- Pediatra Dra. Marli Rio explica a diferença entre a dificuldade de interromper uma atividade e o uso que começa a prejudicar a vida da criança
Crédito: Unsplash
“É só tirar o celular que meu filho se transforma.” A frase traduz a preocupação de muitas famílias, para as quais o momento de desligar o aparelho vem acompanhado de choro, gritos e negociações que parecem não terminar. Diante dessa reação, surge a dúvida: será que a criança está viciada? Para a pediatra Dra. Marli Rio, a resposta exige cuidado. Ter dificuldade para parar de assistir a um vídeo ou de jogar não significa, por si só, dependência.
Segundo a pediatra, as crianças ainda estão aprendendo a lidar com frustrações e precisam da ajuda dos adultos para atravessar essas situações. Isso, porém, não significa que todo comportamento deva ser tratado como uma simples birra. A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno por jogos digitais, caracterizado pela perda de controle, pela prioridade crescente dada ao jogo e pela continuidade apesar das consequências negativas, com prejuízo significativo na vida da pessoa. Esse diagnóstico, alerta Marli, não deve ser estendido automaticamente a qualquer criança que usa muito o celular.
Observar mais do que o relógio
Para avaliar o uso das telas, a pediatra orienta olhar para além do tempo de uso: o que está ficando de fora da rotina? A criança está dormindo menos? Deixou de brincar, de se movimentar ou de participar das atividades da família? O conteúdo, o contexto e aquilo que a tela substitui também importam.
Outro ponto de atenção é quando o aparelho se torna o recurso indispensável para enfrentar qualquer espera, tédio ou desconforto. Crises frequentes ao interromper o uso, isolamento e mudanças no sono ou na alimentação merecem uma conversa com o pediatra. “Não é necessário esperar que a situação receba o nome de ‘vício’ para buscar orientação”, afirma.
A realidade de quem cuida
A conversa, segundo Marli, precisa incluir a realidade de quem cuida. Em uma casa com trabalho, tarefas acumuladas e pouco apoio, o celular pode acabar preenchendo os intervalos em que o adulto precisa dar conta de tudo. “Apontar o dedo para as mães não oferece uma solução”, diz. A participação dos pais e dos demais cuidadores, completa, é parte da mudança.
Um caminho possível
A pediatra aponta como caminho construir uma rotina previsível, combinar o momento de encerrar, oferecer outras atividades e sustentar os limites com calma. A criança pode ficar frustrada, e o adulto pode acolher essa frustração sem devolver imediatamente o aparelho. As combinações, ressalta, precisam ser adequadas à idade e possíveis de manter no cotidiano.
Para Marli, proteger a infância também passa por garantir espaço para brincar, conversar, descansar e descobrir interesses fora do ambiente digital. “A pergunta não termina em ‘quanto tempo meu filho fica na tela?’. Ela continua em outra, igualmente importante: ‘como está a vida dele quando a tela se apaga?’”, conclui.
Marli Rio é médica pediatra (CRM-SP 88478) há 30 anos. Seu trabalho une o cuidado com a saúde da criança ao acolhimento das mães, dando visibilidade às dificuldades maternas que tantas vezes permanecem invisíveis. Instagram: @dramarlirio