- Autor de “Democracia Híbrida e Sistema Eleitoral no Brasil”, o advogado Bento José Lima Neto, Doutor em Direito pelo IDP na linha de pesquisa Democracia e Eleições, vê no episódio um exemplo prático de que o voto também se disputa nas redes
Na noite de quinta-feira (1º/10), a TV Globo cancelou o debate presidencial a menos de uma hora do horário previsto. A emissora citou a insegurança jurídica criada por decisões da Justiça Eleitoral e do STF, que mudaram regras e participantes de última hora, e a desistência de candidatos, como o senador Flávio Bolsonaro (PL). O presidente Lula (PT) já havia dito que não compareceria. No mesmo horário, ele participou do Flow, um dos maiores podcasts do país, e reuniu mais de 1 milhão de espectadores ao vivo no YouTube e nas redes sociais.
A cena ilustra o argumento do livro de Bento José Lima Neto, Democracia Híbrida e Sistema Eleitoral no Brasil: Poder, Crise e Perspectivas de Reforma. Na obra, o advogado e doutor em Direito Constitucional descreve como, durante décadas, a TV aberta foi o grande palco da disputa política nacional. Para ele, a noite de ontem mostra o outro lado dessa mudança: o eleitor foi ao encontro do candidato em outro lugar, num formato longo, informal e distribuído por plataformas digitais, sem a mediação de um editor ou de regras de tempo e de confronto. Não se trata, na leitura do autor, de um detalhe de estratégia de campanha. A democracia brasileira passou a funcionar em dois ambientes ao mesmo tempo, as urnas físicas e o ambiente digital, e é isso que o conceito de democracia híbrida procura descrever.
No livro, o autor escreve: “O ‘jornal das oito’, transmitido em rede para milhões de famílias, era mais do que uma fonte de informação: era um ritual coletivo que produzia a sensação de pertencimento a uma mesma comunidade política. As notícias sobre votações no Congresso, campanhas eleitorais e crises de governo eram narradas de maneira uniforme, filtradas por redações que, mesmo parciais, partilhavam a ambição de falar para a nação inteira.” Hoje, isso mudou.
De acordo com Bento, essa estrutura centralizada foi corroída pela digitalização e pelas redes sociais. Ele afirma na obra: “O que antes era mediado por jornalistas e editores passou a ser regulado por algoritmos opacos. Se no telejornal as notícias tinham hora marcada e eram consumidas de forma simultânea, hoje cada eleitor constrói sua própria dieta informacional em tempo real, por meio de plataformas digitais. O espaço comum, mesmo que enviesado, cedeu lugar a um mosaico fragmentado de esferas privadas.”
Isso significa, segundo o autor, que, se na televisão os candidatos disputavam espaço em debates mediados e programações compartilhadas, nas redes eles falam diretamente ao eleitor, muitas vezes em linguagem coloquial, emotiva e segmentada. “A política passa a operar na lógica do marketing personalizado, em que cada indivíduo recebe mensagens adaptadas a seu perfil de consumo de dados. O eleitor não é mais tratado como cidadão universal, mas como consumidor de conteúdos políticos específicos”, afirma. Para ele, o resultado é claro: “Em vez de partidos organizando programas e agendas, são influenciadores digitais e algoritmos que estruturam a disputa política.”
Escrito em linguagem acessível para todos os públicos, o livro parte de uma pergunta incômoda para o eleitor brasileiro: quem decidiu seu voto, você ou o algoritmo? Publicada pela Tirant lo Blanch, a obra foi selecionada em primeiro lugar no edital de publicação do IDP e nasceu das leituras do doutorado do autor e de 12 anos de gestão pública.
Serviço: Democracia Híbrida e Sistema Eleitoral no Brasil, de Bento José Lima Neto.
Editora Tirant lo Blanch, 145 páginas. À venda no site da editora e na Amazon.
Sobre o autor: Bento José Lima Neto é advogado, Doutor em Direito pelo IDP na linha de pesquisa Democracia e Eleições, além de Mestre em Tecnologia e Inovação. Autor do lançamento Democracia Híbrida e Sistema Eleitoral no Brasil: Poder, Crise e Perspectivas de Reforma, publicado pela Tirant Lo Blanch.