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| Inspirado pela curiosidade de seus alunos, escritor e professor paulistano cria uma história que aproxima jovens leitores da história política brasileira O que acontece quando os crimes de uma ditadura não ficam no passado? Em Projeto Futuro (156 págs, editora País Nenhum, 2026), novo romance do escritor, professor e editor paulistano Danilo Heitor, a resposta passa por viagens no tempo, conspirações científicas e duas adolescentes determinadas a desafiar estruturas de poder. Voltado ao público jovem-adulto (YA), o livro combina ficção científica, suspense investigativo e memória política para revisitar um dos períodos mais violentos da história brasileira. A trama acompanha Soraia e Leilane, duas amigas que estão concluindo o ensino médio. Tudo começa quando Soraia lê, sem querer, um e-mail inacabado do pai, o doutor Miqueias Nascimento, coordenador de Física Teórica do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo. A mensagem revela a existência de um projeto secreto iniciado durante a ditadura militar que utilizava presos políticos como cobaias em experimentos de viagem no tempo. Décadas depois, a iniciativa é retomada pelo atual chefe do instituto por meio de alianças inescrupulosas e interesses que ignoram qualquer limite ético. Decididas a impedir que novos crimes aconteçam, as duas jovens elaboram um plano arriscado. Elas substituem o isqueiro do pai por um gravador de voz, conseguem entrar no IPT sob o pretexto de realizar um trabalho escolar e encontram documentos que mencionam termos como “material humano” e “descarte político”. À medida que a investigação avança, as amigas descobrem que o experimento continua ativo e que seus responsáveis estão dispostos a tudo para manter o segredo. O ponto culminante da narrativa acontece no Cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona norte de São Paulo, local historicamente associado à descoberta da vala clandestina onde foram encontrados restos mortais de desaparecidos políticos. É ali que está prevista a “reentrada” do primeiro futurizado à meia-noite. Escondidas em um jazigo abandonado, Soraia e Leilane utilizam um drone para transmitir a operação ao vivo. No entanto, uma gigantesca descarga elétrica atinge a plataforma experimental, derruba todos ao redor e transforma a noite em uma fuga desesperada. Um thriller científico com alma juvenilEmbora apresente elementos clássicos do suspense e da ficção científica, Projeto Futuro também se dedica à construção emocional de suas personagens. Narrada em terceira pessoa e alternando o foco entre as duas protagonistas, a história intercala momentos de alta tensão, como a ida ao IPT e os acontecimentos em Perus, com situações cotidianas que aprofundam a amizade entre as jovens. A narrativa explora o luto vivido por Soraia após a morte da mãe, a relação de afeto, proteção e orgulho que ela mantém com o pai, a curiosidade sobre o tio, um desaparecido político, e os desafios e descobertas típicos da adolescência. O resultado é uma obra que combina ação, emoção, reflexão política e amadurecimento. Outro recurso estrutural importante são os diálogos cifrados que abrem cada capítulo. Nessas passagens, um prisioneiro conversa com duas entrevistadoras em circunstâncias inicialmente misteriosas. O significado dessas cenas só é plenamente revelado no epílogo, quando o quebra-cabeça narrativo se conecta à história dos desaparecidos políticos e à trama principal. Ficção científica para discutir memória e ética Influenciado por autoras como Ursula K. Le Guin e Octavia Butler, além do brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, Danilo Heitor utiliza a ficção científica como ferramenta para discutir questões históricas e contemporâneas. O romance aborda o uso político da ciência, os limites éticos do progresso tecnológico e a responsabilidade das instituições diante de crimes contra a humanidade. A obra também propõe uma pergunta central: diante de violações graves dos direitos humanos, é legítimo romper regras e convenções sociais para impedir novas injustiças ou devemos confiar nas instituições mesmo quando elas estão comprometidas com a violência? Essa reflexão aproxima o romance de debates atuais sobre memória, reparação histórica, participação política e o papel das novas gerações na transformação da sociedade. Uma história atravessada pela experiência pessoal do autor Filho de militantes perseguidos pela ditadura militar, Danilo Heitor construiu a narrativa a partir de uma relação íntima com o tema. O livro presta homenagem à ativista Rosalina Santa Cruz e a seu irmão, Fernando Santa Cruz, desaparecido político durante o regime. Ficha técnicaTítulo: Projeto FuturoAutor: Danilo HeitorEditora: País NenhumGênero: Ficção científica / Young Adult (YA)Páginas: 156 |