Quais sentimentos nos movem diante do voto?

by Amarildo Castro

Esperança, medo, raiva e a necessidade de pertencer entram conosco na cabine eleitoral. Reconhecê-los pode ajudar a escolher com mais clareza e a preservar os vínculos depois da eleição

Por Deborah Dubner*

Vivemos mais uma vez um momento eleitoral marcado por polarizações. Cada extremo puxa a corda para o seu lado, na esperança de vencer. O problema é a corda romper diante de nós, comprometendo relacionamentos e projetos. Todos perdem.

O ato de votar carrega muitas emoções diferentes, e esse invisível que move nossas escolhas vale ser percebido com mais clareza. Não deixamos nossas emoções do lado de fora na cabine eleitoral: elas participam de como percebemos os acontecimentos, avaliamos informações e fazemos escolhas. Razão e emoção não ocupam necessariamente lados opostos nessa decisão.

Podemos votar inspirados pela ESPERANÇA. Acreditamos que o poder vai mudar de mãos, ou continuar com quem está. Temos esperança em nossos candidatos e no futuro que desejamos, e votamos a favor, movidos por aquilo em que acreditamos. Mas há também quem escolha movido pela INDIGNAÇÃO ou pela RAIVA: mais do que votar em alguém, votamos contra alguém. A rejeição ao outro candidato pode se tornar tão importante quanto a identificação com aquele que escolhemos, às vezes até mais.

Há outras emoções no caldeirão da eleição. Uma delas é o MEDO. Tememos que o lado rival tome o poder ou continue nele. Tememos perder direitos, segurança, condições de vida ou valores que consideramos importantes. Em situações mais intensas, podemos sentir que tudo estará perdido caso o outro lado vença.

Não se trata de dividir as emoções entre boas e ruins, mas de perceber o que acontece quando uma delas se torna tão intensa que domina a maneira como enxergamos a realidade. Quando o medo cresce, nossa atenção se concentra na ameaça. Quando a raiva toma conta, ainda conseguimos escutar o que contradiz aquilo em que acreditamos?

Existe ainda outra força: a necessidade humana de PERTENCER. Somos seres sociais, construímos identidades a partir dos grupos e valores que compartilhamos. Na política, também surge um “nós” e um “eles”. É aí que aparece a chamada polarização afetiva, quando a distância política passa pelo campo dos sentimentos.

Sob forte impacto emocional, prestamos mais atenção a algumas informações do que a outras, com mais dificuldade de considerar perspectivas que desafiam nossas convicções e as redes sociais podem acentuar essas divisões. Nesse período delicado, vale reconhecer nossas emoções e como estamos decodificando suas mensagens.

Eleições passam. Governos começam e terminam. Mas continuaremos vivendo no mesmo país, encontrando pessoas que votaram diferente de nós no trabalho, na família, entre amigos e talvez dentro de casa. Por isso, olhar para as emoções que nos movem diante do voto não é só uma questão política, mas também humana, que merece cuidado.

O que está me movendo nessa escolha? Esperança? Medo? Raiva? Indignação? Confiança? Rejeição? Pertencimento? Provavelmente não há uma única resposta. Somos mais complexos do que isso. E nossas escolhas também.

*Deborah Dubner é psicóloga e escritora, autora de sete livros sobre autoconsciência, evolução pessoal e Psicologia, com uma boa dose de poesia. Palestrante TEDx, especialista em Neurociência e Psicologia Positiva, é também graduada em Ciência da Felicidade e professora de pós-graduação em Motivação e Resiliência.  

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