Encontro das associações de grandes tragédias em Brumadinho cria movimento “Unidas por Justiça” e resulta em carta inédita ao Judiciário e à sociedade

by Amarildo Castro
  • Reunião integrou agenda dos sete anos da tragédia-crime da Vale e discutiu formas de articulação conjunta em nível nacional (Foto: Avabrum/Divulgação)

Realizado no Memorial Brumadinho como parte dos atos que marcam os sete anos da tragédia-crime da Vale, o painel que reuniu associações e movimentos de vítimas de grandes crimes no Brasil se transformou em um espaço de escuta, partilha e construção política. A atividade representou um passo decisivo rumo à articulação nacional entre grupos que, apesar de atravessarem contextos distintos, compartilham dores semelhantes e um sentimento comum de injustiça. Como resultado do encontro, os participantes elaboraram coletivamente a Carta à Justiça e ao Brasil, documento inédito no país, que sintetiza denúncias, aprendizados e reivindicações construídas a partir da experiência direta das vítimas.

Na abertura do encontro, a diretora da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão, AVABRUM, Kenya Lamounier, destacou a relevância da reunião. Ao acolher os participantes, afirmou que as trajetórias ali presentes se cruzam não por escolha, mas por imposição da injustiça. “A dor nos encontrou em lugares diferentes, mas a injustiça nos impôs o mesmo caminho. Estar aqui é reconhecer nossas histórias e afirmar um novo começo coletivo”, afirmou.

O representante dos familiares das vítimas do incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo, o Ninho do Urubu, Darlei Pisetta – pai do jovem Bernardo, que era jogador do clube – falou sobre os desafios de buscar justiça em um caso atravessado pela dimensão do futebol como paixão nacional. Ele ressaltou que a construção conjunta fortalece a luta por memória e responsabilização. “A gente vem pela memória dos meninos e pela justiça. Essa união mostra que nossas dores dialogam e precisam ser enfrentadas com seriedade”, disse.

Pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, AVTSM, Flávio Silva destacou o impacto prolongado da perda e a ausência de respostas efetivas do sistema de justiça no caso da Boate Kiss. Ele ressaltou o desgaste emocional imposto às famílias ao longo dos anos. “Além de perder nossos filhos, precisamos lutar para que o próprio Judiciário reconheça que houve crime. Isso também adoece”, afirmou.

A experiência do crime da mineração em Maceió foi apresentada por Rikartiany Cardoso, integrante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Em sua fala, ela destacou que os crimes não começam no momento do colapso visível, mas resultam de processos históricos prolongados de exploração e silenciamento. “Esses crimes vêm de décadas de violações. A nossa resposta precisa ser coletiva, porque só assim conseguimos enfrentar o silenciamento imposto às comunidades”, disse.

Ainda sobre Maceió, Cássio Araújo, do Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB), destacou que os diferentes desastres no país compartilham uma mesma lógica de fundo. Ele apontou o modelo econômico predatório como elemento comum entre as tragédias. “Esses crimes acontecem porque se prioriza a liberdade de explorar ao máximo, mesmo que isso custe vidas e territórios. O lucro vem antes da segurança e da dignidade”, afirmou. Para Cássio, a flexibilização do licenciamento ambiental e o avanço do autolicenciamento aprofundam os riscos e tornam novas tragédias previsíveis, o que reforça a urgência de ampliar a articulação e a denúncia pública expressa na Carta.

O encontro também contou com representantes das famílias vitimadas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Mauro Marcos, do Movimento dos Atingidos pelo Desastre da Samarco, Vale e BHP, compartilhou a experiência de quem convive há anos com a repetição da dor e da negligência institucional. Ele chamou atenção para a inversão de papéis que marca esses processos. “Em muitos espaços, as vítimas acabam tratadas como réus. Essa união mostra que juntos somos mais fortes para enfrentar um sistema que insiste em nos ignorar”, afirmou.

O debate também avançou sobre os caminhos jurídicos e políticos da luta por justiça. Paulo Carvalho, diretor jurídico da Associação de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), que representa familiares das vítimas da Boate Kiss, destacou a importância de precedentes recentes de responsabilização e do fortalecimento da atuação no sistema internacional de direitos humanos. “Quando o Estado brasileiro é questionado fora do país, ele se constrange. Isso fortalece todos os casos e pressiona por respostas reais”, afirmou, apontando que a Carta também se dirige às instâncias internacionais como instrumento político e jurídico.

A equipe jurídica que assessora a AVABRUM reforçou que a luta das vítimas não se limita às decisões judiciais finais. O advogado Danilo Chammas destacou que o direito à participação e à informação é parte central da busca por respostas justas. “Saber o que acontece nos processos, quem decide e com base em quê também é uma forma de justiça”, afirmou.

A presidenta da AVABRUM, Nayara Porto, chamou atenção para a forma como as sanções financeiras aplicadas às empresas responsáveis por grandes crimes têm sido conduzidas no Brasil. Segundo ela, as multas acabam fortalecendo apenas o próprio sistema de justiça, sem retorno direto às vítimas. “Hoje, os recursos das multas ficam concentrados no Ministério Público, enquanto as associações seguem sem estrutura. Uma pesquisa do PoderData mostra que a sociedade defende a destinação desses valores às vítimas. É preciso garantir que ao menos um percentual chegue a quem foi diretamente atingido”, afirmou.

Na sequência, Maria Regina Silva, diretora da AVABRUM, destacou a indignação das comunidades ao verem empresas seguirem lucrando nos territórios devastados pelas tragédias. Para ela, a permanência das atividades econômicas sem contrapartidas aprofunda a sensação de injustiça. “As mineradoras continuam ganhando dinheiro nos locais onde causaram destruição e morte. Isso gera revolta. Precisamos discutir mecanismos que revertam esse lucro pós-tragédia para as associações ou para ações reais de reparação”, defendeu.

A também diretora da AVABRUM, Edi Tavares, reforçou que a luta por justiça também passa pela preservação da memória e pela responsabilização pública das empresas envolvidas. Ela alertou para o risco de apagamento histórico e para a importância de nomear os responsáveis. “É fundamental dizer quem causou cada crime. Vale, Samarco, BHP, Braskem precisam ser citadas. A memória é uma ferramenta de justiça e impede que essas violações sejam naturalizadas”, afirmou.

Encerrando o painel, a diretora da AVABRUM, Josiane Melo, leu a Carta à Justiça e ressaltou o caráter histórico da Carta à Justiça e ao Brasil e o significado político da articulação construída em Brumadinho. “Esse documento nasce da dor compartilhada, mas também da nossa maturidade coletiva. Pela primeira vez, vítimas de diferentes tragédias falam juntas ao país e ao sistema de justiça. A união transforma o luto em ação e afirma que não aceitaremos mais a repetição desses crimes”, concluiu.

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