Por Jonathan Pedro Butzke*
O mercado de máquinas usadas no Brasil é grande, relevante e essencial para setores como construção, infraestrutura e agronegócio. Ainda assim, funciona de forma surpreendentemente precária para o seu tamanho.
Falta o básico. Não existe hoje, no país, uma referência confiável de preços para máquinas usadas. Equipamentos semelhantes podem ser negociados por valores completamente diferentes, sem que haja um critério claro que sustente essa variação. O preço, muitas vezes, é definido mais pela percepção de quem vende do que por parâmetros objetivos.
Esse problema é agravado por outro ainda mais estrutural: a dificuldade de avaliar uma máquina. Ao longo de sua vida útil, que pode ultrapassar duas décadas, um equipamento pode passar por quatro ou cinco donos, perdendo completamente seu histórico de uso, manutenção e eventuais danos no caminho.
Ao contrário do setor automotivo, não existe um “Detran das máquinas”. Não há registro de propriedade, histórico de sinistros ou qualquer base centralizada que permita rastrear a vida útil de um ativo. Isso cria um ambiente de incerteza profunda, onde o comprador não sabe exatamente o que está adquirindo e, muitas vezes, nem o vendedor tem clareza sobre o valor real do equipamento.
A consequência é um mercado altamente informal. Transações ainda acontecem à vista, com pouca ou nenhuma padronização, muitas vezes envolvendo composições com outros ativos ou negociações intermediadas por corretores que operam de forma pouco estruturada. Em alguns casos, a informalidade chega a níveis que dificultam até mesmo a emissão de notas fiscais e o rastreamento da operação.
Esse cenário impacta diretamente o acesso a crédito. Sem histórico, sem garantia clara e sem previsibilidade de valor, instituições financeiras encontram enorme dificuldade para financiar esse tipo de ativo. O resultado é um ciclo vicioso: sem crédito, o mercado continua operando à vista; e operando à vista, permanece desorganizado.
Mesmo assim, trata-se de um mercado gigantesco, ainda que pouco mensurável. Estimativas indicam que, apenas no segmento de máquinas de linha amarela usadas, são negociadas cerca de 100 mil unidades por ano no Brasil. Com um ticket médio entre R$ 150 mil e R$ 250 mil, isso representa algo entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões anuais. Quando incluímos o segmento agrícola, o volume total pode chegar a aproximadamente R$ 30 bilhões por ano.
E o mais relevante: esses números ainda são aproximações. A ausência de dados estruturados impede até mesmo que o mercado saiba exatamente o seu próprio tamanho, o que é um sinal claro de maturidade ainda muito distante de outros setores.
Comparações com o mercado automotivo são inevitáveis. Há algumas décadas, a venda de veículos usados enfrentava desafios semelhantes: falta de referência de preços, baixa transparência e dificuldade de acesso a crédito. Hoje, esse cenário foi completamente transformado por meio de dados, padronização e digitalização.
No mercado de máquinas, esse movimento está apenas começando. A digitalização surge como uma oportunidade não apenas de modernização, mas de reestruturação completa do setor. Plataformas digitais têm o potencial de organizar informações, criar referências de preço, aumentar a transparência e conectar compradores e vendedores de forma mais eficiente.
Mas, diferentemente de outros mercados, aqui a digitalização não pode ser superficial. Não se trata apenas de levar anúncios para o ambiente online. O desafio é estrutural: envolve criar mecanismos de registro, padronizar informações, melhorar a avaliação dos ativos e construir confiança em um mercado que historicamente operou na informalidade.
Esse movimento é ainda mais relevante quando consideramos que o mercado de máquinas usadas é, por natureza, global. Equipamentos são constantemente negociados entre países, especialmente na América Latina, onde o nível de informalidade tende a ser ainda maior. Isso amplia o potencial, mas também a complexidade da transformação.
A digitalização, portanto, não é apenas uma tendência. É o único caminho possível para que esse mercado evolua. Mais do que eficiência, ela representa a possibilidade de transformar um setor opaco em um ambiente estruturado, previsível e financiável. Um mercado onde preço, risco e valor deixem de ser percepções e passem a ser dados.
E, quando isso acontecer, o impacto não será apenas operacional, mas também econômico. Porque organizar esse mercado não significa apenas vender melhor máquinas usadas. Significa destravar crédito, aumentar liquidez e, na prática, liberar bilhões de reais que hoje estão presos em um sistema que ainda opera no escuro.
* Jonathan Pedro Butzke é Head da Operação de Máquinas da Auto Avaliar.