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A diplomacia brasileira é hábil e cuidadosa, mas a contraparte é instável, imprevisível e, não poucas vezes, tirânica.
| Paulo Henrique Arantes Lula e Trump reúnem-se na Casa Branca em março, como amplamente noticiado. A reunião bilateral deverá constituir a consolidação de uma relação civilizada, em que cada país trabalha pelos seus interesses comerciais e em conformidade com as limitações geopolíticas determinadas pelo Direito Internacional. Será uma vitória da diplomacia, a perfazer uma espetacular evolução desde que o governo americano atacou, retoricamente, a soberania brasileira ao tentar intrometer-se no processo que condenou Jair Bolsonaro e nos impôs, para logo retirar, tarifas comerciais teratológicas. O parágrafo acima estaria perfeito – e a situação mereceria comemoração – não fosse Donald Trump o ocupante da uma das poltronas do encontro bilateral de março. Noticiário Comentado é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um subscritor gratuito ou pago. Lula e o corpo diplomático brasileiro são hábeis e cuidadosos, mas a contraparte é instável, imprevisível e, não poucas vezes, tirânica. Não se pode esquecer o incômodo que os Brics provocam em Trump desde sempre, nem desconsiderar os posicionamentos públicos do estadista brasileiro contra o ataque à Venezuela e, especialmente, sobre a criação do tal Conselho de Paz. Lula disse com todas as letras que Trump pretende criar uma ONU para si e que tal atitude opõe-se ao multilateralismo. “Do presidente Trump pode-se esperar qualquer tipo de reação, mas me parece que os arroubos contra o Brasil ficaram para trás, especialmente por conta da ação da diplomacia, seja a diplomacia de Estado, seja a diplomacia empresarial, que modificaram as relações entre os governos”, avalia o professor de Direito Internacional da USP Wagner Menezes, membro do quadro de árbitros da ONU. Para Menezes, as falas de Lula fazem parte do processo democrático e não constituem um posicionamento oficial do Brasil em oposição ao governo americano. Quanto ao encontro de março, de todo modo, o professor recomenda cautela: “Eu consideraria essa reunião entre Lula e Trump um risco, pois Trump e sua equipe já constrangeram líderes mundiais na Casa Branca”. Noticia-se que o governo brasileiro buscará uma parceria com Washington para combate ao crime organizado, calcada em pontos concretos de atuação, como ações contra a lavagem de dinheiro, o compartilhamento de dados financeiros de suspeitos e a busca por pessoas foragidas. À primeira vista, o gesto parece um afrouxamento da propalada soberania nacional brasileira, contrariando o discurso de que não somos um país dominado pelo crime nem aceitamos que outro país venha combater quem quer que seja dentro do nosso território. Mas não é bem assim. Trata-se, na interpretação do professor Wagner Menezes, de uma linha estratégica a ser aplaudida: “Eu acho bastante positivo, acho que isso gera um determinado tipo de linguagem diplomática propositiva cujo objetivo é justamente evitar algum tipo de intervenção mais contundente dos Estados Unidos no Brasil. Esse tipo de iniciativa diplomática desarma qualquer tipo de narrativa do governo norte-americano nesse campo”. Se de cunho, digamos, preventivo-estratégico, a iniciativa brasileira fará todo sentido, especialmente se considerarmos que a direita bolsonarista tentará pintar o Brasil como um Estado dominado pelo crime organizado nas eleições presidenciais, e que essa súcia destemperada não titubeia em pedir que os Estados Unidos invadam o Brasil “para combater o crime”. Não custa lembrar que, neste janeiro de 2026, agentes do FBI capturaram um suspeito de tráfico de drogas ligado ao Cartel de Sinaloa no México. A operação foi descrita como secreta e gerou tensão com o governo mexicano, que afirma ter sido a operação conduzida sem permissão. As autoridades mexicanas consideraram uma interferência na jurisdição do país. Tratou-se de uma operação que ultrapassou fronteiras e gerou um impasse diplomático sobre soberania e papel das forças americanas em solo estrangeiro – algo que o governo brasileiro quer e precisa evitar, já que todo cuidado é pouco quando direitistas insanos permanecem de prontidão para derrubar nossa democracia. Foto: Ricardo Stuckert / PR. |