Etanol ganha novas aplicações e atrai interesse de Petrobras, Vale e indústria química

by Amarildo Castro
A expansão do uso do etanol para além dos veículos leves começa a redesenhar as perspectivas de crescimento da indústria brasileira de biocombustíveis.

Petrobras, Vale, empresas dos setores petroquímico e biorrefinarias avaliam novas aplicações para o combustível, que ganha espaço em projetos voltados à descarbonização da aviação, do transporte marítimo, da mineração e da produção de insumos industriais.

O movimento ocorre em um momento de expansão da oferta nacional. Segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de etanol deverá alcançar 41,88 bilhões de litros na safra 2026/27, crescimento de 11,7% em relação ao ciclo anterior.

As oportunidades de expansão do mercado e os desafios tecnológicos associados a essas novas aplicações estarão no centro das discussões da Biofuels Academy Brasil (BFA) 2026, que reunirá representantes da Petrobras, Vale, Braskem e as maiores biorrefinarias do setor nos dias 2 e 3 de dezembro, em São Paulo.

Promovido pela Lallemand Biofuels & Distilled Spirits (LBDS), o encontro abordará também o uso da biotecnologia e da inteligência artificial para ampliar a eficiência industrial das biorrefinarias. A perspectiva de aumento do consumo também é impulsionada pelas mudanças na composição da gasolina.

Desde agosto, a mistura de etanol anidro no combustível comercializado nos postos brasileiros está em 32%. Para janeiro de 2027, estão previstos testes para avaliar a viabilidade técnica de elevar essa participação para 35%.

No mercado internacional, a Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a demanda por biocombustíveis no transporte alcance 215 bilhões de litros anuais até 2030. A aviação e a navegação deverão responder por mais de 75% do crescimento adicional do consumo nesse período, segundo a agência. A diversificação das aplicações do etanol é acompanhada por grandes consumidores de energia.

Na mineração, a Vale mira o uso do combustível em locomotivas e caminhões fora de estrada como alternativa ao diesel. Na Petrobras, o os biocombustíveis integram a estratégia de transição energética, em seu plano de negócios para 2026 a 2030.

Também no evento, outra frente de expansão está na produção de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês). O etanol pode ser utilizado como matéria-prima em rotas tecnológicas de conversão para combustíveis de aviação, ampliando as possibilidades de comercialização da produção brasileira.

Segundo projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a demanda de etanol destinada à produção nacional de SAF e a aplicações nos transportes aquaviário e na aviação agropecuária poderá alcançar aproximadamente 3 bilhões de litros em 2036.

O transporte marítimo representa outra oportunidade. A estratégia de descarbonização da Organização Marítima Internacional (IMO) estabelece como meta que combustíveis e tecnologias de emissão zero ou quase zero representem pelo menos 5% da energia utilizada pela navegação internacional em 2030, com ambição de alcançar 10%.

Embora essas aplicações ofereçam oportunidades de crescimento, sua expansão dependerá de fatores como competitividade econômica, desenvolvimento tecnológico, certificações ambientais e capacidade de produção em escala.

Biotecnologia e eficiência industrial
O aumento da demanda potencial também amplia a importância dos ganhos de produtividade nas usinas. Com custos industriais, disponibilidade de matérias-primas e condições climáticas influenciando as margens de produção, o setor busca tecnologias capazes de aumentar a conversão de açúcares em etanol e reduzir perdas durante a fermentação.

Entre as alternativas em desenvolvimento estão o aprimoramento de leveduras, a aplicação de enzimas, o controle automatizado dos processos industriais e o uso de inteligência artificial para monitorar a fermentação e antecipar falhas operacionais.

Na produção a partir da cana-de-açúcar, os desafios incluem a qualidade da matéria-prima, a estabilidade da fermentação e as decisões sobre a destinação da cana para açúcar ou etanol.
Já nas unidades que utilizam milho, a eficiência da conversão do amido e o aproveitamento dos coprodutos influenciam a rentabilidade das operações. Esses desafios estarão entre os temas abordados por representantes de Raízen, Tereos, bp bioenergy e Inpasa, que discutirão eficiência industrial e aproveitamento de matérias-primas durante o encontro.

Entre os assuntos previstos estão as aplicações de inteligência artificial no controle da fermentação, manutenção preditiva e estratégias para melhorar a produtividade das biorrefinarias.
A evolução tecnológica também está associada ao aproveitamento de produtos derivados dos processos industriais, como óleo de milho, biogás, biometano e dióxido de carbono proveniente da fermentação.

Mercado de carbono abre outra fonte potencial de receitas
Além da comercialização de combustíveis, a descarbonização pode criar fontes adicionais de receita para as empresas do setor, especialmente com o desenvolvimento de mecanismos de precificação das emissões de gases de efeito estufa. A captura do dióxido de carbono gerado na fermentação é uma das alternativas analisadas pela indústria.

O gás pode ser utilizado em aplicações industriais e na produção de combustíveis sintéticos, dependendo da viabilidade econômica e tecnológica de cada projeto. O setor também acompanha a evolução do mercado regulado de carbono no Brasil, dos Créditos de Descarbonização (CBIOs) e dos mecanismos internacionais de redução e compensação de emissões, como o Corsia, voltado à aviação.
Estimativas divulgadas pelo Ministério da Fazenda, com base em estudos do Banco Mundial e da própria pasta, indicam que a implementação do mercado regulado de carbono poderá elevar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 5,8% até 2040, em comparação com um cenário de referência, e gerar aproximadamente R$ 57 bilhões em receitas com leilões de permissões de emissão no período.

A possibilidade de monetizar reduções de emissões, entretanto, dependerá da regulamentação do mercado, dos critérios de certificação e dos custos envolvidos na adoção das tecnologias. Na indústria petroquímica, o etanol também ganha relevância como alternativa a matérias-primas de origem fóssil.
A Braskem está entre as empresas que desenvolvem aplicações do combustível na produção de bioquímicos e bioplásticos. A combinação entre novas aplicações industriais, expansão da produção e ganhos de eficiência poderá ampliar o mercado potencial do etanol brasileiro nos próximos anos.
A capacidade de transformar essas oportunidades em negócios dependerá, porém, da competitividade das diferentes rotas tecnológicas e da consolidação da demanda por combustíveis e produtos de menor intensidade de carbono.

Serviço BFA Brasil 2026 – Biofuels AcademyQuando: 2 e 3 de dezembro de 2026Onde: Grand Mercure Vila Olímpia, São Paulo (SP)Programação completa e inscrições: bfa.lbds.com.br

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