Professora evidencia como experiências na educação básica orientam projetos que conectam ciência, escola pública e políticas sociais (Foto:Brazil-Zemlinki-CC)
No Dia Mundial da Educação, comemorado em 28 de abril, a Universidade do Vale do Itajaí (Univali) apresenta uma história que subverte as estatísticas. Bruna dos Santos, hoje coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da universidade, trilhou um caminho que começou nas palafitas de Manaus, passou pelas guaritas de segurança em Santa Catarina e alcançou o pós-doutorado na França.
“Eu resolvi estudar para ser ouvida. Como professora da rede básica, eu fazia barulho, levava cartazes para a prefeitura, mas ninguém ligava. Eu precisava da ciência para ter um espaço de fala que não pudesse ser ignorado”, compartilha Bruna, enfatizando que existe uma distância entre o que se ensina na escola e o que faz sentido para quem aprende. E essa distância é abismal.
“U” de urubu
A sala estava cheia. Ensino Fundamental. Escola Municipal. Manaus. A turma tinha 26 alunos na lista. No primeiro dia, chegaram 36. A escola ficava em uma área conhecida como “zona vermelha”. Distante, cercada por vulnerabilidades, com um esgoto a céu aberto passando ao lado. Calor atravessando as paredes, o barulho vindo de fora.

Em muitas escolas públicas brasileiras, o mesmo material didático percorre diferentes territórios, com expectativas semelhantes de resultado. Em sala de aula, porém, o aprendizado responde a outras variáveis: o contexto social, as condições de vida e o repertório que cada estudante carrega.
No quadro, a palavra “uva”. Bruna preparou a aula inteira para aquele momento — história, música, desenhos, jogos. “Alguém tem alguma dúvida?”, perguntou ela no final da explanação, orgulhosa do silencio e da atenção que a turma desprendia à sua fala. E veio a dúvida: “Prof, o que é uva?”, disse um dos alunos.
“Aprender depende de identificação, de reconhecimento, de vínculo com o que se ensina”, conta a educadora, relembrando que aqueles alunos chegavam na aula carregando expectativas externas já definidas porque o ambiente refletia desafios cotidianos: ausência de recursos básicos, vulnerabilidade social e pouca presença de políticas públicas. Nesse cenário, uva era uma fruta que não fazia parte. A palavra existia no livro, mas não na experiência dos alunos. Era cara, distante, quase inexistente. Aparecia, quando muito, em cestas de Natal. Foi aí que o planejamento perdeu função.
Foi então que, pela janela aberta, um urubu atravessou o céu quente de Manaus. Bruna ajustou a rota no mesmo instante: “U de urubu”. A aula encontrou seu eixo. E seguiu.
O que era para ser provisório se alongou. A professora, que havia assumido a vaga por concurso público com a intenção de garantir estabilidade e, depois, solicitar transferência, permaneceu ali por seis anos.
Infância e ensino
Bruna dos Santos nasceu em Manaus, no Amazonas. Cresceu entre ruas que misturam cidade e floresta, e desde muito cedo aprendeu que educação também acontece fora da escola. Ainda criança, acompanhava a avó em ações sociais dentro de comunidades indígenas urbanas — espaços que, embora inseridos na capital, permaneciam isolados em muitos sentidos.
As crianças frequentavam a escola regular, mas retornavam a uma realidade que pouco dialogava com o que aprendiam. Bruna observava. Não tinha ainda as palavras técnicas, mas já percebia o descompasso. A capacidade estava ali — viva, pulsando —, mas o conteúdo não encontrava encaixe.
Foi nesse cenário que começou a ensinar pela primeira vez. Ainda na infância, durante os acompanhamentos às ações da avó, ajudava outras crianças com reforço escolar. Tinha praticamente a mesma idade que elas. Sabia quase o mesmo. Ainda assim, ensinava.
O incômodo cresceu junto com ela.
Ao concluir o ensino médio, a decisão já estava tomada: seguir pela pedagogia. Ingressou no curso e, ainda no primeiro ano, começou a trabalhar em uma escola particular. Estrutura, planejamento, recursos. O que era pensado, funcionava. O que era planejado, acontecia.
Entretanto, essa trajetória mudaria de direção quando Bruna passou a atuar na rede municipal de Manaus e encontrou aquela escola que não enfrentava apenas falta de recursos. Enfrentava a naturalização da ausência de futuro.
Em conversas de corredor, ouviu que alguns alunos “não valeriam o esforço”. Na prática, viu o tráfico ocupar o lugar de referência de sucesso para crianças de seis anos. E, em sala, escutou de um aluno uma frase que reorganizava qualquer discurso: a droga, para ele, era o que fazia a fome passar.
O conteúdo pode ser distribuído em escala. A vida dos alunos, não. Entre um e outro, existe um território que pede tradução. Durante seis anos, foi nesse intervalo que Bruna atuou — ajustando linguagem, criando vínculos, tensionando limites.
“Mas eu precisava ser ouvida”, diz.
Bruna participava de mobilizações, levava demandas à prefeitura, articulava ações. Pouco mudava estruturalmente. Então, a decisão amadureceu: estudar para ampliar a voz. No Amazonas, o acesso à pós-graduação era restrito. Tentou. Não conseguiu. Pensou em São Paulo. Veio para Santa Catarina. Chegou em 2017.
Sem rede estruturada, sem bolsa no primeiro momento, enfrentou um período de adaptação marcado por dificuldades financeiras. Trabalhou como porteira durante a noite, em escala 12×36, enquanto cursava o mestrado durante o dia. “Eu trabalhava das seis da tarde às seis da manhã e vinha direto para a universidade. Foi um período difícil, mas necessário”, relembra. A experiência deslocou seu olhar sobre reconhecimento e escuta. A mesma pessoa, em contextos diferentes, passa a ocupar lugares distintos na percepção dos outros. “Muitos atravessavam a portaria sem sequer um cumprimento”, conta. A ausência de gesto revelou, com precisão, como o reconhecimento social se constrói — e também como se nega. “Como porteira, eu era invisível. Hoje, com os títulos de mestre e doutora, ocupo a mesa principal. Isso me ensinou que o título não pode nos contaminar pelo ego; ele é uma ferramenta de luta”, expõe.
A experiência reforçou em Bruna uma convicção: a educação não pode se afastar de quem ainda está no caminho. Na Univali, ela encontrou espaço para desenvolver pesquisas na área socioambiental. A relação entre território, desigualdade e formação dos sujeitos passou a orientar sua produção acadêmica.
O percurso seguiu: mestrado, doutorado, pós-doutorado — com passagem pela França, em estudos sobre emergência climática. A pauta se expandiu. Enchentes, deslizamentos, acesso à água. O ambiente como parte ativa da educação.
“A gente não pode pensar educação sem considerar o contexto onde essas pessoas vivem. Questões como enchentes, falta de saneamento e acesso à água impactam diretamente o processo educativo”, reflete.
Atualmente, como coordenadora do PPGE da Univali, Bruna lidera projetos que aproximam a universidade das escolas públicas. Mestrandos e doutorandos desenvolvem pesquisas aplicadas diretamente nos territórios, com foco em educação básica, desigualdades sociais e justiça climática, buscando tirar a ciência das ‘paredes’ da universidade e levá-la para a comunidade.
A proposta inclui também articulação com instituições públicas, como a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) e a Defesa Civil, em iniciativas que conectam educação e políticas públicas.
Para Bruna, ampliar o acesso à pós-graduação é outro desafio central. “Hoje, menos de 1% da população chega ao mestrado. Isso mostra o quanto esses espaços ainda são distantes da maioria das pessoas”, afirma.
Impacto em cadeia
De volta ao Norte, anos depois, Bruna participou da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30. O encontro foi realizado em 2025, em Belém, no Pará — a primeira edição sediada na Amazônia, reunindo chefes de Estado, pesquisadores e organizações de diversos países para discutir estratégias de enfrentamento à crise climática.
Integrando a comitiva da Univali, a professora esteve envolvida em atividades que conectavam educação, território e emergência climática — temas que atravessam sua trajetória acadêmica e profissional. Fora da programação oficial, no entanto, o contato com diferentes espaços da cidade retomou referências conhecidas. “A realidade pouco havia mudado”, observa.
A experiência reposicionou a forma como ela passou a interpretar o alcance da educação. Mudanças estruturais dependem de múltiplos fatores e de tempo. Ainda assim, intervenções pontuais têm potencial de alterar percursos e produzir efeitos que se desdobram em outros contextos.
Depois de anos entre educação básica, pesquisa e atuação institucional, a ideia de impacto deixou de ser medida pela escala e passou a ser compreendida pelo alcance. “Transformar tudo não cabe em um único gesto. Mas transformar alguém altera o percurso. E, em cadeia, pode alterar muitos outros”, enfatiza.
Ao revisitar sua própria história, Bruna reforça que esse tipo de mudança não ocorre de forma imediata ou isolada. “A gente não muda o mundo inteiro, mas muda trajetórias. E isso já é muito significativo”, conclui.
Para a coordenadora, o Dia Mundial da Educação também abre espaço para refletir sobre o papel da universidade e da escola pública. Ela destaca a importância de garantir acesso, pertencimento e retorno social do conhecimento produzido. “A gente precisa mostrar que o espaço acadêmico é para todos, que quem está na escola pública pode chegar aqui. E, ao mesmo tempo, que tudo o que a gente produz precisa voltar para essas escolas, precisa fazer sentido lá”, afirma.
Nesse processo, o impacto aparece na forma como estudantes passam a projetar o próprio futuro. “Quando alguém começa a perceber que pode sair de um cenário onde só se vê limite, isso já muda muita coisa. Muda o caminho, muda o que vem depois”, diz.
No Dia Mundial da Educação, a Univali evidencia, por meio dessa história, um compromisso que parte da sala de aula e se expande para a pesquisa e a sociedade: construir uma educação que dialogue com a realidade, amplie possibilidades e contribua para a redução das desigualdades.