- Daniel Claudino, especialista em mercado imobiliário, analisa mudanças no perfil dos moradores e avanço da verticalização no DF
O crescimento dos apartamentos no Distrito Federal está relacionado a uma combinação de localização, segurança, mobilidade e mudanças no perfil dos moradores. Embora a preferência por casas continue forte entre os brasileiros, o modelo vertical pode se tornar uma solução mais conveniente para quem busca reduzir deslocamentos, ter acesso a serviços e simplificar a rotina.
Para o especialista em mercado imobiliário Daniel Claudino, é preciso diferenciar a preferência por um tipo de imóvel da solução encontrada pelo morador diante das condições do mercado.
“Existe uma diferença entre preferir um apartamento e encontrar nele a solução que melhor atende à realidade daquele momento. Brasília tem uma vocação histórica para as casas, especialmente em regiões como Lago Sul, Jardim Botânico e Sobradinho. Ao mesmo tempo, o tombamento impõe limites à verticalização do Plano Piloto, enquanto regiões como Águas Claras cresceram justamente oferecendo apartamentos próximos a serviços, comércio e infraestrutura”, explica.
Pesquisa da Abrainc com a Brain Inteligência Estratégica mostra que 65% dos compradores estão dispostos a pagar mais por um imóvel bem localizado, enquanto 64% consideram a segurança um fator decisivo. Os dados são nacionais e não representam especificamente o comportamento do consumidor do DF.

especialista em mercado imobiliário Daniel Claudino
No mercado brasiliense, Claudino observa que a mudança também acompanha diferentes fases da vida. Moradores de casas maiores, especialmente após os filhos deixarem o domicílio, podem encontrar nos apartamentos uma alternativa para reduzir custos de manutenção e aproximar a rotina de serviços.
“É comum encontrar moradores mais velhos do Lago Norte que vendem uma casa e migram para um apartamento de três ou quatro quartos em Águas Claras. Em alguns casos, a operação ainda permite formar uma reserva financeira. A questão deixa de ser ter mais espaço e passa a ser quanto tempo e esforço a pessoa precisa gastar para manter aquela rotina”, afirma.
A localização, nesse contexto, ganha um significado mais amplo. Além do endereço, entram na decisão fatores como distância de supermercados, hospitais, escolas, transporte e outros serviços. Estruturas oferecidas pelos condomínios também podem pesar na escolha, embora tenham impacto sobre as despesas mensais.
A verticalização também encontra espaço em regiões fora do Plano Piloto. Dados da Ademi-DF e do Sinduscon-DF mostram que o primeiro semestre de 2026 registrou 1.631 novos lançamentos residenciais, alta de 108% em relação ao mesmo período de 2025. As vendas chegaram a 2.375 unidades, crescimento de 10%.
Para Claudino, a expansão precisa ser acompanhada pela infraestrutura urbana.
“O Distrito Federal ainda tem áreas com potencial para novos empreendimentos e regiões que ganharam outra percepção de distância ao longo dos anos. O que antes parecia longe hoje está integrado à rotina de Brasília. Isso abre espaço para a verticalização em locais fora do eixo tradicional, mas o crescimento imobiliário precisa caminhar junto com mobilidade, saneamento e serviços públicos”, avalia.
O cenário também é influenciado pelo déficit habitacional. Segundo o IPEDF, o Distrito Federal tinha déficit de 100.701 domicílios em 2021, mostrando a existência de uma demanda habitacional que ultrapassa o segmento de médio e alto padrão.
“Quando olhamos para o déficit habitacional, fica evidente que discutir novos empreendimentos não é apenas uma questão de mercado. Existe uma demanda habitacional concreta. O desafio é produzir imóveis compatíveis com diferentes faixas de renda e fazer com que essas novas moradias estejam conectadas à cidade”, destaca.
A transformação da percepção sobre as distâncias também ajuda a explicar a expansão. Regiões como Águas Claras, Guará e Jardim Botânico passaram a ocupar um espaço maior na dinâmica residencial do DF.
“Brasília está em constante transformação. Eu sou de uma época em que o final da Asa Norte era considerado longe. Hoje, a percepção de distância mudou completamente. A expansão da cidade cria novos centros de moradia e consumo, e o mercado imobiliário acompanha esse movimento”, conclui.