 48 seleções participantes: 15,57%. Na sequência do ranking apareciam Argentina, com 13,62%; Inglaterra, com 9,24%; e França, com 7,84%.
Após mais de um mês de competição, os quatro países terminaram o Mundial exatamente nessa ordem: Espanha campeã, Argentina vice-campeã, Inglaterra em terceiro lugar e França na quarta colocação.
O modelo também indicou corretamente toda a composição das semifinais — e não apenas os quatro classificados. O chaveamento projetado pela FGV EMAp apontava os confrontos França x Espanha e Inglaterra x Argentina, justamente as duas partidas que decidiram os finalistas da competição.
As projeções atualizadas para as semifinais também acertaram os classificados. Contra a França, a Espanha aparecia com 38,9% de probabilidade de vencer no tempo regulamentar, diante de 30,7% dos franceses e 30,3% de possibilidade de empate. A seleção espanhola confirmou o favoritismo ao vencer por 2 a 0.
Na outra semifinal, a Argentina tinha 39,3% de chance de vitória no tempo regulamentar, contra 32,2% da Inglaterra e 28,5% de empate. Os argentinos venceram por 2 a 1 e avançaram para enfrentar a Espanha, garantindo a final indicada pelo modelo.
Favoritismo confirmado na decisão
Para a final, a última atualização do estudo calculou que a Espanha tinha 62,07% de probabilidade de conquistar o título, enquanto a Argentina aparecia com 37,93%.
A equipe espanhola confirmou novamente a projeção ao vencer por 1 a 0, na prorrogação, e conquistar seu segundo título mundial.
O resultado também completou uma coincidência significativa entre o ranking inicial e a classificação final da Copa. A Inglaterra, terceira colocada na lista de seleções com maiores chances de título antes do torneio, derrotou a França por 6 a 4 na disputa pelo bronze e encerrou o Mundial justamente na terceira posição.
O desempenho mostra como ferramentas de matemática aplicada, estatística e ciência de dados podem ajudar a identificar tendências mesmo em uma competição marcada por resultados imprevisíveis.
Os responsáveis pelo projeto ressaltam, entretanto, que modelos probabilísticos não funcionam como previsões determinísticas. Uma seleção apontada como favorita continua tendo determinada probabilidade de ser eliminada, assim como uma equipe com chances menores pode superar as expectativas. O objetivo é medir possibilidades com base nos dados disponíveis, e não afirmar com certeza o que acontecerá em campo.
Como o modelo funciona
O projeto utiliza métodos baseados nos modelos estatísticos de Poisson e Dixon–Coles, combinados com inferência bayesiana e simulações de Monte Carlo.
A qualidade de cada seleção é representada principalmente por duas variáveis: sua força de ataque e sua força de defesa. Para estimar o número provável de gols em uma partida, o sistema compara o desempenho ofensivo de uma equipe com a capacidade defensiva de sua adversária.
Os dados das partidas mais recentes recebem maior peso nas análises por meio de um mecanismo de decaimento temporal. Jogos de competições oficiais, como Eliminatórias, Copa América e Eurocopa, também têm maior importância estatística do que amistosos.
O modelo foi testado com dados das duas edições anteriores da Copa do Mundo. Após a comparação entre diferentes configurações, a versão baseada na distribuição de Poisson apresentou o melhor desempenho preditivo agregado e foi escolhida para gerar as projeções de 2026.
O torneio completo foi reproduzido computacionalmente milhares de vezes, respeitando o formato da Copa, o sistema de pontuação, os critérios de desempate e o chaveamento do mata-mata. A partir dessas simulações, foram calculadas as probabilidades de cada seleção avançar às diferentes fases e conquistar o título.
As estimativas foram atualizadas durante o Mundial conforme novos resultados eram incorporados ao sistema. Essa atualização contínua é possível graças à inferência bayesiana, abordagem que permite rever as probabilidades diante de novas evidências.
Matemática aplicada dentro e fora da sala de aula
Desenvolvido no contexto de uma iniciativa de iniciação científica, o projeto envolveu estudantes de graduação e pós-graduação da FGV EMAp na formulação dos modelos, programação, análise dos dados e desenvolvimento da plataforma digital.
A iniciativa integra o programa “Esportes em Números”, voltado ao desenvolvimento de sports analytics no Brasil e à aplicação de métodos quantitativos ao universo esportivo. Esta foi a terceira edição de Copa do Mundo acompanhada por modelos preditivos elaborados pela Escola.
Além das probabilidades de classificação e título, o portal desenvolvido pela equipe reúne estimativas de placares, comparação entre seleções, evolução das chances ao longo da competição, informações históricas e ferramentas interativas.
Associada institucional da SBMAC, a FGV EMAp desenvolve atividades de ensino e pesquisa em áreas como matemática aplicada, estatística, modelagem, inteligência artificial e ciência de dados. O projeto da Copa demonstra, de maneira acessível e próxima do cotidiano, como essas áreas podem ser utilizadas para interpretar fenômenos complexos e comunicar conceitos científicos para públicos amplos.
Leia o release no site da SBMAC: sbmac.org.br/2026/07/copa-do-mundo-2026-modelo-estatistico-da-fgv-acerta-campea-e-toda-a-composicao-das-semifinais-e-da-final.