Na foto, Cintia Lapa, diretora de Conteúdo e Performance Educacional da FTD Educação
- IDEB 2025 chegou a 4,5 na etapa, ainda abaixo da meta nacional; permanência, engajamento e preparação para o futuro são lacunas a serem superadas
O resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025 indica que a educação brasileira entrou em trajetória de recuperação após os impactos da pandemia, com a maior marca da série histórica iniciada em 2005. Ao mesmo tempo, os dados evidenciam o ponto mais crítico da educação básica: o ensino médio, etapa em que se concentram lacunas de aprendizagem, dificuldades de permanência e novos desafios ligados à saúde socioemocional dos estudantes e ao uso da inteligência artificial.
Entre 2023 e 2025, o Ideb passou de 6,0 para 6,3 nos anos iniciais do ensino fundamental, de 5,0 para 5,3 nos anos finais e de 4,3 para 4,5 no ensino médio. Nos anos iniciais, o país superou a meta de 6,0. Já nos anos finais e no ensino médio, os índices ficaram abaixo das metas de 5,5 e 5,2, respectivamente, revelando que, apesar do avanço, o país ainda não garante o nível de aprendizagem esperado ao final da educação básica, com desafios mais complexos.
As dificuldades envolvem defasagens de aprendizagem acumuladas, problemas de frequência e permanência e queda significativa no engajamento dos jovens, em um contexto de mudanças rápidas no mundo do trabalho e na maneira como os estudantes se relacionam com o conhecimento e as novas tecnologias.
Para Cintia Lapa, diretora de Conteúdo e Performance Educacional da FTD Educação, o quadro exige uma resposta consistente das redes de ensino. “O crescimento precisa ser reconhecido, mas ainda partimos de um patamar baixo de aprendizagem. O ensino médio concentra lacunas acumuladas ao longo da escolarização, dificuldades de frequência e permanência, menor engajamento dos jovens e desafios para relacionar o currículo às suas perspectivas de vida, continuidade dos estudos e inserção profissional. O próximo passo é transformar o avanço geral do indicador em uma política sustentada de aprendizagem, com atenção especial à matemática, à redução das desigualdades e ao apoio aos estudantes que chegam à etapa com defasagens”, afirma.
Além dos resultados acadêmicos, os indicadores reforçam que o vínculo dos jovens com a escola passa, cada vez mais, por fatores socioemocionais. Sensação de desencaixe entre o currículo e os projetos de vida, baixa percepção de pertencimento, dificuldade de enxergar sentido nas atividades escolares e ambientes pouco acolhedores impactam diretamente a motivação, a participação em sala de aula e a decisão de concluir ou não o ensino médio.
Nesse contexto, aproximar a escola das expectativas dos estudantes e trabalhar competências socioemocionais torna-se parte da estratégia para reduzir a evasão. Projetos de vida, escuta ativa, apoio psicossocial, oportunidades de participação e espaços de diálogo sobre futuro profissional e acadêmico são apontados por especialistas como elementos essenciais para reconstruir o vínculo dos jovens com a escola.
“A capacidade de relacionar a aprendizagem às perspectivas de futuro dos estudantes, fortalecer a motivação e criar ambientes que favoreçam a participação pode ser parte das estratégias para enfrentar os desafios de permanência e engajamento no ensino médio”, reforça Cintia Lapa.
Novo desafio: letramento digital e inteligência artificial
Enquanto lida com defasagens de aprendizagem e questões socioemocionais, o ensino médio passa a encarar um novo componente na formação dos estudantes: o uso massivo de tecnologias digitais e de inteligência artificial.
Pesquisa do Observatório Fundação Itaú em parceria com o Equidade.Info, realizada em 2025, indica que 84% dos estudantes já utilizam ferramentas de IA em seu dia a dia.
O dado mostra que a tecnologia está integrada à rotina dos jovens e coloca para as escolas a tarefa de orientar esse uso, evitando que a IA seja apenas um atalho para respostas prontas e estimulando seu potencial como ferramenta de apoio à aprendizagem.
Nesse cenário, o letramento digital e em inteligência artificial passa a ser parte central da formação. Os estudantes precisam desenvolver condições para:
- avaliar informações e reconhecer conteúdos produzidos por IA;
- compreender limites, vieses e riscos associados às ferramentas;
- utilizar a tecnologia de forma crítica, ética e responsável, articulando-a ao estudo e à construção de projetos de vida.
A presença crescente da IA também exige mudanças nas práticas pedagógicas e na forma como as atividades são propostas. Avaliações, tarefas e projetos precisam considerar que os estudantes já têm acesso a essas ferramentas e que o desafio não é apenas controlar seu uso, mas ensiná-los a utilizá-las com autonomia intelectual e responsabilidade.
O próximo Ideb encontrará estudantes que terão convivido ainda mais intensamente com ferramentas de IA ao longo da trajetória escolar, enquanto as redes seguem lidando com lacunas de aprendizagem e desafios de engajamento. A maneira como escolas e redes incorporam o letramento digital e em IA à formação dos jovens, sem perder de vista as desigualdades, o apoio socioemocional e a conexão com seus projetos futuros, tende a ser determinante para os resultados.
Para Cintia Lapa, a chave está em políticas educacionais integradas. “Para as redes de ensino, o desafio é preparar os estudantes para esse cenário sem perder de vista as questões que os resultados de 2025 já deixaram evidentes. É preciso conciliar recuperação de aprendizagem, apoio socioemocional e formação digital crítica, para que o ensino médio seja uma etapa que realmente abre caminhos para o futuro dos jovens”, conclui.
Sobre a FTD Educação
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