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Fernando Bray* Por que falar de hemorroidas ainda causa constrangimento? Embora seja uma das queixas mais comuns nos consultórios de coloproctologia, o assunto permanece cercado de silêncio, vergonha e, muitas vezes, desinformação. Estimativas indicam que cerca de 40% a 50% da população mundial terá, em algum momento da vida, sintomas relacionados à doença hemorroidária. É um problema prevalente, mas que continua sendo tratado por muitos pacientes como algo sobre o qual não se deve falar. Esse tabu precisa ser superado. O ânus é uma parte do corpo humano como qualquer outra e deve ser examinada quando apresenta sintomas. Procurar um médico por sangramento, dor, coceira, secreção ou alteração na região anal não deve ser motivo de constrangimento. Ao contrário: o cuidado precoce pode evitar sofrimento, complicações e até procedimentos mais invasivos. Um dos equívocos mais comuns é acreditar que qualquer sangramento ou desconforto anal seja necessariamente causado por hemorroidas. Na prática, é frequente receber no consultório pacientes que passaram semanas ou meses tratando-se por conta própria, usando pomadas e cremes indicados por conhecidos, familiares ou até adquiridos sem avaliação médica. Em alguns casos, a queixa realmente está relacionada à doença hemorroidária. Em outros, porém, a origem é completamente diferente. É justamente por isso que o diagnóstico não deve ser feito pela aparência dos sintomas ou pela experiência de quem já teve hemorroidas. Sangramento, por exemplo, pode estar associado a diversas doenças do intestino e do canal anal. Há situações em que tumores do reto ou do canal anal apresentam sintomas semelhantes aos das hemorroidas. O câncer de canal anal, inclusive, pode estar relacionado à infecção pelo HPV. A semelhança entre os sintomas torna indispensável uma avaliação adequada, especialmente quando há sinais de alerta, como perda de peso, anemia, mudança recente do hábito intestinal ou histórico familiar de câncer ou pólipos intestinais. O profissional indicado para essa investigação é o coloproctologista, especialista nas doenças do intestino, do reto e do ânus. A consulta começa pela história clínica e pela compreensão dos sintomas. Dependendo do caso, pode incluir inspeção da região anal, toque retal e anuscopia, exame que permite visualizar o canal anal e identificar alterações que não seriam percebidas apenas pela observação externa. Em situações específicas, outros exames, como a colonoscopia, podem ser necessários. Outro ponto importante é desfazer um segundo mito: ter doença hemorroidária não significa, necessariamente, ter de passar por uma cirurgia. Na maioria dos casos, especialmente quando o paciente procura atendimento no início dos sintomas, o tratamento pode ser clínico. Mudanças nos hábitos intestinais, aumento da ingestão de fibras e água, redução do esforço para evacuar, menor tempo no vaso sanitário e cuidados adequados de higiene podem fazer parte da abordagem. Quando essas medidas não são suficientes, existem tratamentos menos invasivos. A ligadura elástica, por exemplo, é uma alternativa utilizada principalmente em determinados casos de hemorroidas internas, especialmente nos graus iniciais. O procedimento reduz o fluxo sanguíneo para o tecido hemorroidário, contribuindo para sua redução, e pode evitar uma cirurgia convencional em pacientes selecionados. A coloproctologia também evoluiu significativamente nas últimas décadas. Novas tecnologias e técnicas menos invasivas ampliaram as possibilidades de tratamento e, em determinados casos, permitem recuperação mais confortável e retorno mais rápido às atividades. Isso não significa que a cirurgia tenha deixado de ter seu lugar. Pacientes com doença avançada, especialmente alguns casos de hemorroidas de graus III e IV, ou aqueles com sintomas persistentes e recorrentes, podem se beneficiar de procedimentos cirúrgicos. A escolha, porém, deve ser individualizada. O problema é que o medo da cirurgia acaba se tornando, para algumas pessoas, mais uma razão para adiar a consulta. Cria-se um círculo vicioso: a vergonha impede a procura pelo especialista; o medo de operar prolonga ainda mais a espera; e a doença pode avançar enquanto o paciente tenta controlar os sintomas sozinho. A melhor estratégia é justamente a inversa. Quanto mais cedo a pessoa procura atendimento, maior é a possibilidade de identificar corretamente a causa dos sintomas e, quando se trata de doença hemorroidária, iniciar uma abordagem menos invasiva. Também é importante compreender que as hemorroidas, em si, não são uma doença. Todos nós temos estruturas hemorroidárias, formadas por vasos sanguíneos, fibras elásticas e musculares que participam da proteção e da vedação do canal anal. O problema surge quando essas estruturas sofrem alterações e passam a provocar sintomas. É o que chamamos de doença hemorroidária. Por isso, o recado mais importante não é sobre pomadas, técnicas ou cirurgias. É sobre comportamento. Sangramento não deve ser banalizado. Dor não deve ser escondida. Alterações persistentes não devem ser atribuídas automaticamente às hemorroidas. E o exame proctológico não deve ser encarado como algo vergonhoso. Cuidar da saúde também significa superar os constrangimentos que nos impedem de procurar ajuda. No caso das doenças do ânus e do reto, vencer esse tabu pode representar não apenas uma vida com menos dor e desconforto, mas a descoberta precoce de problemas que exigem outro tipo de tratamento. Hemorroidas são comuns. Vergonha não precisa fazer parte do diagnóstico. *Fernando Bray é médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde |