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| Setor combina mão de obra intensiva, software, cloud, data centers e plataformas digitais; nova lógica tributária exigirá revisão de custos, créditos, preços e contratos e fluxo de caixaSão Paulo, 16 de setembro de 2026 – O impacto da Reforma Tributária sobre a indústria brasileira de games pode começar antes de qualquer mudança chegar ao preço de um jogo ou de uma assinatura. Por trás de um produto cada vez mais digital existe uma cadeia formada por desenvolvedores, software, propriedade intelectual, serviços de nuvem, data centers, plataformas digitais e meios de pagamento. A forma como esses custos estão distribuídos terá peso importante na nova lógica tributária.Segundo análise da Valestrá, empresas de tecnologia e games precisam olhar com atenção não apenas para as alíquotas do IBS e da CBS, mas para a geração e o efetivo aproveitamento dos créditos ao longo de sua cadeia de custos. Negócios com grande peso da folha de pagamento podem apresentar menor volume relativo de créditos de IBS e CBS do que atividades cuja estrutura de custos concentre aquisições tributadas capazes de gerar créditos. “O risco para a indústria de games não está apenas na futura alíquota. Está na anatomia da própria cadeia de custos. É um setor intensivo em conhecimento, tecnologia e profissionais especializados, e a empresa precisa entender onde gera crédito, onde não gera e como essa nova dinâmica afeta sua operação”, afirma Rafaela Brito, especialista tributária e integrante do Núcleo de Reforma Tributária da Valestrá.Mesmo quando um jogo é distribuído integralmente online, sua operação depende de uma infraestrutura extensa. Cloud, servidores, data centers, plataformas digitais, meios de pagamento e outros serviços fazem parte da cadeia até que o produto chegue ao consumidor. Esse conjunto de despesas torna o setor especialmente sensível à incidência do IBS e da CBS nas aquisições e às condições de apropriação dos respectivos créditos. A armadilha invisível: o custo da folha que não gera crédito A composição da força de trabalho também merece atenção. Empresas de tecnologia e games concentram custos em programadores, desenvolvedores, designers, engenheiros e outros profissionais especializados. Como salários e encargos trabalhistas não constituem aquisições tributadas por IBS e CBS capazes de gerar créditos desses tributos, negócios com elevada concentração de custos em folha podem ter menor volume relativo de créditos.O diagnóstico também deve considerar profissionais contratados como pessoas jurídicas e fornecedores enquadrados no Simples Nacional, pois o tratamento dos créditos dependerá da forma de tributação da operação e da sistemática de recolhimento adotada pelo fornecedor.“Não basta olhar para a alíquota e multiplicar pelo faturamento. Uma empresa de tecnologia precisa mapear como contrata seus profissionais, quais serviços compra, quais fornecedores utiliza e quanto crédito consegue efetivamente gerar. Duas empresas com receitas semelhantes podem sentir a Reforma de maneiras muito diferentes dependendo da estrutura da operação”, explica Rafaela. A reestruturação forçada de contratos e a defesa da liquidez Os reflexos podem chegar à formação de preços, contratos e planejamento financeiro. Por isso, a Valestrá recomenda que empresas do setor revisem contratos de longo prazo, cláusulas de reajuste e modelos comerciais à luz das novas regras.O split payment também deve entrar nessa avaliação, uma vez que a segregação e o recolhimento do IBS e da CBS no fluxo financeiro das operações poderão alterar a dinâmica de caixa e a gestão do capital de giro das companhias.Créditos tributários, mão de obra, fornecedores, preços, contratos e fluxo de caixa precisam ser analisados em conjunto. Uma revisão limitada à emissão de notas fiscais corre o risco de deixar de fora justamente os pontos com maior efeito sobre a rentabilidade da operação. O risco oculto nas rodadas de captação e M&A Na indústria de tecnologia, a margem dita o valuation (valor de mercado da empresa). A Valestrá alerta que a falta de adaptação à Reforma Tributária já está entrando no radar dos fundos de Private Equity e Venture Capital. Em processos de fusões e aquisições (M&A) ou em novas rodadas de captação, investidores estão submetendo os estúdios de games e empresas de software a due diligences (auditorias) muito mais severas. “Um custo tributário mal calculado hoje ou uma estrutura societária ineficiente para a tomada de créditos amanhã são tratados pelos fundos como passivos ocultos. O investidor não vai pagar por um valuation baseado em margens que a Reforma Tributária vai corroer. A governança fiscal deixou de ser um detalhe contábil para se tornar o fator de desempate entre o deal milionário e o fracasso da negociação”, decreta Rafaela. O repasse de custos e a guerra por market share.Um eventual impacto no preço final dependerá de como cada empresa absorverá a nova estrutura de custos.Nas operações entre empresas, a sistemática não cumulativa permite, observados os requisitos legais, a apropriação de créditos ao longo da cadeia. No consumo final, essa possibilidade deixa de existir, já que o consumidor não se apropria desses créditos.Se houver aumento de custos que não possa ser absorvido pelas empresas ou compensado ao longo da cadeia, parte dessa pressão pode chegar ao preço de jogos, assinaturas e outros serviços digitais. Margens, concorrência, estrutura de custos e capacidade de repasse serão determinantes para cada negócio.A recomendação é que as empresas façam esse diagnóstico ainda durante o período de transição do novo sistema. Entender o peso da Reforma Tributária e simular diferentes cenários de preço ajuda a antecipar os efeitos sobre rentabilidade e competitividade.“A indústria de games mostra bem como a Reforma Tributária alcança diferentes setores. O jogo que aparece na tela do consumidor é o resultado final de uma cadeia extensa de tecnologia, infraestrutura e serviços. É essa cadeia inteira que precisa ser colocada na planilha”, conclui Rafaela. |