Entre a devoção e a política: Maria Mãe de Jesus ou Mãe de Deus?

by Amarildo Castro

No dia de Nossa Senhora Aparecida (12/10), professor e autor cristão mostra que a data pode ser um convite ao diálogo em tempos de polarização

Por: Lucas Nascimento, autor de “Comunicação Responsiva”

A aproximação do dia dedicado à Nossa Senhora Aparecida, celebrado nesta segunda-feira, recoloca no centro do debate público brasileiro uma figura que transcende o recanto dos altares. Enquanto o catolicismo a venera como o ápice da criatura humana redimida e refúgio de ternura, o olhar evangélico majoritário frequentemente irrompe em críticas severas, enxergando na devoção e nos títulos marianos uma recriação de antigas práticas de idolatria ou sincretismo. Essa fenda teológica, contudo, ganhou contornos de inflamável polarização política recente, sendo instrumentalizada na disputa eleitoral do primeiro turno, a exemplo de episódios em que ataques à figura da padroeira e fake news geraram ondas de choque e feridas abertas entre eleitores e comunidades de fé.

O problema não reside na fé em si, mas no modo como a linguagem religiosa e a política partidária se entrelaçam nos ecossistemas digitais. Na era dos algoritmos que premiam a indignação rápida, assistimos a uma colonização do pensamento por uma polarização extremada e maniqueísmos reducionistas. Por conta disso, o debate sobre símbolos e dogmas é arrastado para uma dinâmica de trincheiras políticas em que o contraditório vira ameaça existencial.

Nesse cenário, a discussão costuma ser regida por um automatismo defensivo: ou o crente se cala por medo de rupturas (o silêncio defensivo), abrindo mão de suas convicções, ou explode com ataques morais, transformando o opositor em inimigo a ser extinto. Ambas as vias falham. O silêncio esteriliza o testemunho, enquanto a agressividade corrói a dignidade do outro.

Contudo, ao olharmos para a narrativa cristã, percebemos um paradoxo fascinante: embora gestado num mundo patriarcal, o Evangelho confere às mulheres um lugar de destaque singular, tendo no “sim” de Maria o portal da encarnação. No fundo, para além das fronteiras confessionais entre católicos — que a chamam de “mãe de Deus” — e evangélicos — que a chamam de mãe de Jesus —, a figura mariana evoca a força, a escuta e a agência feminina, além do eco do Magníficat que desafia os poderosos.

Em tempos de hiperpolarização e de ameaças à democracia, o 12 de outubro pode ser o lembrete de que a pluralidade de crenças não deve desaguar na negação do outro. Maria pode simbolizar, em vez de trincheira, um convite à travessia: o lugar no qual aprendemos a sustentar nossas convicções sem precisar nos calar por covardia nem explodir em ódio sectário, advindo do fermento da política extremada. Como nos lembra a poesia de Milton Nascimento, há na figura materna uma certa magia que nos humaniza e acolhe. Resgatar o diálogo qualificado é a única via para que a palavra volte a ser um elo de paz e busca pelo bem comum em um Brasil de Marias.

Evoto

Sobre o autor: Lucas Nascimento é Professor de Linguística, Discurso e Argumentação da UEFS, intelectual público, escritor e consultor de empresas. Doutor pela UFBA, com pós-doutorados pela USP. É autor do lançamento “Comunicação Responsiva: a virtude de transformar conflitos em oportunidades” (Alta Books, 2026), e de “O Veneno da Língua” (Editora Mundo Cristão, 2025). 

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