Setembro Amarelo reforça que prevenção ao suicídio deve durar o ano todo

by Amarildo Castro
  • Campanha amplia o debate sobre saúde emocional, mas especialistas alertam que acolhimento, escuta e prevenção precisam fazer parte da rotina de empresas, escolas e famílias.

O Setembro Amarelo volta a colocar a prevenção ao suicídio no centro das discussões sobre saúde emocional, mas o principal desafio pode estar justamente no que acontece quando o mês termina. Para Hilda Medeiros, educadora executiva, escritora best-seller e criadora do Método L.E.G.A.D., transformar a conscientização em uma prática permanente de escuta e acolhimento é fundamental para que pessoas em sofrimento se sintam seguras para procurar ajuda.

A dimensão do problema reforça a necessidade de manter o assunto em pauta. Relatório publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2025 estima que 727 mil pessoas morreram por suicídio no mundo em 2021, dado global mais recente consolidado pela entidade. O suicídio foi ainda a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

Sofrimento emocional nem sempre é visível

Um dos obstáculos à prevenção está na expectativa de que uma pessoa em sofrimento necessariamente apresentará sinais evidentes. Na prática, alguém pode continuar trabalhando, estudando, cuidando da família e cumprindo compromissos enquanto enfrenta uma situação emocional difícil.

Hilda chama atenção especialmente para essa realidade no ambiente profissional, onde desempenho e capacidade de suportar pressão ainda podem ser confundidos com bem-estar.

“Continuar funcionando não significa necessariamente estar bem. Existem profissionais que entregam resultados, tomam decisões e cuidam de outras pessoas enquanto enfrentam, silenciosamente, um sofrimento que já não conseguem organizar sozinhos”, afirma Hilda Medeiros.

A questão pode se tornar ainda mais sensível entre profissionais que exercem funções de liderança. A associação entre liderança, resistência e capacidade permanente de oferecer respostas pode dificultar o reconhecimento da própria vulnerabilidade e a procura por apoio.

“Quando admitir sofrimento parece incompatível com competência, pedir ajuda se torna ainda mais difícil. Nenhum cargo suspende a condição humana”, acrescenta Hilda.

Julgamentos podem ampliar o silêncio

Outro ponto destacado pela educadora é a necessidade de rever expressões que ainda cercam o comportamento suicida. Classificações como “fraqueza” ou “egoísmo”, por exemplo, reduzem um fenômeno complexo a julgamentos que podem aumentar a culpa e dificultar a busca por ajuda.

A OMS reforça que o suicídio é resultado de uma combinação de fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais. Entre as situações associadas ao risco estão perdas, solidão, conflitos nos relacionamentos, problemas financeiros, doenças, violência e abuso.

A entidade também destaca que o estigma relacionado à saúde mental e ao suicídio ainda impede muitas pessoas de procurar o suporte necessário. Entre as estratégias recomendadas estão identificação precoce, avaliação, acompanhamento de pessoas em risco, desenvolvimento de habilidades socioemocionais entre jovens e comunicação responsável sobre o tema.

“Precisamos aprender a escutar sem reduzir a dor do outro a uma explicação simples demais. Nem toda dor precisa imediatamente de conselho, comparação ou de uma frase positiva. Algumas precisam, primeiro, ser levadas a sério”, afirma Hilda.

Empresas, escolas e famílias têm papel na prevenção

O debate também avança para além dos serviços de saúde. A própria OMS defende uma estratégia multissetorial, envolvendo áreas como educação, trabalho, comunicação e diferentes segmentos da sociedade.

Nas empresas, isso significa ir além de ações pontuais. Palestras e campanhas podem contribuir para abrir conversas, mas precisam estar acompanhadas de ambientes em que profissionais consigam falar sobre dificuldades sem receio de julgamento ou de que a vulnerabilidade seja interpretada como incapacidade.

O mesmo princípio vale para escolas e famílias. Saber ouvir, reconhecer mudanças de comportamento e levar manifestações de sofrimento a sério são atitudes que ajudam a construir uma rede de apoio, sempre com encaminhamento para atendimento profissional quando necessário.

Em 2025, o Centro de Valorização da Vida (CVV) adotou no Setembro Amarelo o tema “Conversar pode mudar vidas”, reforçando justamente a importância do diálogo e da escuta para pessoas que enfrentam sofrimento emocional.

Para Hilda Medeiros, esse aprendizado não pode desaparecer junto com as campanhas de setembro. “O Setembro Amarelo é necessário porque ilumina um assunto que permaneceu escondido por muito tempo. Mas sua maior contribuição deve ser mudar aquilo que fazemos depois dele.”

Transformar prevenção em uma prática cotidiana significa, portanto, manter espaços de diálogo durante todo o ano, combater estigmas e reconhecer que sofrimento emocional não é incompatível com competência, responsabilidade ou força. Quando setembro terminar, o amarelo pode sair das fachadas — mas a escuta não pode desaparecer com ele.

Serviço: pessoas em sofrimento emocional podem buscar apoio do Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188, gratuitamente. Em situações de risco imediato, deve-se procurar um serviço de emergência ou atendimento de saúde.

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