A luminosa Festa de Reis: caminhos de fé, tradição e esperança

by Amarildo Castro
  • Celebrado dia 6 de janeiro, a data atravessa gerações carregando sentidos profundos

Há datas que não pertencem apenas ao calendário. Elas pertencem à memória, à cultura e à fé do povo. O dia 6 de janeiro, celebrado como Festa de Reis, é uma dessas datas que atravessam gerações carregando sentidos profundos. Nele, a Igreja contempla a Epifania do Senhor, isto é, a manifestação de Deus que se faz visível, acessível e próxima da humanidade. 

Trata-se de um prolongamento do mistério do Natal, quando o nascimento de Jesus deixa de ser apenas um acontecimento íntimo e se revela como dom oferecido a todos. A narrativa bíblica apresenta os Magos como homens atentos aos sinais do céu e dispostos a colocar-se a caminho. Não pertenciam ao povo de Israel, não conheciam a Lei nem os Profetas, mas carregavam em si uma inquietação sincera diante do mistério da vida. 

O evangelista Mateus sintetiza essa busca ao afirmar: “Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2). A estrela, mais do que um fenômeno extraordinário, torna-se sinal teológico: Deus se comunica por meio de sinais simples, despertando no coração humano o desejo de ir além do que já se conhece. O encontro com o Menino, porém, desconcerta expectativas. Aquele que é reconhecido como Rei não se encontra em palácios nem cercado de poder, mas na fragilidade de uma criança. 

A Epifania revela, assim, um traço essencial da fé cristã: Deus se manifesta na simplicidade e escolhe o que é pequeno para revelar o que é grande. Esse modo divino de se apresentar desloca o olhar humano e convida a reconhecer o sagrado onde, muitas vezes, ele passa despercebido. 

No Brasil, a Festa de Reis encontrou terreno fértil na religiosidade popular. Em muitas regiões, sobretudo no interior, essa celebração se consolidou como expressão viva da fé do povo simples. Os ternos de reis, com suas violas, pandeiros, cantos e fitas coloridas, percorriam casas e comunidades anunciando a visita dos Magos. As famílias aguardavam com as portas abertas, preparando café, bolo e acolhida. Não se tratava apenas de um costume cultural, mas de uma experiência comunitária na qual o sagrado visitava o cotidiano. Esses gestos, repetidos ano após ano, constituem uma verdadeira pedagogia da fé. A visita dos cantadores transformava a casa em espaço de bênção e comunhão. Crianças observavam curiosas, adultos partilhavam histórias, idosos reviviam memórias. Tudo acontecia de modo simples, mas profundamente significativo. A tradição ensinava, sem discursos elaborados, que a fé cristã se constrói no encontro, na hospitalidade e na partilha. 

A Igreja reconhece nessas expressões da fé popular um autêntico lugar de evangelização. Longe de serem práticas secundárias, elas manifestam uma teologia vivida, encarnada na cultura e na experiência concreta das pessoas. Gestos como montar o presépio e colocar os Reis apenas no dia 6 de janeiro revelam uma compreensão profunda do mistério cristão, no qual a revelação acontece de modo progressivo. Deus se deixa encontrar aos poucos, respeitando o tempo humano e educando o olhar para a contemplação. Essa sabedoria simples recorda que a fé não se limita ao campo da razão. Ela envolve memória, afeto, corpo e sensibilidade.

O som das cantorias, o colorido das fitas, o cheiro da comida partilhada e o gesto da bênção falam de Deus tanto quanto as palavras. Celebrar a Festa de Reis é reconhecer que a espiritualidade cristã se enraíza na vida e se expressa nos gestos mais cotidianos. A figura dos Magos também carrega uma forte dimensão humana e filosófica. Eles simbolizam a inquietação que habita o coração de todo ser humano diante do mistério da existência. São aqueles que não se conformam com respostas prontas e se permitem perguntar, buscar e caminhar. 

A fé cristã não elimina o questionamento; ao contrário, acolhe-o como parte do processo de amadurecimento espiritual. Os presentes oferecidos ao Menino, ouro, incenso e mirra, expressam essa entrega total. Revelam um reconhecimento que ultrapassa as palavras e traduz a disposição de oferecer a Deus tudo o que se é e tudo o que se vive, inclusive a fragilidade e o sofrimento. Nesse gesto, a humanidade se apresenta diante de Deus sem máscaras, confiando que nada é rejeitado quando oferecido com verdade. O relato bíblico conclui afirmando que, após o encontro, “os Magos regressaram por outro caminho” (Mt 2,12). Essa breve indicação possui grande densidade espiritual. 

O encontro com Deus não permite retorno ao ponto de partida. Ele transforma o olhar, reorienta escolhas e inaugura novas possibilidades de vida. Quem se deixa tocar pelo mistério não segue adiante da mesma forma. Ainda hoje, a Festa de Reis permanece atual porque toca dimensões essenciais da vida humana. Em um mundo marcado por pressa, fragmentações e incertezas, ela convida à contemplação, à escuta e à confiança. Celebrar a Epifania é reafirmar que Deus continua a manifestar sua presença na história, convidando cada pessoa a reconhecer os sinais de sua luz no cotidiano. 

Quando os mais idosos falam desse dia, falam com ternura e gratidão. Suas memórias guardam presépios montados com cuidado, novenas rezadas em família, almoços partilhados e conversas demoradas na varanda. Não se trata apenas de lembrança, mas de identidade. É a fé transmitida de geração em geração, enraizada na vida e no afeto. Que a Festa de Reis continue sendo, para nossas comunidades, fonte de renovação espiritual. Que a sabedoria do povo simples inspire os mais jovens. Que a fé popular siga iluminando a caminhada da Igreja. E que, à semelhança dos Magos, tenhamos a coragem de nos colocar a caminho e de voltar diferentes, mais atentos à luz que se manifesta na simplicidade da vida cotidiana. 

Artigo de Igor Ribeiro, coordenador de Pastoral no Colégio Marista Champagnat –  Taguatinga.

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