Perda de animal de estimação pode gerar luto comparável ao de familiares, alerta psicóloga

by Amarildo Castro
Morte da cadela Lola, companheira de Fernando Lopes por 13 anos, evidencia um sofrimento que ainda recebe pouca validação social (Foto divulgação: Fernando Lopes e Lola)

A morte de um animal de estimação pode desencadear um processo de luto profundo, capaz de impactar a rotina, a saúde emocional e a dinâmica familiar de forma semelhante à perda de um ente querido. Embora cada vez mais presentes nas famílias brasileiras, os vínculos estabelecidos entre humanos e animais ainda enfrentam uma barreira cultural quando o assunto é o reconhecimento da dor causada pela despedida.

Foi o que aconteceu com Fernando Lopes, casado, pai de três filhos e tutor de seis cães. Recentemente, ele perdeu Lola, uma cadela da raça Jack Russell Terrier que o acompanhou por 13 anos. A convivência diária ao longo de mais de uma década transformou a relação em um vínculo marcado por afeto, rotina e presença constante.

“A dor é muito maior do que eu imaginava. Já enfrentei perdas familiares e cada uma tem sua particularidade, mas a ausência da Lola deixou um vazio difícil de explicar. Ela estava presente em todos os momentos da nossa rotina”, relata Fernando.

Segundo ele, os dias seguintes à despedida foram marcados por um sentimento constante de ausência.

“É estranho entrar em casa e não vê-la correndo para receber a família. O silêncio pesa. Muitas pessoas não entendem, mas para nós ela era parte da família. O luto é real e muito sofrido”, afirma.

Para a psicóloga Denise Carpegiani, a intensidade desse sofrimento não representa exagero ou fragilidade emocional. Pelo contrário, revela a profundidade do vínculo construído entre tutor e animal.

“A cultura contemporânea desenvolveu uma relação pragmática com as perdas. Existe uma expectativa de que as pessoas se reorganizem rapidamente e retomem a rotina. Quando a perda envolve um animal de estimação, essa cobrança costuma ser ainda mais intensa, porque muitas vezes a dor não recebe validação social”, explica.

A especialista destaca que a psicologia reconhece esse fenômeno por meio do conceito de “luto desautorizado”, situação em que o sofrimento não encontra acolhimento social adequado.

“É uma dor que frequentemente é minimizada por frases como ‘era apenas um animal’. Quando isso acontece, o tutor pode sentir que não tem o direito de sofrer, o que dificulta a elaboração saudável do luto”, afirma.

De acordo com Denise, existe uma característica particular na relação entre humanos e animais. Enquanto as relações humanas são marcadas por conflitos, expectativas e ambivalências, os animais costumam oferecer uma forma de vínculo baseada na aceitação.

“O pet não julga, não exige desempenho, não retira afeto diante das falhas. Quando ele morre, o tutor não perde apenas uma companhia. Perde também uma importante fonte de acolhimento emocional e uma parte significativa da própria rotina afetiva”, observa.

Fernando reconhece essa dimensão ao falar sobre Lola.

“Ela acompanhou diferentes fases da minha vida, viu meus filhos crescerem e esteve presente em momentos felizes e difíceis. Não era apenas um cachorro. Era alguém que fazia parte da nossa história.”

A psicóloga explica que, nas semanas seguintes à perda, é comum que o tutor reviva memórias, mantenha hábitos relacionados ao animal ou sinta dificuldade para reorganizar a rotina.

Outro sentimento recorrente é a culpa.

“Muitos tutores se perguntam se poderiam ter percebido sinais antes, buscado outro tratamento ou tomado decisões diferentes. Na prática clínica, observamos que a culpa muitas vezes funciona como uma tentativa de encontrar explicações para algo que, na realidade, faz parte da condição humana: a inevitabilidade da morte”, explica Denise.

Apesar do sofrimento intenso, o luto não deve ser encarado como uma doença.

“Sentir tristeza profunda, chorar e experimentar a sensação de vazio são reações esperadas. O alerta surge quando, após meses, a pessoa permanece incapaz de retomar atividades básicas, desenvolve isolamento social severo ou apresenta prejuízos persistentes no sono, na alimentação e no trabalho. Nesses casos, a ajuda profissional é recomendada”, afirma.

A especialista também chama atenção para um equívoco comum: sugerir a adoção imediata de outro animal como forma de aliviar a dor.

“Um novo animal não substitui o que morreu. Cada vínculo é único. A tentativa de preencher o vazio rapidamente pode impedir que o processo de elaboração aconteça de forma saudável. É preciso respeitar o tempo da despedida.”

O tema ganha relevância também nas famílias com crianças. Para muitos meninos e meninas, a morte de um animal representa o primeiro contato concreto com a finitude.

“É importante evitar explicações como ‘ele fugiu’ ou ‘foi dormir’. Essas metáforas podem gerar angústias e interpretações equivocadas. A melhor abordagem é falar a verdade de forma acolhedora, permitindo que a criança participe de pequenos rituais de despedida e expresse seus sentimentos”, orienta Denise.

Para Fernando, a convivência com a dor ainda faz parte do cotidiano da família, mas as lembranças ajudam a ressignificar a ausência.

“Hoje ainda dói muito olhar as fotos ou lembrar dos momentos que vivemos juntos. Mas também existe gratidão. A Lola nos deixou milhares de memórias felizes. O amor que sentimos por ela continua presente.”

Segundo Denise Carpegiani, reconhecer a legitimidade desse sofrimento é um passo fundamental para a saúde emocional dos tutores.

“Viver o luto por um animal de estimação é um ato de profunda humanidade. Significa reconhecer que nossa capacidade de amar e criar vínculos ultrapassa as fronteiras da própria espécie. Acolher essa dor não é fraqueza. É uma demonstração da importância que aquele ser teve em nossa vida.”

Serviço

Fonte técnica: Psicóloga Denise Carpegiani

Personagem: Fernando Lopes, tutor da cadela Lola, Jack Russell Terrier que faleceu aos 13 anos.

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