‘Fake News’ de Nossa Senhora Aparecida gerou 778 mil menções em cinco dias; pesquisadora avalia que percepção das redes é limitada

by Amarildo Castro
  • Monitoramento identificou 127 mil usuários únicos e mostra como uma informação falsa se transformou em debate sobre religião, Justiça e liberdade de expressão. Para especialista em marketing digital, discussões restritas a plataformas como X não definem o eleitorado brasileiro

A controvérsia envolvendo uma falsa associação de Flávio Bolsonaro (PL) a uma proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil gerou cerca de 778 mil menções nas redes sociais entre 24 e 28 de setembro. O levantamento, realizado pela doutora em Marketing Digital e professora da FGV/EAESP, Lilian Carvalho, através da ferramenta Brandwatch, identificou 127 mil usuários únicos e mostra como uma informação falsa pode ganhar novos significados ao ser incorporada ao debate político. O principal destaque do estudo é que a repercussão não ficou restrita à veracidade da informação.

O vocabulário utilizado nas publicações ajuda a dimensionar a amplitude do debate. A expressão “título de padroeira do Brasil” apareceu associada a 93 mil menções, enquanto “TSE” foi registrado em 82,4 mil, “CNBB” em 58,4 mil e “liberdade de expressão” em 56,2 mil. O Supremo Tribunal Federal também apareceu em 43 mil registros”. A pesquisadora aponta o episódio como um grande exemplo de como corrigir uma informação falsa é apenas uma parte do desafio da comunicação política.

“Não é possível determinar quantas pessoas acreditaram no boato, se houve mudança de opinião ou se a controvérsia produziu algum efeito sobre a intenção de voto. Ainda assim, os dados mostram como uma informação falsa pode desencadear uma conversa que ultrapassa seu conteúdo original e passa a envolver religião, instituições e direitos individuais”, avalia Carvalho.

O projeto utilizado como referência foi apresentado por outro parlamentar em 2007 e arquivado em 2008. O episódio chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou a remoção de publicações que associavam o candidato à suposta iniciativa.

A evolução das menções mostra que o assunto permaneceu em circulação ao longo do período analisado. Na sexta-feira, 25 de setembro, foram registrados 275,3 mil registros. Após recuar para 171,9 mil no sábado, o volume voltou a crescer no domingo, chegando a 221,1 mil menções, alta de 28,7% em relação ao dia anterior. Juntos, sexta-feira e domingo concentraram quase 64% da conversação capturada.

Outro dado relevante é a concentração das conversas. No levantamento, 97,1% das menções do painel de fontes vieram do X. “Essa é a principal característica que limita a possibilidade de extrapolar os resultados para o conjunto das redes sociais ou para entender a real percepção do eleitorado brasileiro”, diz a pesquisadora. 

Volume de menções não significa apoio eleitoral

Uma análise complementar, com janela de 30 dias, entre 29 de agosto e 28 de setembro, comparou dois conjuntos de buscas por nomes de atores políticos. O recorte que reuniu Lula, Janja, Flávio Dino e outros nomes selecionados registrou 303 mil menções e 76 mil autores únicos. Já a busca com Bolsonaro, André Mendonça e outros nomes contabilizou 490 mil menções e 99 mil autores únicos.

O segundo grupo teve aproximadamente 62% mais menções e 30% mais autores. “Essa diferença, entretanto, indica maior volume de exposição no recorte analisado, e não vantagem eleitoral ou apoio popular. As buscas também capturam críticas, ataques e referências indiretas aos nomes citados, e podem incluir as mesmas publicações e pessoas”, ressalta.

Os indicadores de sentimento reforçam a necessidade de cautela. A ferramenta classificou como negativas 24% das menções no recorte Lula/Janja/Dino e 25% no recorte Bolsonaro/Mendonça. Já a classificação positiva foi de 20% e 11%, respectivamente. Esses percentuais não podem ser interpretados diretamente como aprovação ou rejeição aos políticos, pois as mensagens positivas ou negativas podem se referir a decisões judiciais, veículos de imprensa, manifestações religiosas ou outros elementos da controvérsia.

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