Mais do que uma disputa por entusiasmo, o segundo turno chega aos últimos dias marcado por um eleitorado profundamente dividido, altas rejeições e uma parcela relevante de brasileiros que escolherá não o candidato que mais deseja, mas aquele que menos rejeita.
A eleição presidencial entra em sua reta final com uma característica que talvez seja a melhor síntese do momento político brasileiro: para uma parcela importante do eleitorado, o voto de domingo não será depositado na urna com entusiasmo. Será quase um voto cuspido. Em alguns casos, um voto vomitado.
É uma expressão forte, evidentemente. Mas descreve com precisão um fenômeno eleitoral muito presente em disputas altamente polarizadas.
Há eleitores que votarão em Lula com convicção. Há eleitores que votarão em Flávio Bolsonaro com convicção. Esses são os grupos mais visíveis, mais mobilizados, mais presentes nas redes sociais e nas manifestações de campanha.
Mas existe um terceiro eleitor.
É aquele que não gosta de nenhum dos dois.
Esse eleitor não está escolhendo quem considera melhor. Está tentando decidir quem considera menos pior. Não vai à urna movido por paixão, mas por rejeição. Não procura razões para votar em alguém. Procura razões para impedir o outro.
E talvez seja justamente esse eleitor que tenha recebido menos atenção durante o debate.
O confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro mostrou novamente uma dificuldade recorrente das campanhas polarizadas: os candidatos falam muito bem para quem já está convencido, mas têm enorme dificuldade para conversar com quem permanece no meio.
O formato permitia confronto direto, respostas, réplicas e espaço para diferenciação. Em diversos momentos, porém, a discussão acabou dominada por ataques, acusações, respostas a acusações e tentativas de desconstrução do adversário.
Do ponto de vista das bases eleitorais, essa estratégia tem lógica. Cada ataque contra o outro candidato reforça aquilo que o eleitor mais fiel já pensa.
O problema é que esse eleitor provavelmente já tinha voto.
A verdadeira disputa desta última semana não está apenas entre os militantes. Está naquele eleitor que assiste ao confronto e continua perguntando: “é realmente entre esses dois que eu tenho de escolher?”
Para esse cidadão, uma sequência de agressões políticas pode produzir exatamente o efeito contrário daquele pretendido pelas campanhas. Em vez de criar adesão, amplia a sensação de desconforto.
É aí que aparece o voto de rejeição.
Quando o eleitor não consegue encontrar entusiasmo suficiente para escolher um candidato, passa a organizar sua decisão de outra maneira. A pergunta deixa de ser “quem eu quero como presidente?” e passa a ser “quem eu definitivamente não quero como presidente?”.
Essa mudança é fundamental para compreender esta reta final.
Em uma eleição marcada pela rejeição, a estratégia não consiste apenas em aumentar o próprio apoio. Também passa a envolver reduzir a resistência que existe contra o candidato.
E isso é muito mais difícil.
Conquistar alguém que gosta de você é uma coisa. Convencer alguém que rejeita você a tolerar sua candidatura é outra completamente diferente.
É por isso que os últimos dias podem ser tão importantes.
Em eleições equilibradas, pequenos movimentos ganham peso enorme. Uma declaração infeliz, um trecho de debate que viraliza, uma resposta bem construída ou um erro de comunicação podem funcionar como argumento final para aquele eleitor que ainda está tentando justificar para si mesmo uma decisão que não gostaria de tomar.
Ele não precisa amar um candidato.
Talvez nem precise gostar dele.
Precisa apenas encontrar razões suficientes para considerá-lo menos rejeitável que o adversário.
Esse é o ponto central.
Há uma diferença importante entre voto de adesão e voto de rejeição.
O voto de adesão produz orgulho. O eleitor usa camiseta, publica nas redes, participa de atos e tenta convencer outras pessoas.
O voto de rejeição muitas vezes acontece quase escondido. O eleitor entra na cabine, digita o número, confirma e vai embora.
Não comemora. Não coloca adesivo. Não publica foto.
Em alguns casos, quase cospe aquele voto na urna.
Mas o voto vale exatamente a mesma coisa.
Essa talvez seja uma das ironias mais importantes da democracia eleitoral: o voto apaixonado e o voto contrariado possuem exatamente o mesmo peso na contagem final.
Por isso, seria um erro analisar a reta final apenas observando quem mobiliza mais entusiasmo.
Também é necessário observar quem consegue provocar menos rejeição entre aqueles que ainda estão desconfortáveis com as duas alternativas.
O debate mostrou que a polarização continua organizando a disputa. Mas mostrou também que existe um espaço eleitoral que não se identifica completamente com nenhuma das duas torcidas.
É nesse espaço que os últimos dias da eleição serão disputados.
No domingo, haverá brasileiros comemorando o voto.
Haverá brasileiros votando com orgulho.
E haverá também muita gente apertando o botão “confirma” quase como quem toma um remédio amargo: não porque gosta, mas porque acredita que a alternativa seria pior.
Em uma eleição como esta, compreender esse eleitor pode ser tão importante quanto compreender os militantes.
Porque, no fim das contas, talvez o próximo presidente do Brasil não seja escolhido apenas pela capacidade de despertar paixão.
Pode ser escolhido também pela capacidade de despertar menos rejeição.