Eleições podem redefinir relação Brasil-EUA e mexer com dólar, investimentos e planos de imigração

by Amarildo Castro
  • Resultado das urnas ocorre em meio a tensões comerciais e maior rigor migratório nos Estados Unidos; especialista explica o que brasileiros com patrimônio, negócios ou projetos de mudança para o país devem acompanhar

O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras, realizado no domingo (4), abre uma nova etapa não apenas para a política interna, mas também para as relações do Brasil com os Estados Unidos. 

A composição do novo Congresso, a definição da Presidência no segundo turno e os rumos da política externa brasileira entram no radar em um momento de tensões comerciais, mudanças nas regras migratórias americanas e volatilidade do dólar. 

Para Daniel Toledo, advogado especializado em Direito Internacional e imigração nos Estados Unidos e fundador da Toledo e Advogados Associados, o cenário merece atenção de brasileiros que investem, fazem negócios ou planejam morar nos EUA. “Quando se fala em eleição, normalmente a discussão fica concentrada em quem será o presidente. Para quem tem patrimônio, empresa ou um projeto de vida fora do Brasil, porém, é preciso enxergar além. Relações diplomáticas, política comercial, câmbio e decisões migratórias podem alterar custos e estratégias de maneira muito concreta”, afirma.

A eleição ocorre em um período de pressão sobre as relações econômicas entre Brasília e Washington. Em julho, o governo americano aplicou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros após investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as medidas tarifárias americanas anunciadas naquele período passaram a alcançar 23,1% das exportações brasileiras.

A dimensão da relação comercial ajuda a explicar o motivo de mudanças no ambiente diplomático despertarem a atenção do setor privado. O comércio de bens e serviços entre Brasil e Estados Unidos alcançou cerca de US$135,7 bilhões em 2025, alta de 6,5% sobre o ano anterior, segundo dados do USTR. Apenas o comércio de mercadorias movimentou US$94,2 bilhões.

“Brasil e Estados Unidos possuem uma relação comercial grande demais para que a política seja tratada como algo desconectado da economia. Uma deterioração diplomática pode criar obstáculos para as empresas, enquanto uma relação mais previsível facilita negociações, investimentos e planejamento de longo prazo”, afirma o advogado.

Dólar é um dos primeiros termômetros

A reação do mercado apareceu logo depois do primeiro turno. Na segunda-feira (5), o dólar chegou a recuar mais de 4% e ficou abaixo de R$5 durante o pregão, enquanto o Ibovespa registrou forte valorização. O movimento mostrou como as expectativas políticas e fiscais podem rapidamente chegar ao bolso de quem mantém negócios ou pretende transferir recursos para fora do país.

Para o especialista, quem planeja comprar um imóvel, abrir uma empresa ou realizar investimentos nos Estados Unidos deve acompanhar essas oscilações, mas evitar decisões baseadas exclusivamente no comportamento da moeda em poucos dias. “Para alguém que pretende comprar um imóvel, abrir uma empresa ou fazer um investimento nos Estados Unidos, uma diferença de alguns pontos percentuais no dólar pode significar dezenas ou centenas de milhares de reais. Mas o planejamento internacional não pode ser construído tentando adivinhar qual será a cotação na semana seguinte”, afirma.

Na avaliação do advogado, o câmbio deve fazer parte de uma estratégia financeira mais ampla, que considere o momento da remessa, a finalidade do investimento, a estrutura do negócio e, quando houver intenção de residência, o planejamento migratório.

“Quem já decidiu dolarizar parte do patrimônio ou constituir uma operação americana precisa trabalhar com cenários. A eleição pode provocar volatilidade, mas o projeto não pode depender exclusivamente de acertar o melhor dia do dólar”, diz.

O que muda para quem investe nos Estados Unidos?

O resultado das eleições brasileiras, isoladamente, não altera as regras americanas para aquisição de imóveis, abertura de empresas ou concessão de vistos relacionados a investimentos. Os efeitos podem aparecer de forma indireta, principalmente no câmbio, nas relações comerciais entre os dois países e nas decisões de brasileiros sobre diversificação patrimonial.

Toledo chama atenção para essa diferença. “Uma eleição no Brasil não cria nem elimina um visto americano. O impacto ocorre em outra camada. Se o dólar sobe, o aporte fica mais caro para o brasileiro. Se existem tensões comerciais, as empresas precisam rever custos e estratégias. Se há insegurança econômica, pode crescer o interesse pela diversificação patrimonial”, explica.

O advogado ressalta ainda que investir nos Estados Unidos não significa automaticamente obter autorização para residir no país.

“Esse é um erro recorrente. Comprar uma casa ou simplesmente abrir uma empresa não dá Green Card. Dependendo do objetivo e do perfil do candidato, existem caminhos migratórios específicos, mas cada categoria tem requisitos próprios. Investimento e imigração precisam ser planejados conjuntamente quando a intenção é morar no país”, afirma.

Relação diplomática não significa mudança automática nos vistos

Para brasileiros que pretendem morar nos Estados Unidos, Toledo recomenda separar as consequências diplomáticas de uma eleição das regras efetivamente aplicadas pelo sistema migratório americano.

Uma eventual mudança no relacionamento entre Brasília e Washington não significa que os vistos serão automaticamente facilitados ou restringidos. As regras são definidas pela legislação e pelas autoridades americanas e seguem critérios próprios.

Em 2026, no entanto, o governo dos Estados Unidos ampliou mecanismos de controle migratório. A partir de 1º de outubro, o Departamento de Estado expandiu a análise da presença online para solicitantes dos vistos I, TN e TD, somando essas categorias a outros grupos que já estavam submetidos a verificações semelhantes.

“Quem pretende morar nos Estados Unidos precisa observar o que realmente está mudando na legislação e nos procedimentos americanos. Não é recomendável tomar uma decisão migratória simplesmente porque um candidato venceu ou perdeu uma eleição no Brasil. O que deve orientar o processo é a situação individual, a categoria de visto e o cumprimento dos requisitos”, afirma Toledo.

Novo Congresso também entra na relação Brasil-EUA

A atenção sobre o resultado brasileiro não se limita à Presidência. Neste ano, 54 das 81 cadeiras do Senado foram submetidas às urnas, o equivalente a dois terços da Casa. A nova configuração do Legislativo terá papel relevante nas discussões econômicas, institucionais e internacionais do próximo governo.

Para ele, a composição do Congresso também deve entrar na análise de quem acompanha a posição brasileira no exterior. “O presidente conduz a política externa, mas não governa isoladamente. Congresso, economia e ambiente institucional ajudam a determinar o grau de previsibilidade que o Brasil transmite aos investidores e parceiros internacionais”, afirma.

A avaliação dialoga com uma percepção que Toledo afirma ter reforçado após acompanhar o primeiro turno: o resultado para o Legislativo pode produzir consequências que recebem menos atenção do público do que a disputa presidencial.

“Existe uma tendência de transformar eleição em uma discussão sobre dois candidatos. Mas quem investe ou tem negócios internacionais precisa olhar para a estrutura inteira. O que o Congresso fará, como ficará a política econômica, qual será a relação do Brasil com seus principais parceiros e como o mercado reagirá são questões que podem ter impacto direto sobre decisões financeiras”, diz.

O que o brasileiro deve acompanhar agora

Com o segundo turno presidencial marcado para 25 de outubro, Toledo avalia que brasileiros com interesses nos Estados Unidos devem acompanhar principalmente o comportamento do dólar, os próximos movimentos da relação diplomática e comercial entre Brasília e Washington e eventuais alterações oficiais na política migratória americana.

Para quem já pretende internacionalizar patrimônio, abrir uma empresa ou iniciar um processo migratório, o advogado defende planejamento de longo prazo em vez de decisões tomadas apenas em resposta ao noticiário político.

“Para quem pensa em internacionalizar patrimônio, empresa ou carreira, eleição não deve ser tratada como torcida. O que interessa é entender quais decisões podem alterar custo, risco e segurança jurídica. É isso que precisa entrar na conta”, conclui.

Sobre Daniel Toledo

Daniel Toledo é advogado da Toledo e Advogados Associados especializado em Direito Internacional, consultor de negócios internacionais, palestrante e sócio da LeeToledo PLLC. Toledo também possui um canal no YouTube com mais de 1 milhão de seguidores com dicas para quem deseja morar, trabalhar ou empreender internacionalmente. Ele também é membro efetivo da Comissão de Relações Internacionais da OAB Santos, professor honorário da Universidade Oxford – Reino Unido, consultor em protocolos diplomáticos do Instituto Americano de Diplomacia e Direitos Humanos USIDHR.

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Sobre a Toledo e Advogados Associados

O escritório Toledo e Advogados Associados é especializado em direito internacional, imigração, investimentos e negócios internacionais. Atua há mais de 20 anos com foco na orientação de indivíduos e empresas em seus processos. Cada caso é analisado em detalhes, e elaborado de forma eficaz, através de um time de profissionais especializados. Para melhor atender aos clientes, a empresa disponibiliza unidades em São Paulo, Santos e Houston. A equipe é composta por advogados, parceiros internacionais, economistas e contadores no Brasil, Estados Unidos e Portugal que ajudam a alcançar o objetivo dos clientes atendidos. 

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