Mesmo com retorno às atividades profissionais, planejamento permite manter a amamentação e a oferta de leite materno ao bebê
O aleitamento materno exclusivo alcançou 59% dos bebês de até seis meses acompanhados pela Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) em 2026, segundo levantamento parcial divulgado pelo Ministério da Saúde. O índice é o maior registrado na série histórica iniciada em 2015 e supera os 57% observados em 2024 e 2025. O resultado reforça o avanço das práticas de amamentação no país e a importância de medidas que apoiem as mães na continuidade do aleitamento em diferentes momentos da vida, inclusive durante o retorno ao trabalho.
Para muitas mulheres, voltar às atividades profissionais representa uma mudança importante na rotina e pode gerar dúvidas sobre como manter a amamentação. O Ministério da Saúde orienta que é possível conciliar trabalho e aleitamento, utilizando a ordenha para manter o estímulo à produção de leite nos períodos em que mãe e bebê estiverem separados.
Segundo a médica pediatra e coordenadora da UTI Neonatal do Mário Palmério Hospital Universitário (MPHU), Débora Martins, a preparação deve começar antes do retorno ao trabalho. Organizar horários, definir os momentos de ordenha e estabelecer como o leite será oferecido ao bebê são medidas que ajudam a tornar a transição mais tranquila.
“É importante que a mãe se organize previamente, considerando os horários de trabalho e os momentos em que poderá realizar a ordenha. Esse planejamento contribui para a manutenção da produção de leite e também para que o bebê continue recebendo o leite materno durante o período em que ela estiver fora”, orienta a pediatra.
Ordenha ajuda a manter a produção
A produção de leite materno está relacionada ao estímulo das mamas, que pode ocorrer tanto pela sucção do bebê quanto pela extração manual ou com bomba. Por isso, durante o período em que estiver longe da criança, a mulher pode realizar a ordenha algumas vezes ao dia, de acordo com sua rotina e necessidade.
A retirada do leite pode ser feita manualmente ou com o auxílio de uma bomba apropriada. Antes da ordenha, é fundamental higienizar adequadamente as mãos e utilizar recipiente próprio para o armazenamento. O leite deve ser identificado com a data e o horário da retirada, facilitando o controle durante o período de armazenamento.
Conforme as orientações do Ministério da Saúde, o leite materno pode permanecer por até 12 horas na geladeira e por até 15 dias no congelador, desde que sejam observadas as condições adequadas de armazenamento. Para oferecer o leite ao bebê, o descongelamento deve ser feito de maneira segura, preferencialmente na geladeira, e o aquecimento pode ser realizado em banho-maria morno. O uso de micro-ondas não é recomendado.
Amamentação pode continuar após o retorno
A volta ao trabalho não deve significar o fim da amamentação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a manutenção do aleitamento materno até os dois anos de idade ou mais, associado à introdução de outros alimentos a partir dos seis meses.
“Os períodos de ausência da mãe não precisam representar o fim da amamentação. Nos momentos em que estiver com o bebê, ela pode priorizar a amamentação diretamente no peito, especialmente antes e depois do trabalho. A partir dos seis meses, outros alimentos passam a fazer parte da alimentação da criança e podem ser oferecidos nos horários em que a mãe estiver ausente, sempre de acordo com a orientação do pediatra”, explica Débora.
O Ministério da Saúde destaca que o retorno ao trabalho pode ser um momento crítico para a continuidade da amamentação, mas que é possível conciliar as duas atividades. A orientação é que a mulher mantenha a retirada do leite quando estiver longe do bebê, contribuindo para preservar a produção e possibilitando que a criança continue recebendo leite materno.
Além da alimentação, a amamentação também envolve afeto e conexão. Nos períodos em que estiver com o bebê, momentos de colo, contato físico, olhar, carinho e interação contribuem para fortalecer o vínculo entre mãe e filho.
Nesse processo, a rede de apoio também exerce papel importante. Familiares, cuidadores e profissionais de saúde podem ajudar na organização da rotina e oferecer segurança para que a mãe consiga manter o aleitamento.
O apoio às mulheres que amamentam também passou a contar com uma política nacional mais estruturada. Em outubro de 2024, o Ministério da Saúde instituiu o Programa Nacional de Promoção, Proteção e Apoio à Amamentação, com o objetivo de fortalecer e qualificar ações de promoção, proteção e apoio ao aleitamento nas Redes de Atenção à Saúde.
“Cada mãe e cada bebê têm uma realidade. Por isso, informação e orientação profissional são fundamentais para que esse momento de transição aconteça da melhor maneira possível. A volta ao trabalho pode exigir adaptações, mas não deve representar o encerramento da amamentação”, finaliza a pediatra.
Mães que tenham dúvidas sobre ordenha, armazenamento, oferta do leite ou continuidade do aleitamento devem procurar profissionais de saúde capacitados para receber orientações individualizadas.