Chapada dos Veadeiros abriga fruta do Cerrado com alto teor de vitamina A, aponta pesquisa da USP 

by Amarildo Castro
  • Estudo científico revela valor nutricional da mama-cadela, espécie típica da Chapada dos Veadeiros

Conhecida por suas paisagens exuberantes e pela rica biodiversidade do Cerrado, a Chapada dos Veadeiros também é território de uma fruta ainda pouco presente na mesa dos brasileiros, mas que começa a ganhar destaque científico: a mama-cadela. Pesquisas conduzidas por estudiosos da Universidade de São Paulo (USP) indicam que o fruto possui alto teor de pró-vitamina A, nutriente essencial para a saúde da visão, do sistema imunológico e da pele. 

O estudo integra um movimento mais amplo de valorização dos alimentos nativos do Cerrado, bioma considerado um dos mais biodiversos do planeta e, ao mesmo tempo, um dos mais ameaçados. A presença da mama-cadela na Chapada reforça o potencial da região não apenas como destino turístico, mas também como celeiro de espécies com valor nutricional e funcional relevante. 

Segundo a Dra. Andréa Alvarenga, clínica geral e especialista em fitoterapia e cannabis medicinal, o interesse científico pela mama-cadela não é recente e vem se ampliando à medida que novas propriedades da planta são confirmadas. “É uma espécie tradicionalmente utilizada pelas populações do Cerrado e que hoje desperta grande atenção da ciência por suas múltiplas aplicações”, afirma. 

Do uso tradicional à pesquisa científica

Historicamente, a planta é conhecida pelo uso medicinal, especialmente em tratamentos relacionados a distúrbios de pigmentação da pele, como o vitiligo. De acordo com a especialista, compostos presentes principalmente na raiz, como psoralenos e bergaptenos, têm ação fotossensibilizante e podem estimular a produção de melanina quando associados à exposição controlada à radiação ultravioleta. “São substâncias potentes que, quando usadas com rigor técnico e acompanhamento adequado, podem auxiliar na repigmentação da pele”, explica. 

A médica ressalta, porém, que se trata de uma planta que exige muito cuidado no uso terapêutico. “Por aumentar a sensibilidade à luz, o uso inadequado pode provocar lesões cutâneas graves e até elevar o risco de outras doenças de pele. Por isso, não se trata de automedicação”, alerta. 

Foto: divulgação Se por décadas o foco das pesquisas esteve concentrado na raiz, hoje o fruto da mama-cadela passa a ocupar lugar central nos estudos. Pesquisas apontam que ele é rico em vitamina C, pró-vitamina A e diversos compostos antioxidantes, como flavonoides, fenóis, taninos e catequinas. “Esses componentes conferem ação antioxidante, proteção celular e benefícios importantes para a saúde ocular”, destaca Dra. Andréa Alvarenga.
 Além disso, estudos indicam que o fruto possui boa quantidade de fibras, contribuindo para o funcionamento intestinal, e apresenta atividade antifúngica, com potencial para inibir o crescimento da Candida albicans. “É uma planta com múltiplas funções, que vai muito além do uso tradicional já conhecido”, resume.


Chás, cataplasmas e uso culinário

Além do valor nutricional evidenciado pela pesquisa da USP, a mama-cadela integra o repertório de usos tradicionais do Cerrado, tanto medicinais quanto alimentares. Diferentes partes da planta são historicamente utilizadas em chás e cataplasmas, preparados a partir de infusões de folhas e ramos ou decocções da casca e da raiz, práticas transmitidas entre gerações por comunidades locais. 

No campo gastronômico, o fruto da mama-cadela também começa a despertar interesse. Seu sabor permite o preparo de geleias, compotas e receitas artesanais, ampliando as possibilidades de consumo e agregando valor ao produto. Para a especialista, esse tipo de uso é estratégico. “Quando o aproveitamento se concentra no fruto e nas folhas, abre-se um caminho mais sustentável, que preserva a planta e fortalece a conservação do Cerrado”, afirma. 

Conservação e uso sustentável

O crescimento lento da mama-cadela e o impacto da extração da raiz, que pode levar à morte da planta, acendem um alerta ambiental. Por isso, a ciência busca alternativas que conciliem pesquisa, uso tradicional e preservação. 

Nesse contexto, a Chapada dos Veadeiros se consolida como um verdadeiro laboratório natural a céu aberto, onde biodiversidade, saberes tradicionais e ciência se encontram. Para a presidente da Associação Veadeiros, Mércia Beatriz Miranda, o reconhecimento científico de frutos nativos reforça a importância da conservação do bioma. “Quando pesquisas revelam o valor nutricional e funcional de espécies do Cerrado, como a mama-cadela, mostramos ao Brasil que preservar a Chapada dos Veadeiros é também cuidar da saúde, da biodiversidade e do futuro das próximas gerações”, afirma.


 

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