Com vídeos gerados por IA cada vez mais realistas, conceitos de lógica, gramática e retórica podem ajudar a analisar conteúdos antes de compartilhar
Uma imagem parece verdadeira, um vídeo reproduz perfeitamente a voz de uma pessoa conhecida e uma mensagem chega acompanhada de uma explicação que parece fazer sentido. Nas redes sociais, reconhecer o que é confiável nem sempre depende apenas de perceber uma montagem evidente.
O problema ganhou novas dimensões nas eleições de 2026. Um levantamento do Observatório IA nas Eleições identificou 413 conteúdos políticos produzidos com inteligência artificial entre janeiro e agosto deste ano. Cerca de 40% foram classificados como desinformação e 81% dos casos envolviam manipulação de imagens ou vozes de pessoas públicas.
Nesse ambiente, algumas ferramentas de análise apresentadas há séculos continuam úteis. O Trivium, de Irmã Miriam Joseph, recupera três das chamadas artes liberais, gramática, lógica e retórica, e resgata conceitos relacionados à construção de argumentos, ao uso da linguagem e à organização do pensamento.
Aplicados à rotina digital, eles podem ajudar a verificar informações antes de aceitá-las como verdadeira. Confira algumas dicas:
- Preste atenção às palavras usadas
A primeira etapa é entender o que está sendo afirmado. Uma mensagem pode utilizar termos vagos, exageros ou palavras que despertam uma reação emocional antes mesmo de trazer um dado verificável.
Pergunte: qual é a afirmação principal? O que exatamente está sendo dito? Há algo de concreto que possa ser conferida? A partir disso, é mais fácil reconhecer e averiguar a veracidade dos fatos.
- Procure a estrutura do argumento
Uma conclusão não se torna verdadeira apenas porque vem acompanhada de uma explicação. A lógica ajuda a observar se as informações realmente sustentam aquilo que o autor está afirmando.
Uma pergunta simples pode ajudar: as evidências levam necessariamente a essa conclusão ou existe um salto entre uma coisa e outra?
Também vale notar generalizações. Um caso individual, por exemplo, não é suficiente para provar que determinado comportamento ocorre com todas as pessoas.
- Desconfie de argumentos que tentam vencer pela emoção
A retórica estuda os recursos utilizados para construir discursos persuasivos. Isso não significa que todo conteúdo convincente seja falso, mas ajuda a perceber quando a forma de apresentação está ocupando o lugar das evidências.
Urgência, indignação, medo e sensação de pertencimento podem fazer uma pessoa compartilhar uma mensagem antes de verificar sua origem. Se o conteúdo provoca uma reação imediata, pode ser útil analisar o que está sendo compartilhado.
- Separe quem fala do que está sendo dito
Uma pessoa conhecida, um perfil com muitos seguidores ou uma publicação que parece profissional não são, por si só, garantias de que a informação esteja correta.
Vale perguntar: quem publicou? De onde veio essa publicação? Existe uma fonte identificável? Outras fontes confiáveis trazem os mesmos dados?
O Guia Internet, Democracia e Eleições lançado em setembro de 2026 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) também chama atenção para a circulação de conteúdos em diferentes plataformas e para o papel dos sistemas de recomendação naquilo que chega aos usuários.
- Procure informações que possam contrariar sua primeira impressão
Um dos obstáculos para avaliar a veracidade é a tendência de aceitar com mais facilidade aquilo que confirma uma opinião já formada. O guia do CGI.br relaciona esse comportamento à chamada racionalidade motivada: dados que contradizem crenças pessoais podem ser descartados com mais facilidade.
Por isso, antes de compartilhar aquilo que você já acredita, vale fazer o movimento contrário: o que poderia mostrar que essa afirmação está errada?
- Não confunda aparência de verdade com evidência
Um vídeo realista, uma fotografia convincente ou um texto bem escrito podem ser produzidos ou manipulados com ferramentas digitais. O TSE, por exemplo, estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial nas eleições e definiu o conceito de deepfake para materiais que alteram, com alto grau de realismo, a imagem ou a voz de pessoas.
A qualidade da apresentação, portanto, não substitui a verificação do conteúdo.