Por que ainda culpamos apenas as mães? O apagamento da figura paterna na proteção da infância 

by Amarildo Castro

Sobrecarga materna e ausência paterna ainda marcam a realidade de muitas famílias e levantam o debate sobre a co responsabilidade na criação e proteção de crianças e adolescentes

Quando uma criança ou adolescente enfrenta uma situação de negligência, vulnerabilidade ou violação de direitos, é comum que a responsabilidade recaia principalmente sobre a mãe. A cobrança sobre quem deveria estar cuidando, educando e protegendo os filhos frequentemente desconsidera a participação ou a ausência da figura paterna, reforçando uma lógica em que a responsabilidade pelo desenvolvimento das crianças é atribuída quase exclusivamente às mulheres.

Essa realidade também aparece no cotidiano da rede de proteção à infância. Muitas mães chegam aos serviços públicos carregando sozinhas a responsabilidade pelos cuidados, enquanto a participação dos pais é limitada ou inexistente. A situação pode se tornar ainda mais complexa quando a mulher também enfrenta dificuldades financeiras, falta de rede de apoio ou outras situações de vulnerabilidade.

Para Maria da Penha de Oliveira, psicóloga e coordenadora do Grupo Aconchego, é necessário questionar a ideia de que o cuidado com os filhos é uma responsabilidade naturalmente atribuída às mulheres. “Ainda existe uma expectativa social muito forte de que a mãe seja a principal responsável por tudo que acontece com a criança. Quando alguma dificuldade aparece, é comum que ela seja imediatamente questionada sobre o que fez ou deixou de fazer, enquanto a participação do pai muitas vezes sequer entra na discussão. Precisamos compreender que cuidar e proteger uma criança é uma responsabilidade compartilhada”, afirma.

A responsabilização exclusiva das mães também pode dificultar a compreensão das causas que levam uma família a uma situação de vulnerabilidade. Em vez de analisar as condições sociais e familiares de forma ampla, existe o risco de individualizar o problema e transformar a mãe na única responsável pela situação vivenciada pela criança.

Nesse contexto, discutir a corresponsabilidade parental significa reconhecer que pais e mães possuem responsabilidades na criação, proteção e educação dos filhos. A participação paterna não se limita ao sustento financeiro e envolve também presença, cuidado, acompanhamento escolar, atenção às necessidades emocionais e participação nas decisões relacionadas à vida da criança.

“A presença paterna precisa ser entendida para além da questão financeira. Ser pai também significa participar da rotina, acompanhar o desenvolvimento, estabelecer vínculos e estar disponível emocionalmente. Quando essa participação não acontece, toda a estrutura de cuidado pode ficar concentrada sobre uma única pessoa”, explica Maria da Penha.

A questão ganha ainda mais relevância nos casos acompanhados pela rede de proteção. Quando uma criança precisa ser afastada temporariamente de sua família, por exemplo, a avaliação da situação familiar precisa considerar todos os adultos que fazem parte de sua rede de vínculos e proteção, e não apenas a capacidade ou a responsabilidade da mãe.

O fortalecimento da família também passa pela inclusão dos pais nas estratégias de acompanhamento. Isso significa criar condições para que eles sejam chamados a participar, compreender suas responsabilidades e construir vínculos com os filhos, sempre considerando o melhor interesse da criança e as particularidades de cada caso.

“Quando trabalhamos com uma família em situação de vulnerabilidade, precisamos olhar para toda a rede de relações daquela criança. Isso inclui identificar quem pode exercer uma função de cuidado e proteção e também compreender por que determinadas figuras estão ausentes. A responsabilização precisa ser compartilhada e, principalmente, estar voltada para a garantia dos direitos da criança”, destaca.

Outro ponto importante é evitar que o debate sobre a ausência paterna se transforme em uma simples transferência de culpa. Para especialistas, o objetivo é reconhecer responsabilidades e, ao mesmo tempo, compreender as condições que dificultam o exercício da parentalidade. Políticas públicas de apoio às famílias, orientação parental e fortalecimento dos vínculos podem contribuir para ampliar a participação dos pais.

A discussão também passa pela necessidade de superar a ideia de que a maternidade é um papel naturalmente associado à capacidade de cuidar, enquanto a paternidade aparece como uma função complementar. Para a proteção integral de crianças e adolescentes, a presença de referências adultas responsáveis, disponíveis e comprometidas é fundamental.

Nesse sentido, discutir quem é responsabilizado quando os direitos de uma criança são violados também significa questionar os modelos de parentalidade que ainda predominam na sociedade. Ampliar o olhar para a figura paterna não significa retirar a responsabilidade de quem quer que seja, mas reconhecer que a proteção da infância deve ser construída a partir da co-responsabilidade entre família, sociedade e Estado.

Sobre o Grupo Aconchego O Aconchego é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, fundada em dezembro de 1997, que trabalha em prol da convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes em acolhimento familiar e institucional. 

Filiado à Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção – ANGAAD o Aconchego é reconhecido como referência em Brasília e conta com grande projeção nacional na criação de tecnologias sociais com vistas à garantia do direito das crianças e adolescentes à convivência familiar e comunitária, por meio de ações de intervenção com potencial para a transformação social e cultural.

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