250 anos de um país em guerra com o mundo

by Amarildo Castro

De acordo com o Projeto de Intervenção Militar (MIP) da Universidade Tufts e registros históricos, os EUA realizaram quase 500 intervenções militares desde sua fundação.

Os Estados Unidos tornaram-se independentes há 250 anos e, numa imagem estrategicamente forjada ao longo do século XX, constituíram um modelo de democracia para o mundo ocidental. Seria injusto não lhes reconhecer certos atributos democráticos, todos relativos, mas as ressalvas são tormentosas. O preconceito racial em terras americanas, a despeito dos avanços formais na direção de igualdade, é notável. Os imigrantes, que no passado ajudaram a construir seu desenvolvimento econômico, hoje são tratados como invasores e perturbadores da ordem por um presidente xenófobo. Da porteira para fora, a autobatizada América é uma nação antes de tudo imperialista, e a mais belicista de que se tem registro na História moderna.

O fato de os EUA terem estado no lado certo da História ao menos uma vez, quando, juntos com a União Soviética e os Aliados, derrotaram Hitler e a Alemanha nazista, não os autoriza a semear conflitos mundo afora e a se intrometer em questões internas de outras nações.

Noticiário Comentado é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um subscritor gratuito ou pago.

Nenhum país promoveu mais intervenções militares internacionais ou ingressou belicosamente em outros territórios do que os Estados Unidos na era moderna. De acordo com o Projeto de Intervenção Militar (MIP) da Universidade Tufts e registros históricos, os EUA realizaram quase 500 intervenções militares desde sua fundação, sendo que mais de 50% delas ocorreram após 1950 e mais de 25% após o fim da Guerra Fria. O país operou ações militares, bombardeios ou incursões secretas em mais de 50 países no século passado.

Ao longo dos seus 250 anos de história, os Estados Unidos participaram de mais de 100 conflitos militares, tendo declarado guerra, formalmente, 11 vezes. Sob a ótica de guerras promovidas por iniciativa própria – guerras de agressão, invasões ou intervenções unilaterais – os historiadores apontam para um núcleo de aproximadamente 12 grandes conflitos estruturais, além de centenas de operações e intervenções de menor escala.

A coisa toda está na internet para quem quiser ver, não são necessárias horas de pesquisa ou cursos de geopolítica para se chegar a conclusões assustadoras. Quem não se informa não se indigna, o que talvez explique a idolatria que tanta gente nutre pelo Império do Norte, com perdão pelo chavão um tanto esquerdista, mas que traduz a realidade.

As próprias Forças Armadas e agências de inteligência americanas dividem as iniciativas bélicas dos EUA em fases históricas claras. A primeira contém ações de expansão territorial ou apenas de agressão por motivações políticas, quais sejam (só as principais):

  • Guerra Mexicano-Americana (1846–1848): Um clássico conflito de iniciativa própria orientado pela doutrina do “Destino Manifesto”. Os EUA invadiram o México após disputas na fronteira do Texas, resultando na anexação de mais de 50% do território mexicano (atuais estados da Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada e Utah).
  • Guerras Indígenas (Constantes até 1890): Centenas de campanhas militares promovidas pelo governo federal para submeter, remover à força e confiscar as terras das nações nativas americanas.
  • Guerra Hispano-Americana e Guerra Filipino-Americana (1898–1902): Os EUA intervieram na guerra de independência de Cuba contra a Espanha. Após vencerem, iniciaram uma guerra de ocupação por iniciativa própria nas Filipinas para transformar o arquipélago em colônia, além de anexarem Porto Rico e Guam.

Num segundo período, ocorrem as chamadas “Guerras das Bananas” e intervenções na América Latina. Foram ocupações e invasões navais promovidas diretamente pelos EUA para defender interesses comerciais e políticos na região do Caribe e América Central. Incluem-se as invasões e as longas ocupações de nações soberanas como o Haiti (1915–1934), República Dominicana (1916–1924), Nicarágua (1912–1933) e Honduras (múltiplas intervenções).

Já a terceira fase contempla os conflitos típicos da Guerra Fria (1947–1991):

  • Guerra do Vietnã (1965–1975): Iniciada com o envio gradual de conselheiros e massificada por iniciativa própria após o contestado Incidente do Golfo de Tonquim. Os EUA despejaram mais bombas no Sudeste Asiático do que em toda a Segunda Guerra Mundial.
  • Invasão de Granada (1983) e Invasão do Panamá (1989): Duas ações militares unilaterais e rápidas na América Latina. A primeira derrubou um governo de orientação marxista e a segunda destituiu e capturou o ditador panamenho Manuel Noriega.

O quarto momento histórico-belicoso dos Estados Unidos inicia-se com a deflagração da “Guerra ao Terror” (1991) e se alastra até a ingerência trumpiana no Irã:

  • Guerra do Iraque (2003–2011): Ação militar de iniciativa própria mais explícita do século XXI. Os EUA lideraram uma coalizão para invadir o país sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, sob a falsa alegação de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.
  • Intervenção na Líbia (2011): Os EUA, junto à Otan, iniciaram bombardeios aéreos que resultaram na queda e execução do líder Muammar Kadafi.
  • Campanhas de Drones e Operações de Contra-Terrorismo: Campanhas contínuas e unilaterais que violaram o espaço aéreo de países como Iêmen, Paquistão e Somália para a eliminação de alvos estratégicos.

Além do uso ostensivo das Forças Armadas, a política externa norte-americana promoveu dezenas de “guerras secretas” por intermédio da CIA. Essas intervenções derrubaram governos eleitos democraticamente ou financiaram grupos paramilitares rebeldes, como no Irã (1953) e na Guatemala (1954), atos aos quais se somam o fiasco da Baía dos Porcos em Cuba (1961) e o apoio a golpes militares no Brasil (1964) e no Chile (1973).

Os Estados Unidos não merecem celebrações pela passagem dos seus 250 anos, tanto menos quando seu atual presidente encarna todas as idiossincrasias comuns aos tiranos imperiais.

Foto: Casa Branca.

Postagens relacionadas

Deixe um comentário