CBD no esporte profissional: por que recuperação, procedência e antidoping precisam entrar no mesmo debate

by Amarildo Castro
Ricardo Guimarães, ex-atleta e treinador internacional de voleibol, explica por que o interesse pelos canabinoides cresce no futebol e em modalidades de alto impacto, mas exige orientação, controle de qualidade e atenção às regras esportivasTreinos intensos, partidas em intervalos curtos, viagens, mudanças de fuso, pressão emocional e lesões recorrentes fazem parte da rotina do esporte profissional. Diante desse cenário, o canabidiol, conhecido como CBD, passou a despertar o interesse de atletas e equipes que procuram novas possibilidades para integrar aos protocolos de saúde e recuperação.A discussão, entretanto, exige cautela.

O fato de o CBD não constar na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidoping, a Wada, não significa que qualquer produto possa ser utilizado livremente ou sem riscos.Todos os demais canabinoides naturais e sintéticos permanecem proibidos durante as competições, incluindo o THC. Produtos de CBD contaminados, mal rotulados ou que contenham outros canabinoides podem expor o atleta a um resultado adverso no controle antidoping.Para Ricardo Guimarães, fundador da CBD Brasil e da CBD Brasil Academy, a entrada do CBD no esporte precisa ser conduzida por ciência, acompanhamento e responsabilidade.

“O atleta precisa entender que CBD não é sinônimo de produto liberado. A Wada excluiu o canabidiol da lista de substâncias proibidas, mas outros canabinoides continuam proibidos em competição. Procedência, certificado de análise, rastreabilidade e avaliação profissional são indispensáveis”, afirma.CBD não é recurso automático para melhorar o desempenhoO canabidiol não deve ser divulgado como substância capaz de aumentar automaticamente força, velocidade, resistência ou rendimento esportivo.Os estudos sobre possíveis aplicações relacionadas ao sono, à dor, à ansiedade e à recuperação continuam em desenvolvimento. As evidências variam conforme o objetivo, a população analisada, a formulação e a dose estudada.Por isso, a utilização não deve ocorrer por indicação de colegas, influenciadores, treinadores ou marcas.

A decisão precisa considerar o histórico clínico, os medicamentos utilizados, o tipo de esporte, o calendário de competições e as regras antidoping aplicáveis.“O papel da ciência não é criar atalhos para o desempenho. É investigar riscos, limites e possíveis aplicações. O CBD não substitui diagnóstico, fisioterapia, descanso, nutrição, preparação física ou tratamento médico”, destaca Ricardo.Futebol reúne sobrecarga física e pressão constanteNo futebol profissional, jogadores enfrentam temporadas extensas, partidas decisivas, deslocamentos frequentes e períodos reduzidos de recuperação. Além das lesões musculares, existem impactos, alterações do sono, desgaste mental e pressão por retorno rápido aos gramados.

Esses fatores ajudam a explicar o aumento do interesse pelo CBD. Porém, quanto maior a pressão sobre o atleta, maior deve ser a responsabilidade da equipe médica e da comissão técnica.Antes da utilização de qualquer produto, clubes e atletas devem observar:
Regulamentos da Wada e da competição;
Composição completa do produto;
Existência de certificado de análise do lote;Laboratório responsável pelos testes;
Possível presença de THC;
Identificação de outros canabinoides;Rastreabilidade e procedência;
Possíveis interações com medicamentos;
Registro do produto utilizado;
Monitoramento de efeitos adversos;Comunicação com a equipe médica.
A própria Wada adverte que atletas utilizam produtos de CBD por sua conta e risco, pois itens disponíveis no mercado podem conter canabinoides proibidos.

A relação oficial está disponível na Lista de Substâncias e Métodos Proibidos da Wada.Contaminação pode comprometer uma carreiraMesmo produtos anunciados como “CBD puro” ou “zero THC” podem apresentar risco quando não existe controle laboratorial confiável. Erros de rotulagem, contaminação cruzada e diferenças entre lotes podem levar à presença não declarada de substâncias proibidas.No esporte de alto rendimento, vigora o princípio da responsabilidade objetiva: o atleta responde pelas substâncias encontradas em seu organismo, mesmo quando a ingestão não foi intencional.“Um atleta pode treinar durante anos para chegar a uma competição e colocar tudo em risco por causa de um produto sem rastreabilidade.

Não basta confiar na embalagem ou na publicidade. É necessário verificar o lote e envolver a equipe responsável pelo acompanhamento”, alerta Ricardo Guimarães.O certificado de análise deve permitir verificar quais substâncias foram identificadas, seus respectivos níveis, o laboratório responsável e a correspondência com o lote efetivamente adquirido.

Esporte de alto impactoO debate também alcança modalidades como artes marciais, jiu-jítsu, rúgbi, futebol americano, triatlo, corrida de longa distância, ciclismo e outros esportes que submetem o corpo a esforço intenso ou impactos repetidos.Nessas atividades, dor e cansaço podem ser sinais de lesões, excesso de treinamento ou necessidade de recuperação. O uso de qualquer substância para diminuir a percepção do desconforto não deve impedir a investigação da causa.“Uma substância não corrige um calendário mal planejado, a ausência de descanso ou a pressão para competir lesionado.

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