- Exemplo no setor leiteiro mostra como a organização dos descartes pode ampliar a reciclagem e reduzir envio a aterros
Conforme levantamento da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) publicado em 2024, o Brasil recicla apenas 4% do lixo produzido. O estudo, feito a partir de dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), evidencia a distância que o País está da meta estabelecida pelo Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), que tem como meta atingir 48% de recuperação de resíduos sólidos até 2048.
A tímida gestão de resíduos sólidos brasileira é um fertilizante para as raízes de uma futura crise humanitária. De acordo com relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), a sem uma gestão eficiente dos resíduos sólidos, os aterros sanitários à céu aberto e incineração de resíduos aumentam, levando a uma progressiva crise climática, perda de biodiversidade e poluição. Este tripé afeta diretamente a saúde pública, acarretando em doenças infecciosas, cardiovasculares, respiratórias e endócrinas, que respondem hoje por até 1 milhão de mortes anuais em todo o mundo.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos institui a obrigatoriedade da gestão correta dos descartes dessa categoria por parte das grandes indústrias para amenizar os efeitos do tripé previsto pela ONU. Porém, mesmo com a definição por lei, nem sempre essa gestão é feita do modo mais favorável ao meio ambiente. “Por mais que seja uma obrigação de todo o grande gerador, existem diferentes posturas nesse processo. Há companhias que preferem enviar tudo para um aterro, enquanto há outras que apostam no investimento de uma estrutura que favorece os processos de reciclagem, fazendo jus à responsabilidade de gerir os resíduos”, diz Roberto Domingos Júnior, diretor da unidade Aparecida de Goiânia da Copel Recicláveis.
Ele quantifica que apenas 20% de seus 200 fornecedores de material reciclável oferecem uma estrutura adequada, o que pode trazer um prejuízo à qualidade do insumo. Um exemplo positivo é a Marajoara Laticínios, uma indústria do ramo leiteiro com sede em Hidrolândia (GO), que oferece um espaço exclusivo destinado para os resíduos dos processos fabris. Em 2025, a empresa destinou 64,6 toneladas de resíduos sólidos recicláveis em papelão, plástico e embalagem longa vida (ELV).
“O material perde qualidade de reciclagem quando exposto às intempéries, então temos um espaço coberto, com solo impermeável, e com uma prensa enfardadeira fornecida pela Copel para a gestão dos descartes da fábrica”, explica Vinícius Junqueira, diretor geral da Marajoara. Neste espaço da empresa goiana, as categorias de material reciclável são devidamente catalogadas, prensadas e, quando acumuladas, destinadas à central de tratamento da Copel, em Aparecida de Goiânia. Lá, o que aos olhos de muitos seria lixo, se transforma em matéria-prima para algo novo.
“Normalmente, não são todas as empresas que investem nesta infraestrutura, porque requer uma gestão mais minuciosa. Muitas fornecem o material solto, por caçambas, caminhonetes, e meios alternativos de logística. Com o material devidamente catalogado e compactado, conseguimos executar a reciclagem em maior escala”, explica o representante da Copel, a qual está no ramo de reciclagem há 40 anos.
Cada categoria de dejeto – papelão, plástico e embalagem de leite longa vida – se transforma em um produto novo, útil para o dia a dia. O papelão é restaurado em sua forma original; já o plástico é processado em pequenos grãos de polietilenos, normalmente utilizado para sacolas de supermercado ou sacos de lixo; e a parte interna na embalagem do leite é utilizada para a fabricação de telhas.
Economia circular
Outro fluxo importante da gestão de resíduos da Marajoara envolve a destinação de sucata metálica, realizada em parceria com a Delta Reciclagem. De acordo com Eurípedes Teodoro de Santos, empresário do setor com mais de 50 anos de experiência no setor, a sucata coletada na indústria – como ferro, alumínio, inox, cobre e fios – é transportada até a empresa e, posteriormente, encaminhada para siderúrgicas em estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pará. “Tudo isso volta para a cadeia produtiva. O ferro vira vergalhões e chapas, o alumínio pode se transformar em panelas, o inox também se transforma em chapas, e o cobre pode até virar adubo”, explica.
Segundo Eurípedes, a estrutura e a organização da Marajoara facilitam significativamente o trabalho de reciclagem. “Quando a gente chega lá, está tudo separado, arrumado, cada material no seu lugar. Isso faz toda a diferença”, afirma. Ele destaca ainda os benefícios ambientais da reciclagem da sucata, que ajuda a retirar materiais das ruas e evita o descarte inadequado no meio ambiente.

Gestão de resíduos contaminados
Além dos resíduos recicláveis secos, a Marajoara também realiza a gestão adequada de resíduos contaminados e industriais, em parceria com a Vitória Protege Ambiental. Segundo Warlen da Silva Sousa, responsável técnico da empresa, a Vitória é responsável pela coleta de EPIs usados, lâmpadas, estopas e materiais contaminados com óleos, graxas, toners e outros resíduos provenientes das rotinas fabris e de manutenção da indústria.
Após coleta, os resíduos passam por triagem e recebem diferentes destinações conforme sua natureza. “O descarte incorreto desse tipo de resíduo pode causar contaminação do solo e da água, especialmente em períodos de chuva, quando materiais descartados de forma irregular acabam atingindo rios e mananciais”, alerta Warlen. Para este tipo de material, a Marajoara não vende os resíduos, apenas devidamente manejados para evitar contaminação.