Mãe solo aos 40: quando a fertilização in  vitro (FIV) é o plano B

by Amarildo Castro

Fotos/divulgação : Dra. Márcia Mendonça Carneiro

Não há dúvida que o papel feminino na sociedade vem mudando ao longo dos últimos anos: as mulheres evoluíram e conquistaram novos papeis na sociedade, no mercado de trabalho e em vários outros campos. Neste contexto, a percepção feminina em relação à maternidade também vem mudando em todo o mundo assim como no Brasil. Mulheres jovens na Europa e no Brasil não consideram a maternidade uma prioridade segundo algumas pesquisas. Dados  divulgados recentemente refletem esta nova tendência: o número de mulheres solteiras que engravidam  casa dos 40 anos aumentou 250% nos últimos 30 anos nos Estados Unidos. Aparentemente, estas mulheres prefeririam encarar a maternidade com um parceiro, mas quando este não veio e o relógio biológico não podia esperar mais, optaram pela maternidade solo com o auxílio da fertilização in vitro (FIV) e de um banco de sêmen.

O National Center for Health Statistics (NCHS) americano já havia informado anteriormente que o número de bebês nascidos em mulheres acima de 40 anos de idade foi maior que  o de adolescentes pela primeira vez na história americana. Os partos em mulheres acima de 40 anos aumentaram 193% desde a década de 90 enquanto  o número caiu 7% naquelas entre 20 a 24 anos. No Brasil,  houve um aumento de 56% no numero de partos em mulheres na faixa etária de 35 a 39 anos e de 36% na faixa de 40 a 44 anos nos últimos anos. Não há dados brasileiros sobre maternidade solo e FIV, mas os números da Rede Latino-americana de Reprodução Assistida (REDLARA) que engloba 68 das 186 clínicas brasileiras mostram que em 2022 as mulheres com 40 anos ou mais representavam 35% dos ciclos de FIV enquanto as com menos de 34 apenas 18%.

O adiamento da maternidade é um fenômeno mundial e resulta na queda dos nascimentos mesmo em países nos quais a natalidade é alta como Índia , China e no inclusive no Brasil. Os números publicados recentemente revelam que a taxa de fertilidade vem caindo ao longo dos anos: em 2013 era 2,0 filhos/mulher e em 2023 chegou a 1.5, sendo o valor de 2.1  considerado adequado para a substituição populacional no longo prazo.  Muitas mulheres, entretanto, só se sentem prontas do ponto de vista pessoal e profissional para encarar o desafio da maternidade após os 35 anos de idade.  Além disso, o mercado de trabalho nem sempre acolhe aquelas que escolhem serem mães e a maternidade é um dos fatores que acentua a desigualdade salarial entre homens e mulheres.  Aparentemente, as mulheres da geração Z têm adiado ou desistido da maternidade em prol da carreira e da saúde mental, pois acompanharam os enormes desafios enfrentados pela geração Millenial.

Adiar a gravidez confiando nos avanços da ciência e das técnicas de reprodução assistida como a fertilização in vitro (FIV;“bebê de proveta”) pode ser uma opção, mas é preciso reconhecer que não há garantias e que apesar dos avanços tecnológicos, a idade feminina ainda constitui o principal fator de sucesso que afeta as chances de gravidez. As mulheres nascem com um número fixo não-renovável de óvulos, a chamada “reserva ovariana” e, ao longo do tempo, há redução não só do número assim como da qualidade destes e o consequente  declínio da fertilidade, que se acelera  após os 35 anos. Assim,  aos 41 anos as chances de infertilidade podem chegar a 50% aos 41 anos e 90% aos 45. Um estudo publicado recentemente traz esperança ao mostrar que a suplementação de óvulos com uma proteína essencial reduz os efeitos deletérios da idade, com potencial para melhorar as chances de gravidez na fertilização in vitro (FIV) para mulheres acima de mais velhas. Embora estes resultados sejam promissores, ainda há um longo caminho a ser percorrido até que este avanço possa ser utilizado.

Os extraordinários avanços no campo da Medicina Reprodutiva deram às mulheres novas perspectivas, permitindo o controle seu ciclo reprodutivo e a possibilidade de escolher ou não a maternidade, o número de filhos e de quando tê-los, eventualmente sem a necessidade de um parceiro. É bem verdade que muitas mulheres conseguem engravidar espontaneamente após os 35 anos. Entretanto, não há até o momento nenhum método capaz de medir com precisão a reserva ovariana muito menos a chance real de engravidar e ter um filho saudável. Assim, é preciso reconhecer os limites biológicos e procurar avaliação médica especializada para o devido aconselhamento e tomada de decisão.

Márcia Mendonça Carneiro, Ginecologista do Biocor Rede D’Or, Professora Titular- Departamento de Ginecologia e Obstetrícia – Faculdade de Medicina da UFMG

Postagens relacionadas

Deixe um comentário