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| Lançamento da campanha reuniu centenas de indígenas e apoiadores no Centro de BH, e destacou a importância da presença indígena nos espaços institucionais de decisão; evento teve falas de Shirley Krenak, Macaé Evaristo e Juhlia Santos “Cada um de nós tem um canto. Quando aprendemos a cantar juntas e juntos, viramos um grande ritual. Cada um de nós faz a luta, mas é juntas e juntos que podemos vencer”, afirmou a deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) durante a abertura do Comitê do Cocar, neste sábado (5), quando o Brasil celebrou pela primeira vez o Dia Nacional de Proteção e Combate à Violência contra as Mulheres e Meninas Indígenas. Realizado no Centro de Belo Horizonte, o lançamento da campanha à reeleição de Célia Xakriabá reuniu centenas de indígenas, de nove diferentes etnias, além de povos de terreiro, apoiadores e lideranças políticas. Participaram do encontro os povos Xakriabá, Maxakali, Kamakã Mongoió, Pataxó, Pataxoop, Marubo, Yawanawá, Krenak e Pataxó Hã-hã-hãe. Também estiveram presentes a Pajé Analice Tuxá e as candidatas a deputada estadual Shirley Krenak , Juhlia Santos e Macaé Evaristo, ex-ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania do governo Lula. A mobilização começou com um cortejo que foi da Rua Sapucaí à Avenida Afonso Pena, seguido por rituais ancestrais e pelas falas das lideranças convidadas. Após os discursos, a Guarda de Moçambique São José Operário e São Benedito, de Sabará, ocupou o espaço com tambores, cantos e passos. A programação prosseguiu com apresentações de diferentes grupos indígenas e terminou com uma roda de capoeira. Presença indígena para transformar as instituições Em seu discurso, Célia ressaltou que a chegada dos povos indígenas à política institucional deve ser acompanhada de condições efetivas para participar das decisões, enfrentar retrocessos e transformar as estruturas de poder. “Não chegamos ao Congresso apenas para cantar e bater maracá. Fazemos parte da Comissão da Amazônia, assumimos uma cadeira para discutir o marco temporal no STF e hoje somos autoras de cinco projetos aprovados no Congresso Nacional”, disse a deputada. Célia Xakriabá recordou sua atuação na presidência da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais e da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Também destacou a participação nos debates sobre o marco temporal e a aprovação de cinco projetos relacionados à sua atuação parlamentar. Para ela, a presença indígena no Parlamento amplia as perspectivas consideradas nos debates sobre direitos, cultura, educação, meio ambiente, justiça climática e proteção dos territórios. Célia lembrou que foi eleita com votos em 804 dos 853 municípios mineiros e anunciou que a nova campanha contará com mais de 200 Embaixadas do Cocar, formadas voluntariamente em diferentes regiões do estado. “Fomos votadas em 804 municípios e agora queremos chegar também àqueles onde ainda não chegamos. Estamos inaugurando mais de 200 Embaixadas do Cocar em toda Minas Gerais, construídas por pessoas voluntárias que acreditam em nosso projeto”, declarou. Uma data histórica para as mulheres indígenas O lançamento aconteceu em uma data especialmente simbólica: 5 de setembro, Dia Internacional da Mulher Indígena e, pela primeira vez, Dia Nacional de Proteção e Combate à Violência contra as Mulheres e Meninas Indígenas. Instituída pela Lei nº 15.382/2026, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em abril, a data é resultado de um projeto apresentado por Célia Xakriabá no Congresso Nacional. Segundo a deputada, a proposta foi protocolada também em língua indígena, em uma iniciativa inédita no Parlamento brasileiro. “Falar do enfrentamento à violência contra as mulheres indígenas é falar de um Brasil que existia antes do Brasil da pátria. Não adianta querer fazer reparação histórica sem reconhecer a violência cometida historicamente contra as mulheres indígenas e sem falar também da violência contra as mulheres negras”, declarou Célia, relacionando a violência de gênero às violações cometidas contra os territórios, os rios e as práticas espirituais dos povos tradicionais. “Não vai existir orixá de cura se a jurema estiver adoecida. Não vai existir remédio se ele estiver contaminado com veneno. Não vai existir rapé se o nosso território estiver adoecido”, afirmou. Para Célia, a instituição da data nacional representa uma conquista política e um compromisso permanente com a proteção da vida: “Mulher boa é mulher viva”. O 5 de setembro também marcou um momento histórico para a campanha da Bancada do Cocar, construída a partir do encontro entre mulheres indígenas, negras, quilombolas, representantes de povos de terreiro e defensoras dos direitos humanos, dos territórios e da justiça climática. Política contra o racismo da ausência Para Célia, a instalação do Comitê do Cocar no coração de Belo Horizonte também busca enfrentar o que ela define como “racismo da ausência”: a solidão provocada pela falta de pessoas indígenas nos espaços públicos, culturais e institucionais. “Este comitê, no Centro de Belo Horizonte, não é somente para ganhar a eleição. É também para combater o racismo todas as vezes em que a gente atravessa essas ruas”, afirmou. A deputada destacou a trajetória coletiva que tornou possível a chegada da primeira mulher indígena de Minas Gerais ao Congresso Nacional e recordou as diferentes formas de racismo e violência enfrentadas pelos povos originários. Entre as prioridades para um novo mandato, Célia citou a proteção das águas e dos territórios, o enfrentamento ao feminicídio e o avanço da PEC dos Direitos da Natureza, proposta que busca reconhecer a natureza como sujeito de direitos. “Eu quero continuar no Parlamento brasileiro para defender nossos territórios e nossas comunidades tradicionais, fortalecer as escolas climáticas e fazer avançar o reconhecimento da natureza como sujeito de direitos. Quero que o Vale do Jequitinhonha seja respeitado, porque o Vale é do Jequitinhonha. O Vale não é do lítio, o Vale não é da China. A vida vale muito mais”, declarou. Mulheres indígenas, negras e quilombolas no centro da política Pajé Analice Tuxá levou ao encontro a força da espiritualidade e da memória ancestral. Do povo Tuxá, em retomada em Pirapora, no Norte de Minas, ela participou dos rituais que antecederam as falas políticas e marcaram a abertura dos caminhos para o novo ciclo. Artista, cineasta e mulher do povo Krenak, Shirley Krenak destacou a defesa das águas, das nascentes e da Mãe Terra como compromissos de sua caminhada política. Em sua fala, convocou as mulheres mineiras a se somarem à luta dos povos indígenas e enfatizou a necessidade de enfrentar a violência praticada contra suas lideranças. “Venho com uma missão muito forte: levar o eco dos nossos rios, das águas e da nossa Mãe Terra Sagrada para todo o estado de Minas Gerais. Somos águas sagradas, somos mulheres de luta e estamos pensando de forma coletiva. É assim que a gente chega”, afirmou Shirley. A candidata também chamou a atenção para os efeitos da mineração sobre os territórios e para a situação do Watu, como o povo Krenak denomina o Rio Doce. “Não está sendo fácil, como mulher Krenak, lutar pelas águas vendo o meu rio morrer todos os dias. Está na hora de fazer reparação e de proteger os rios e as nascentes de Minas Gerais”, declarou. J |