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| Centro de adoção criado para dar visibilidade a cães e gatos frequentemente preteridos, CasAdote combate o preconceito e ajuda a mudar a percepção sobre animais que também esperam por uma família |
| Por séculos, os gatos pretos foram cercados por superstições. Associados, de forma equivocada, ao azar, à má sorte e até à bruxaria, eles ainda enfrentam consequências bastante reais. Em diferentes contextos de adoção, a cor da pelagem pode influenciar a maneira como um animal é percebido e até mesmo suas chances de encontrar uma família. |
Na CasAdote, espaço criado pelo Instituto Ampara Animal em parceria com a ONG Encontrei um Amigo, a proposta sempre foi justamente olhar para os animais muito além da estética e promover um ambiente livre de estereótipos, em que a conexão seja o principal fator de decisão da adoção. Diferentemente do que é observado em diversos contextos de adoção, onde gatos pretos podem enfrentar maior dificuldade para encontrar uma família, na CasAdote muitos desses animais têm sido escolhidos e adotados. A proposta é fazer com que cada animal seja conhecido por aquilo que é: sua personalidade, comportamento, história e capacidade de criar vínculos — e não apenas por sua aparência. A dificuldade enfrentada por gatos pretos, no entanto, não é apenas uma percepção de quem trabalha com proteção animal. Um estudo publicado em 2026 analisou a percepção de 1.004 pessoas diante de fotografias de gatos disponíveis para adoção. O resultado mostrou que os gatos pretos foram considerados significativamente menos adotáveis do que gatos de outras cores. Os participantes também tiveram mais dificuldade para interpretar suas expressões e, com maior frequência, atribuíram a eles emoções negativas, como medo e agressividade. Outra pesquisa, que analisou os destinos de 7.983 gatos recebidos por um abrigo urbano nos Estados Unidos, encontrou entre os gatos pretos a menor taxa de adoção entre as cores estudadas. Enquanto 10% dos gatos pretos foram adotados no período analisado, a taxa entre os gatos brancos chegou a 18,8%. Os dados ajudam a demonstrar como características superficiais ainda podem interferir na decisão humana. Para Juliana Camargo, presidente do Instituto Ampara Animal, a existência desse tipo de preconceito torna ainda mais importante criar espaços e iniciativas capazes de mudar a forma como os animais são apresentados e conhecidos. “Existe, sim, uma série de preconceitos em relação aos animais. Algumas pessoas procuram apenas filhotes, outras têm preferência por determinadas raças, cores ou portes. E os gatos pretos carregam ainda o peso de séculos de superstições que não têm qualquer relação com quem eles realmente são. A CasAdote nasceu justamente para ajudar a quebrar esse tipo de estereótipo, mostrando cada animal como um indivíduo, com personalidade, história e características próprias”, afirma Juliana Camargo. Na prática, a experiência da CasAdote mostra que, quando o animal tem a oportunidade de ser conhecido além de uma fotografia ou de uma primeira impressão, a escolha pode ser muito diferente. “Muitos gatos pretos já passaram pela CasAdote e encontraram uma família. Isso é muito significativo porque mostra que o preconceito não precisa determinar o destino de um animal. Quando as pessoas têm a oportunidade de conhecer, conviver e perceber a personalidade de cada um, a cor deixa de ser o mais importante. É exatamente essa mudança que queremos promover”, acrescenta Juliana. A proposta da CasAdote é justamente transformar a adoção em um encontro. Em vez de uma escolha baseada exclusivamente na aparência, o espaço permite que possíveis adotantes conheçam os animais, entendam suas características e encontrem aquele cuja personalidade é compatível com sua rotina e sua família. Essa mudança de perspectiva é especialmente importante para os chamados animais “menos adotáveis”, grupo que pode incluir gatos pretos, animais adultos ou idosos, cães de grande porte, animais sem raça definida e aqueles que carregam alguma condição ou característica que os afasta do padrão normalmente procurado por adotantes. Para o Instituto Ampara Animal, chamar atenção para essa realidade é uma forma de mostrar que o preconceito ainda existe, mas pode ser combatido por meio da informação e da conscientização. Referências dos estudos mencionados Estudo publicado em 2026 sobre a percepção e a adotabilidade de gatos de diferentes cores, com participação de 1.004 pessoas. Disponível no PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41897846/ Estudo sobre a relação entre cor da pelagem e os resultados de gatos em um abrigo urbano, com análise de 7.983 animais. Disponível no PubMed Central: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7597961/ |