Afastamentos por transtornos mentais disparam no Brasil e acendem alerta sobre saúde mental no trabalho

by Amarildo Castro
  • Depressão e ansiedade puxam alta de quase 80% nos benefícios concedidos pelo INSS entre 2023 e 2025, com impacto financeiro e humano crescente

Por trás de planilhas e estatísticas, um problema silencioso vem se tornando cada vez mais visível no Brasil: o adoecimento mental relacionado ao trabalho. Dados recentes analisados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) mostram que os afastamentos por transtornos mentais cresceram quase 80% em apenas dois anos, entre 2023 e 2025, gerando um custo estimado de R$ 954 milhões em benefícios pagos pelo INSS.

Segundo o levantamento, depressão e transtornos de ansiedade lideram as causas de afastamento, refletindo uma combinação de fatores como sobrecarga laboral, insegurança profissional, jornadas extensas e dificuldade de acesso a cuidados preventivos em saúde mental.

Para o médico residente em Psiquiatria Lucas Pacini, os números escancaram um problema que já vinha sendo observado na prática clínica. “Esses dados não surgem do nada. Eles refletem pessoas que passaram meses — às vezes anos — ignorando sinais claros de esgotamento emocional, acreditando que o sofrimento fazia parte da rotina profissional”, afirma.

Pacini destaca que, em muitos casos, o afastamento ocorre apenas quando o quadro já se tornou incapacitante. “Existe uma cultura de normalização da ansiedade, da insônia e do cansaço extremo. O problema é que o corpo e a mente têm limites. Quando esses limites são ultrapassados de forma contínua, o adoecimento se instala”, explica.

O médico ressalta que transtornos como burnout, depressão e ansiedade não aparecem de forma abrupta. “Eles se constroem aos poucos, em silêncio. A pessoa continua trabalhando, produzindo, cumprindo metas, mas já está funcionando no automático. Quando finalmente busca ajuda, muitas vezes já precisa se afastar”, diz.

Além do impacto financeiro para a Previdência Social, Pacini chama atenção para o custo humano do problema. “Cada afastamento representa alguém que perdeu qualidade de vida, autonomia e, em muitos casos, identidade profissional. A conta não é só econômica — é emocional, familiar e social.”

Para o psiquiatra, os dados reforçam a necessidade de mudar a lógica de cuidado em saúde mental no ambiente de trabalho. “Psiquiatria não deve ser vista como último recurso, quando tudo já desmoronou. Ela também é prevenção. Identificar sinais precoces e intervir antes do colapso reduz afastamentos, recaídas e sofrimento”, afirma.

Pacini defende que empresas e trabalhadores precisam abandonar a ideia de que buscar ajuda é sinal de fraqueza. “Cuidar da saúde mental é uma estratégia de sustentabilidade humana. Nenhuma produtividade se sustenta à custa do adoecimento”, conclui.

Especialistas apontam que ampliar o acesso a acompanhamento psicológico e psiquiátrico, promover ambientes de trabalho mais saudáveis e combater o estigma em torno dos transtornos mentais são passos essenciais para frear a escalada dos afastamentos. Caso contrário, os números tendem a continuar crescendo — com impactos cada vez mais profundos para o país.

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