DF e Goiás entram na Mostra do Filme Marginal

by Amarildo Castro

Capim-navalha, de Michel-Queiroz

Com o tema “Cinema e Emergência Ambiental: Imagens de um Futuro Possível”, evento no Rio de Janeiro reúne filmes das cinco regiões do Brasil e de outros países

Programação vai de 15 a 24 de outubro, incluindo dois longas-metragens e cinco curtas do DF e de Goiás que refletem sobre temas como religiao de matriz africana, comunidade quilombola, temática LGBT e pessoas com deficiência.

De 15 a 24 de outubro, o Rio de Janeiro recebe a 6ª Mostra do Filme Marginal, que, nessa edição, propõe um olhar sobre as urgências e os desafios ambientais por meio do cinema. Com o tema “Cinema e Emergência Ambiental: Imagens de um Futuro Possível”, a mostra reúne 123 filmes nacionais e internacionais, com exibições gratuitas em diferentes pontos da cidade. Entre longas, médias e curtas-metragens, o público terá acesso a produções independentes dos mais variados gêneros e linguagens: ficção, documentário, cinema experimental, ficção científica, animação, realismo fantástico e terror.

Há produções de todas as regiões do país, com destaque para os estados do Rio de Janeiro, que entra com 20 filmes; São Paulo, com 18; Rio Grande do Norte, com 10; Bahia e Pernambuco, com oito cada. O Distrito Federal e Goiás apresentam-se com sete filmes, incluindo dois longas-metragens.

As obras selecionadas trazem reflexões sobre a crise climática e seus impactos sociais, culturais e políticos. Temas como aquecimento global, racismo ambiental, direito à terra, moradia, direitos indígenas, feminismo e diversidade sexual compõem a programação, colocando em diálogo diferentes territórios, experiências e formas de imaginar o futuro. Toda a programação é gratuita.


 

Pedrinhas Miudinhas-Matheus-Nascimento@mattsnascimento-DF

Os longas Mapas e Capim Navalha são destaque na mostra

Dirigido pelo brasiliense Rafael Lobo, o longa MAPAS estreou nacionalmente em junho, no Cine PE, onde conquistou cinco prêmios. Recentemente recebeu também o de Direção na Mostra Brasília do 59º Festival de Brasília. Ambientado na capital, o filme revisita memórias da construção da cidade e usa o horror para explorar como esse passado ainda assombra o presente. Na ficção de 115 minutos, Júlia e Sérgio se lançam na busca por Rebeca, uma cicloativista desaparecida, percorrendo uma Brasília atravessada por mistérios e silêncios. A investigação os conduz a tragédias esquecidas da cidade, onde ruínas, memórias e presenças inquietantes começam a se entrelaçar. Entre o real e o fantástico, Mapas transforma essa busca em uma travessia por fantasmas do passado que insistem em ecoar no presente. A obra foi realizada com recursos públicos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) geridos pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE). 

Outra produção da capital, PEDRINHAS MIUDINHAS é um documentário de 13 minutos, dirigido por Isabelle Araújo (Muzenza Undembualuka). Na roça de candomblé, o tempo brinca de roda com as crianças. Entre risos e gestos herdados, a memória encontra jeito de continuar. Pedrinhas Miudinhas aborda a relação entre infância, território e natureza a partir do cotidiano de um terreiro de Candomblé. As brincadeiras das crianças acontecem em contato constante com a terra, as árvores, as folhas, os ciclos do tempo e os elementos naturais que compõem esse espaço de convivência e formação. A obra reflete sobre pertencimento, cuidado com o território e preservação de patrimônios culturais e ambientais inseparáveis entre si.

Produzido entre Cavalcante (GO) e Brasília (DF), QUEM PODE FALAR? é um documentário dirigido por Pedro Daldegan, um dos mais atuantes na cena de cinema em Brasília. O filme de 30 min. foi realizado de forma independente, sem patrocínio, pela comunidade periférica e negra Quilombola Kalunga, revelando as experiências de resistência, solidariedade e autossustentação. Por séculos tratados como objetos de estudo, os Kalunga agora ocupam as universidades e reivindicam o protagonismo de suas próprias narrativas. E, no coração do Território Quilombola, durante o VI Encontro – entre Pesquisadores e Pesquisados, eles rompem o silêncio ao colocar em debate a questão: “Quem Pode Falar?”.

Um dos destaques do festival, CAPIM NAVALHA é um documentário goiano de longa-metragem sobre pessoas trans que moram na Chapada dos Veadeiros. Diferentes entre si, complexas por suas trajetórias retratadas em seus territórios corporal- geográfico-decolonial-interseccional e suas vivências LGBTQIAPN+ no Cerrado Goiano. O filme de 90 min. apresenta narrativas de gênero dissidentes, elaborando fricção e alteridade sobre esses elas/eles/elus, trazendo uma reflexão sobre sociedade no cis-tema dentro do Centro-Oeste. O projeto foi contemplado pela Lei Aldir Aldir Blanc e pela Lei Federal Paulo Gustavo do Estado de Goiás, por meio de dois editais.

Filmado em Goiânia, FUNDAMENTO é um misto de documentário e ficção, de 14 min., dirigido pela premiada cineasta goiana Ana Clara Gomes. O filme contempla os atravessamentos entre o ser humano e a natureza. Das vivências do comunitário, da vida em comunidade, Milca é raiz que se fundamenta na coletividade. Seu cantar é coco, é folia, é semente fincada em terra fértil, que se espalha e cria raízes. Ela cresce para dentro, gera sementes e dá vida, ao mesmo tempo em que as faz ressoar no abê que a acompanha.

Outra produção da capital goiana, DOIS PASSOS é uma ficção de12 min. que aborda questão de gênero. Marcela, uma menina de 12 anos, faz um longo caminho de volta da escola para casa, mas ela ainda não percebe que, todos os dias, é uma sobrevivente. Dirigido por Joyci Viegas, a produção contou com apoio da Lei Paulo Gustavo.

A animação MATILDA é uma produção conjunta de Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Pará, dirigida por Laly Cataguases. A história se passa no quintal com horta de uma casa de periferia. No filme, uma menina negra de quatro anos PCD (pessoa com deficiência) precisa aprender a lidar pela primeira vez com o luto, a morte de seu animalzinho querido. A produção de 11 min. é inspirada no conto “A lei da compensação”, do livro “O homem que era verde”, de Laly Cataguases.

Destaques do ano

A abertura da 6ª Mostra do Filme Marginal será marcada pela estreia no Brasil do longa-metragem “Retorno a Fukushima” (Retour à Fukushima/Return to Fukushima), no Cinema Nosso, na Lapa. Dirigido pelo belga Thomas Licata, o documentário aborda a vida na cidade de Namie, na província de Fukushima, no Japão, mais de dez anos após o desastre nuclear de 2011.

Segundo Uilton Oliveira, idealizador da mostra, além da quantidade de filmes indígenas, especialmente dirigidos por mulheres, como ‘A Floresta das Mulheres-Peixe’, chamam a atenção nomes fortes na lista de diretores, como o de Leonardo Martinelli, carioca do Andaraí, que apresenta o curta “Samba Infinito”, que teve sua estreia em Cannes, no ano passado. Outro cineasta de destaque na programação é Alberto Sena, de São Gonçalo (RJ), que exibirá “Proteção”. De São Paulo, Thais Scabio e Gilberto Caetano participam com o longa de terror negro “Onde Estamos Seguros”, também exibido em Cannes.

Entre os filmes da programação que vem se destacando no circuito de festivais está “Capim Navalha”, documentário que retrata questões vividas por personagens trans na Chapada dos Veadeiros (DF), com direção do brasiliense Michel Queiroz. Nesse quesito entra também “Quanto Vale uma Década”, sobre os dez anos do rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), dirigido pelo carioca Clementino Junior, fundador do Cineclube Atlântico Negro. “Os Arcos Dourados de Olinda”, do pernambucano Douglas Henrique, é outra produção bastante premiada em festivais no Brasil e no exterior. Muitas sessões incluem bate-papo com os realizadores, conforme a programação apresentada nas redes sociais da mostra, no site e Instagram.

Seis edições de cinema independente

A Mostra do Filme Marginal foi criada em 2017. Em sua primeira edição, 36 filmes foram inscritos e, neste ano, as inscrições chegaram a 356. A seleção dos filmes foi realizada pela curadoria formada por Leila Xavier, Milena Manfredini, Rosa Miranda, Rosy Nascimento e Uilton Oliveira.

“A mostra existe para promover a difusão do audiovisual independente, abrir caminhos, dar visibilidade e fortalecer narrativas que a sociedade muitas vezes tenta invisibilizar. É uma celebração da diversidade e da potência das vozes de nossas periferias”, afirma Uilton Oliveira, idealizador do evento.

“Entendemos o cinema como linguagem crítica capaz de dar visibilidade às populações que vivem na linha de frente dos impactos ambientais”, afirma a curadora Leila Xavier.

A 6ª Mostra do Filme Marginal é uma realização da Corpo Fechado, com apoio do Pró-Carioca Audiovisual 2026, Edital nº 2 – Apoio à Produção de Mostras e Festivais de Audiovisual, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), RioFilme.

SOBRE A MOSTRA

Desde que foi criada em 2017, a Mostra do Filme Marginal é uma iniciativa de difusão, reflexão, estímulo, autoformação e organização do público para um cinema popular, autoral e crítico. Por meio de parcerias com movimentos sociais e instituições culturais, tornou-se um importante espaço de divulgação de produções que trazem personagens e temáticas sociais, políticas e culturais diversificadas e marginalizadas pelo sistema sociopolítico vigente, com uma leitura crítica fora dos meios comerciais.

SERVIÇO

6a Mostra do Filme Marginal
Tema: Cinema e Emergência Ambiental: Imagens de um Futuro Possível
Data: de 15 a 24 de outubro de 2026
Local: cidade do Rio de Janeiro (diversos locais, conforme programação)
Entrada franca
Programação: https://mostradofilmemarginal.com/programacao-2025/
Site: https://mostradofilmemarginal.com/

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