- No Dia Nacional do Orgulho Autista, especialistas destacam os benefícios da Terapia Assistida por Animais (TAA) para pessoas com TEA e debatem proposta de incluír a prática no SUS
Em 18 de junho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Orgulho Autista, instituído pela Lei 15.365/26. A data convida a sociedade a reconhecer a neurodiversidade, combater o estigma e avançar em políticas públicas para as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nesse contexto, cresce a atenção científica sobre uma abordagem que une afeto e ciência: a Terapia Assistida por Animais (TAA). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 70 milhões de pessoas vivem dentro do espectro autista, sendo cerca de 2 milhões somente no Brasil.
A TAA tem se destacado como abordagem complementar promissora no cuidado de crianças com TEA. Em um cenário em que o tratamento exige intervenções individualizadas e humanizadas, a presença de animais treinados pode representar, nas palavras do médico Marcos Fernando Teodoro de Almeida, membro do corpo clínico da Prima Cordis, “uma ponte afetiva e terapêutica entre a criança, o profissional e o ambiente ao seu redor”.
Embora a evidência científica ainda seja considerada preliminar, os resultados são encorajadores. Marcos Fernando destaca que uma meta-análise com 16 estudos e 489 participantes encontrou melhorias consistentes na interação social, na comunicação e na redução dos sintomas globais do TEA — especialmente quando a TAA é integrada a um plano terapêutico mais amplo e conduzida por profissionais capacitados.
Entre as modalidades de TAA, a equoterapia apresenta evidências particularmente relevantes. Segundo o especialista, estudos demonstram benefícios no funcionamento social e comportamental, nas habilidades de linguagem, na cognição social e na comunicação, além de melhora em sintomas como irritabilidade e hiperatividade. “A interação com o animal não atua apenas como atividade recreativa, mas pode funcionar como um recurso estruturado para estimular atenção, regulação emocional, coordenação, vínculo e participação ativa da criança”, afirma o médico.
Da teoria à prática: a TAA chegando às clínicas
O movimento de incorporar a TAA ao ambiente clínico já é realidade em alguns serviços de saúde. Na Prima Cordis, clínica de especialidades médicas em Belo Horizonte, a gestão está implantando um protocolo de visitas de cães terapeutas nos dias de atendimento de psiquiatras e pediatras. Para Marcos Fernando, a força da TAA está justamente em sua capacidade de unir técnica e afeto: “o animal pode reduzir barreiras relacionais, favorecer a espontaneidade, estimular comportamentos comunicativos e tornar o processo terapêutico menos ameaçador”. Para algumas crianças, o contato com o animal cria uma experiência de presença e acolhimento que facilita a abertura para novas aprendizagens.
Bianca Luísa de Freitas, gestora da Prima Cordis e mãe de uma filha diagnosticada com TEA, reforça essa percepção a partir da própria experiência. “Conheço famílias com filhos autistas que passaram a conviver com animais e viram uma transformação impressionante”, relata. Para ela, a prática está deixando de ser novidade para se tornar protocolo: “Vários hospitais já implantaram. Existe toda uma pesquisa científica que comprova os benefícios — não é mais intuição, é evidência”.
TAA no SUS: o debate legislativo
O Projeto de Lei 4711/2023, em tramitação na Câmara dos Deputados, propõe a inclusão da TAA no SUS para pessoas com TEA, alterando a Lei Berenice Piana. A aprovação do projeto representaria um avanço significativo no acesso de famílias de menor renda a essa modalidade. Marcos Fernando sintetiza a importância da pauta: “promover a Terapia Assistida por Animais é defender uma abordagem que valoriza não apenas os sintomas, mas a experiência viva da criança. É reconhecer que o desenvolvimento também acontece no vínculo, no brincar, no contato, na confiança e na relação com o outro”. Quando bem conduzida, a TAA pode tornar o tratamento mais humano, lúdico e significativo.
Bianca Luísa, que gasta mensalmente cerca de R$ 3 mil entre medicação e terapia para a filha, conhece bem essa barreira: “As famílias que não têm condição ficam sem acesso ao que há de melhor”. Um aspecto igualmente relevante no debate é o bem-estar dos animais envolvidos: médicos-veterinários exercem papel fundamental para garantir que os animais utilizados nas sessões estejam saudáveis, bem treinados e eticamente tratados — condição indispensável para a eficácia e a segurança da terapia.