“A maior parte do aumento dos custos será absorvida pelas margens, já que o comércio terá pouco espaço para repassar reajustes aos consumidores”, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
“A alta de apenas 0,1% nas vendas do varejo em agosto revela um consumidor mais seletivo, que continua comprando, mas avalia com maior cuidado onde comprometer sua renda. O recuo de 4,2% nas vendas de móveis e eletrodomésticos reforça essa diferença de comportamento: produtos de maior valor e compras que podem ser adiadas tendem a sentir mais os efeitos dos juros elevados e das restrições orçamentárias. Não significa necessariamente uma perda generalizada de confiança, mas uma recuperação do consumo que ainda encontra limites no poder de compra das famílias. Para o comércio, o desafio é deixar de depender exclusivamente de descontos para atrair clientes. Será necessário melhorar a experiência de compra, oferecer condições de pagamento compatíveis com a renda e utilizar dados para compreender o comportamento do consumidor. Uma recuperação consistente dependerá da combinação de inflação controlada, crédito mais acessível e crescimento da renda real. Esse ambiente também abre espaço para o venture capital, especialmente em startups que desenvolvem soluções de inteligência artificial, pagamentos, logística e personalização do atendimento. A inovação pode ajudar o varejo a aumentar a produtividade e vender melhor, mesmo antes de uma aceleração mais expressiva do consumo”, Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest.
“O crescimento de apenas 0,1% nas vendas do varejo mostra que o consumo brasileiro ainda enfrenta dificuldades para ganhar força. Apesar da recuperação em relação ao mês anterior, o resultado abaixo das expectativas indica que o consumidor continua cauteloso na hora de gastar. Para o comércio, isso representa um desafio importante. As empresas precisam lidar com consumidores mais seletivos, que pesquisam preços, priorizam necessidades e avaliam melhor cada compra. No setor de artigos esportivos, percebemos a importância de oferecer produtos que combinem qualidade, funcionalidade e preços competitivos. O principal impacto desse cenário está na necessidade de adaptação do varejo. Mais do que vender, as empresas precisam entender as mudanças no comportamento do consumidor e encontrar formas de manter a competitividade. O crescimento sustentável do setor depende, sobretudo, da recuperação da confiança e do poder de compra das famílias”, Roberto Jalonetsky, CEO da Speedo Multisport.
“O fim da escala 6×1 pode acelerar a modernização do varejo brasileiro. Com vendas praticamente estáveis em agosto, aumentar preços não será suficiente para compensar os novos custos. Estimo que apenas 20% a 30% do custo adicional efetivo seja repassado aos consumidores em 2027, enquanto o restante deverá ser compensado por ganhos de produtividade ou absorvido pelas margens. Nesse cenário, o impacto líquido sobre o IPCA poderá ficar próximo de 0,05 ponto percentual. Nas empresas listadas na B3, como Magazine Luiza (MGLU3) e Lojas Renner (LREN3), a mudança tende a ampliar a atenção dos investidores à eficiência operacional e à capacidade de preservar margens. Um estudo da XP estima, em um cenário sem repasse de custos, impacto médio de 8% sobre o EBITDA e de 18% sobre o lucro líquido das varejistas analisadas. Isso pode acelerar investimentos em automação, gestão de equipes, pagamentos digitais e serviços financeiros integrados. As companhias que conseguirem aumentar a receita por hora trabalhada poderão transformar a reorganização da jornada em uma vantagem competitiva”, Letícia Moschioni, sócia da Finscale.
“A queda de 4,2% nas vendas de móveis e eletrodomésticos em agosto revela como o consumidor continua sensível aos preços e ao custo do financiamento. Nesse ambiente, o fim da escala 6×1 não deve provocar um repasse integral das despesas ao varejo. Minha estimativa é que entre 25% e 35% do custo adicional possa chegar aos preços em 2027, enquanto a maior parcela deverá ser compensada por produtividade ou absorvida pelas empresas. Com esses ajustes, o impacto líquido sobre o IPCA poderá ficar próximo de 0,08 ponto percentual. A redução da jornada também pode redistribuir o consumo ao longo da semana, especialmente em lazer, serviços e comércio de proximidade. Entretanto, o ganho de tempo livre não significa necessariamente maior poder de compra. Para que a mudança estimule o mercado, será fundamental preservar a renda real das famílias e criar condições para a redução dos juros, que continuam influenciando diretamente as decisões de consumo”, Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.
“Na minha avaliação, o fim da escala 6×1 pode trazer benefícios sociais, mas sua implementação em um momento de consumo enfraquecido tende a pressionar mais as empresas do que estimular o varejo. Com a demanda ainda limitada, acredito que a maior parte do aumento dos custos será absorvida pelas margens, já que o comércio terá pouco espaço para repassar reajustes aos consumidores. O impacto direto sobre a inflação deve ser relativamente moderado, especialmente se houver ganhos de produtividade, mas isso não significa ausência de consequências econômicas. Pequenos varejistas, que operam com margens apertadas, poderão reduzir contratações, investimentos e até horários de funcionamento, enquanto grandes redes terão mais capacidade de adaptação. Vejo, portanto, um risco de concentração de mercado e enfraquecimento do emprego formal, sem garantia de crescimento proporcional do consumo. Para os investidores, a mudança reforça a preferência por empresas eficientes, pouco endividadas e com maior capacidade de preservar margens”, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
“O varejo ficou praticamente parado em agosto. As vendas subiram apenas 0,1% em relação a julho e 0,4% em relação a agosto do ano passado. A queda de 4,2% em móveis e eletrodomésticos mostra que o consumidor está evitando compras que dependem de crédito. É nesse cenário que as empresas terão de se adaptar ao fim da escala 6×1, aprovado ontem pelo Senado. A jornada cai de 44 para 42 horas dois meses depois da promulgação e chega a 40 horas um ano depois. Por isso, em 2027 o comércio deve sentir apenas parte do custo. Com a demanda fraca, não vejo espaço para repassar tudo aos preços. A tendência é que a maior parte seja absorvida pelas margens, principalmente nas empresas menores. As estimativas de impacto ainda são muito diferentes. Pelas contas do Ipea, mesmo que todo o custo fosse repassado, os preços no comércio subiriam cerca de 1%. Já a CNI fala em alta média de 6,2%. Nenhuma das duas converte isso em pontos do IPCA, e qualquer número preciso hoje seria especulação. O que dá para afirmar é que, se as empresas ganharem produtividade, com escalas mais bem organizadas e mais tecnologia, o efeito na inflação deve ficar mais perto da estimativa do Ipea. Para o mercado, o efeito imediato é margem mais apertada no varejo e mais cautela para contratar e investir, até que as empresas entendam o tamanho do novo custo”, André Matos, CEO da MA7 Capital.
“A discussão sobre o fim da escala 6×1 acrescenta uma pressão doméstica a um cenário global influenciado pelos juros americanos, pelo câmbio e pelas expectativas de inflação. Com o varejo crescendo somente 0,1% em agosto, o espaço para reajustes permanece limitado. Estimo que entre 35% e 45% do custo adicional efetivo possa ser repassado aos preços em 2027, enquanto o restante deverá ser compensado por produtividade ou absorvido pelas margens. Nesse cenário, a pressão líquida sobre o IPCA poderá chegar a aproximadamente 0,12 ponto percentual. Na B3, o impacto poderá ser percebido principalmente na avaliação das varejistas. Um levantamento do BTG Pactual aponta que a redução da jornada pode comprimir as margens do setor em cerca de 1 ponto percentual e reduzir o EBITDA em aproximadamente 10%, mesmo considerando ganhos de eficiência. Para investidores, isso significa acompanhar de perto a capacidade de geração de caixa e a rentabilidade de companhias como Magazine Luiza (MGLU3) e Lojas Renner (LREN3). Caso a mudança também pressione as expectativas de inflação, os juros poderão permanecer elevados por mais tempo, influenciando o valor das ações. Por outro lado, ganhos consistentes de produtividade podem reduzir essa pressão e favorecer uma recuperação das empresas mais eficientes”, Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.