- Cores e formas podem ser um alerta para o câncer colorretal, segundo mais frequente entre homens e mulheres no Brasil
Muitas vezes ignorado ou tratado como tabu, o hábito de observar as fezes é um dos métodos de autovigilância mais eficazes para a saúde. No mês da campanha Março Azul, que visa a conscientização sobre o câncer colorretal, especialistas alertam que alterações no formato, cor e frequência da evacuação não são apenas desconfortos passageiros, mas sinais vitais que o corpo envia.
“As características das fezes variam de acordo com a hidratação do bolo fecal, quantidade de fibras ingeridas e tipo do alimento ingerido, basicamente. Devemos observar nossas fezes, pois alterações nas mesmas podem ser indicativo de diversas doenças, dentre elas o câncer colorretal. Este é um dos parâmetros que usamos para avaliar uma evacuação de qualidade e saúde intestinal.
Deve-se avaliar também, a frequência evacuatória, presença de desconforto abdominal ou anal, sangue ou muco nas fezes, e o calibre das mesmas, “diz a proctologista, Geanna Resende, que atende no instituto Orion do aparelho digestivo, no Órion Complex em Goiânia.
Ela explica que o formato ideal das fezes seria tipo Bristol 3 e 4 (formato cilíndrico, de “banana, salsicha”). Já fezes afiladas podem indicar problemas na região do reto – que é a porção final do intestino grosso- ou canal anal e podem também ser um sinal de câncer. “As fezes afiladas estão entre “os sintomas de alerta” para o câncer de intestino, devendo ser investigada o mais rápido possível”, destaca a proctologista.
A coloração da fezes deve ser acastanhada, sem sangue ou muco, que também são considerados sintomas de alerta, orienta a doutora. Ela explica que as fezes enegrecidas (semelhantes a “piche”), pastosas, de odor fétido, é indicativo de sangramento de origem digestiva alta, ou seja, estômago, duodeno, ou jejuno (intestino fino), pois indicam decomposição do sangue pelas bactérias intestinais, ocasionando essa colocação e odor bem característicos. “Já sangue vermelho vivo em meio às fezes, seria indicativo de origem em intestino grosso, reto ou doenças anais”, ensina.
Além disso, é importante observar a mudança do hábito intestinal. Quem tem intestino preso e, sem promover nenhuma alteração na alimentação ou rotina, começar a evacuar mais vezes, e vice-versa, deve ligar o sinal de alerta, diz Geanna Resende. Dores abdominais recorrentes, perda de peso sem causa aparente e anemia são outros sintomas que não podem ser menosprezados.
*Por que falar sobre o “número 2”*
Trazer as orientações sobre o hábito intestinal para as discussões do dia a dia, sem preconceito, encontra respaldo na última estimativa divulgada pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), que estima 53.810 casos novos no Brasil, para cada ano do triênio de 2026 e 2028. Uma projeção do Instituto Nacional do Câncer (Inca) concluiu que o número de mortes prematuras causadas por câncer de intestino deve crescer cerca de 10% entre 2026 a 2030 no Brasil.
O câncer de intestino já é o segundo mais frequente entre homens e mulheres no Brasil. Quem observa o hábito intestinal e procura um especialista logo no início tem mais chances de ter um tratamento bem sucedido. Dra Geanna informa que, embora tenha chances de cura superiores a 90% se detectado precocemente, cerca de 65% dos casos ainda são descobertos em estágios avançados, o que reduz drasticamente as chances de sobrevida.
Por isso, instituiu-se o Março Azul, para se discutir o tema e, também, no dia 27 de março, celebra-se o Dia Nacional de Combate ao Câncer Colorretal, data que reforça a urgência de quebrar o preconceito.
“O objetivo da campanha é alertar a população sobre a importância do câncer de intestino nos dias atuais, no intuito de se alertarem sobre a necessidade de cuidados preventivos, e esclarecimentos sobre a prevenção correta. A incidência de câncer de intestino de início precoce (em menores de 50 anos), tem aumentado de forma significativa em todo o mundo, o que faz com que se ascenda um alerta para a real necessidade de se conhecer mais sobre o câncer de intestino e de se iniciarem medidas preventivas mais precoces’, salienta a proctologista.
A Sociedade Brasileira de Coloproctologia recomenda que a prevenção por colonoscopia comece aos 45 anos para quem não tem sintomas. Caso haja histórico familiar de câncer ou pólipos intestinais, o rastreamento deve começar 10 anos antes da idade em que o parente teve o diagnóstico.
“O câncer de intestino é uma das poucas doenças que podemos dizer que realmente tem prevenção. Durante o exame de colonoscopia, encontramos um pólipo — que é como uma ‘verruga’ benigna — nós o retiramos na hora, impedindo que ele se transforme em um câncer no futuro”, explica a especialista Geanna.
*Bom hábito intestinal também previne o câncer*
Investir em uma boa alimentação para se ter um hábito intestinal saudável é também uma medida preventiva a doenças intestinais e ao câncer colorretal, pois, segundo a médica, cada vez mais estudos evidenciam que alterações na microbiota intestinal (disbiose intestinal) estão relacionadas ao aumento das chances de câncer de intestino. Portanto, mais que observar o seu “número 2”, adote as dicas deixadas pela especialista Geanna Resende:
1 – Mantenha uma dieta rica em fibras (folhas, frutas, cereais integrais), em torno de 25 gr ao dia.
2 – Beba muito líquido: multiplique seu peso por 30 para ter uma ideia da quantidade/dia.
3 – Evitar alimentos processados, embutidos, açúcares, farináceos e álcool.
4 – É proibido fumar!
5 – Adote uma prática de exercícios físicos regulares.
6 – Comece cedo – a real prevenção do câncer de intestino não deve se iniciar aos 45 anos de idade, e sim na infância, no momento de introdução dos alimentos as crianças, instituindo hábitos alimentares saudáveis já nessa idade, bem como o estímulo aos exercícios físicos.