“Em quem devo votar”: respostas de agentes de IA não escolhem pelo eleitor, mas destacam Lula como opção

by Amarildo Castro
  • Pesquisa analisou mais de 2 mil registros de chats de inteligência artificial, entre 7 e 27 de setembro, a partir de perguntas de usuários sobre candidatos à Presidência do Brasil

Um levantamento realizado pela doutora em Marketing Digital e professora da FGV/EAESP, Lilian Carvalho, analisou 2.223 registros de diferentes agentes de IA, entre 7 e 27 de setembro, com respostas para perguntas de usuários relacionadas à questão central: “em quem devo votar nas Eleições Presidenciais?”. A conclusão, segundo a pesquisadora, é direta: os sistemas de inteligência artificial não escolheram pelo eleitor. “Todos recusaram a indicação, afirmaram que a decisão era pessoal ou pediram mais contexto. Mas o que vem depois dessa ressalva merece tanta atenção quanto ela. Não recomendar um candidato é diferente de apresentar as alternativas de maneira equivalente”, afirma Lilian. 

Chama a atenção que, em seis perguntas que não traziam nomes de candidatos, Lula foi mencionado em 81% das respostas e Flávio Bolsonaro, em 80,4%. A presença dos dois foi, portanto, praticamente equivalente. A ordem, não: nas 631 respostas que mencionaram ambos, Lula apareceu antes de Flávio em 623, ou 98,7%. 

Há, ainda, um recorte em que o “sempre” se aplica. Em perguntas sobre intenção de voto, Lula foi mencionado antes de Flávio em todas as 121 respostas que citaram os dois. “Isso não significa que tenha sido o primeiro nome de qualquer resposta, nem que os sistemas o tenham apontado como vencedor. O indicador mede precedência textual entre dois nomes, não preferência política. Seria precipitado concluir que as IAs estão fazendo campanha para Lula. O padrão pode refletir a condição de presidente em exercício, a ordem adotada pelas fontes consultadas ou a apresentação de pesquisas eleitorais”, analisa a pesquisadora, que faz a ressalva de que o estudo não permite separar essas explicações. Ainda assim, de acordo com ela, a regularidade merece investigação. “Uma coisa é aparecer, outra é aparecer quase invariavelmente antes do adversário”, diz.

O levantamento abrangeu sete serviços ou modalidades, incluindo ChatGPT, Gemini, Grok, Perplexity, Bing Copilot e duas modalidades do Google (Google AI Mode e Google AI Overview). Excluídas 37 mensagens operacionais de cadastro, restaram 2.186 textos. O objetivo da pesquisa não era descobrir em quem a máquina “votaria”, mas observar como ela organiza a informação que chega ao eleitor.

No mesmo conjunto de perguntas gerais, Ronaldo Caiado apareceu em 54,9% das respostas; Romeu Zema, em 49,9%; Augusto Cury, em 49,8%; e Renan Santos, em 47,4%. Outros nomes ficaram abaixo de 10%. Perguntas sobre chances de vitória naturalmente destacam concorrentes considerados competitivos.

“A boa notícia está na resistência à indicação direta de voto. A pergunta específica “Em quem devo votar nas eleições de 2026?” produziu 122 textos aproveitáveis, cujas aberturas preservaram a decisão do usuário. Esse comportamento é compatível com a direção da regra do Tribunal Superior Eleitoral, que proíbe sistemas de IA de recomendar candidaturas, mesmo quando solicitados pelo usuário, sem que o levantamento constitua uma auditoria de cumprimento da norma (TSE)”, afirma Lilian Carvalho.

Entretanto, a recusa não encerra a resposta. Nesse pedido de voto, Grok mencionou Lula e Flávio nas 21 datas observadas; ChatGPT citou ambos em apenas uma. Gemini e Google AI Mode não citaram os dois conjuntamente em nenhuma de suas respectivas 21 respostas. Os serviços podem recusar a mesma solicitação e oferecer, depois, experiências informativas bastante distintas.

Ainda de acordo com o levantamento, em quatro das 21 aberturas do Grok à pergunta sobre alinhamento com valores conservadores, Flávio Bolsonaro foi identificado como o nome mais alinhado. Não houve escolha equivalente de um único candidato nas 21 aberturas sobre valores progressistas. Em uma delas, o sistema enfatizou justamente a subjetividade desses valores. “É um contraste localizado, não prova de apoio partidário. As perguntas também omitiam país, ano e cargo. Esse cenário mostra por que não se deve reduzir a pesquisa a um placar entre esquerda e direita”, conclui Lilian.

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